Por Pablo Gamalho Otero
Devo reconhecer que nunca me interessou a economia. Sou um consumidor habitual de ensaios de divulgação científica, mas nunca tive curiosidade por saber cousa nenhuma sobre a história dos modelos económicos. Sempre me considerei portanto o típico caso de analfabeto económico. Ora bem, face ao incremento exponencial de notícias relacionadas com este âmbito do conhecimento e o grande número de conversas informais sobre economia nas que me vejo forçado a tomar parte ativa, estou aproveitando as férias para documentar-me um pouco. Não é logo curiosidade intelectual, e mais bem pura necessidade, sobrevivência social. Ter algo que dizer para poder opinar e discutir com amigos entre petisco e petisco.
Antes de nada, quero pedir desculpas polo tamanho talvez excessivo deste artigo. Para quem conhecer bem a história recente dos modelos económicos, aconselho pular os dous parágrafos que vêm a seguir.
Após um mergulho de verão em blogues, enciclopédias e foros de economia, aprendi que o período que vai desde a Grande Depressão até hoje foi dominado em Ocidente por dous grandes modelos económicos: o Keynesianismo e o Monetarismo (também conhecido como Neoliberalismo). O primeiro, defendido ultimamente por prémios Nobel como Krugman e Stiglitz, baseia-se no fortalecimento do Estado para que este possa realizar políticas de estímulo do emprego mediante gasto público. O principal objetivo é o pleno emprego com um forte controlo da inflação, já que, segundo a teoria keynesiana, a inflação sobe quando baixa a taxa de desemprego, e ao contrário. O Keynesianismo critica a obsessão pola redução do défice orçamental e defende, portanto, o endividamento do Estado. Sugere que existe um certo grau de irracionalidade nos mercados que devem ser controlados e regulados por meio de instituições públicas. Os mercados são como nenos que precisam ser domesticados e adestrados. O Monetarismo ou Neoliberalismo, com base teórica na Escola de Chicago, prefere um Estado fraco e um forte controlo do défice público. Gosta do equilíbrio orçamental e de fixar tetos de gasto por decreto (como o que se vai aprovar mediante reforma constitucional na Espanha) para que os mercados não se zanguem. Considera que os mercados são criaturas bastante racionais que sabem bastante bem o que fão, embora não se atrevam a viver sozinhos. São adultos que ainda vivem na casa dos pais. Trata-se, portanto, de um liberalismo ‘light’ pois não aposta pola eliminação total do intervencionismo estatal. Além destes dous grandes modelos teóricos, no extremo do espectro liberal, encontramos a Escola Austríaca, que defende um liberalismo radical e fomenta a menor quantidade possível de intervenção do Estado em assuntos económicos. Os mercados são criaturas totalmente autónomas que percebem os Estados como entidades diabólicas que hão ser combatidas. Dentro desta escola, definiu-se a célebre teoria dos ciclos económicos, com períodos de crescimento e recessão. Afirmam que a intervenção do Estado provoca fortes desequilíbrios em época de crescimento. Este intervencionismo leva à formação de bolhas económicas que, quando explodem, causam as grandes recessões. Cumpre sublinhar que conseguiram prever a Grande Depressão do 29. Finalmente, para completarmos este esboço ou mapa macroeconómico, podemos confrontar os três modelos capitalistas citados acima com sistemas ou teorias de natureza anticapitalista, por exemplo a Teoria da Utilização Progressiva, sistema económico baseado no fomento de cooperativas, assim como na defesa da democracia direta para garantir a participação popular nas decisões económicas. Outro modelo semelhante é a teoria do Decrescimento, uma corrente de pensamento político-económico que fomenta o controlo da produção e consumo para restringir e limitar o crescimento económico não sustentável. Nos modelos anticapitalistas, as criaturas diabólicas são os mercados.
Não e preciso ser um grande analista para dar-se conta das óbvias relações entre estes modelos económicos e as diferentes correntes políticas que conhecemos: o Monetarismo corresponde-se com o centro-direita, o Keynesianismo com o centro-esquerda, o liberalismo radical com a direita conservadora e o anticapitalismo com a esquerda moderna (a esquerda ortodoxa continuaria ligada ao modelo económico marxista, do que não falei no anterior parágrafo para evitar ser demasiado prolixo). Desde a Grande Depressão do 29, em Ocidente o sistema financeiro está dominado polo Keynesianismo e o Monetarismo. O primeiro foi o modelo mais aplicado até a grande crise energética dos anos 70, onde apareceu a célebre estanflação: crescimento em paralelo da inflação e do desemprego. A estanflação abalou os alicerces do Keynesianismo, cujos princípios básicos baseavam-se na equação ‘inflação = pleno emprego’. Após a crise dos 70 e o fracasso do Keynesianismo, o Monetarismo neoliberal tornou-se a principal referência da economia ocidental. Vivemos hoje numa era monetarista com políticas neoliberais ortodoxas implementadas tanto por governos de centro-direita como de centro-esquerda. É curioso constatar que, independentemente que em Pontevedra governem pessoas seduzidas polo anticapitalismo, ou que em Madrid e em Washington os presidentes de Espanha e os EUA confessem serem keynesianos, o sistema financeiro continua a ser monetarista e obriga os governos a aplicarem políticas económicas neoliberais. O ‘status quo’ é também insensível aos avisos catastrofistas de economistas keynesianos, como o coitado Paul Krugman, quem leva vários anos avisando que a obsessão polo défice do Monetarismo dominante vai levar-nos a uma segunda recessão. Este prémio Nobel prevê que não haverá crescimento se os Estados não investem, polo menos, um 4% do seu PIB em políticas de estímulo do emprego. Ora bem, nada está a mudar. Mesmo se as estratégias de austeridade e redução do défice não semelham ser muito eficazes em Europa e nos EUA, o sistema financeiro, teimoso, continua a implementar o mesmo tipo de medidas monetaristas.
Esta situação é-me bem familiar. As políticas linguísticas na Galiza nos últimos trinta anos (desde que se instaurou o Monetarismo) continuam a aplicar, sem grande sucesso, o modelo isolacionista. Se fosse um fiel seguidor das teorias paranóico-conspirativas, acharia que existe uma ligação oculta entre Monetarismo e Isolacionismo. É óbvio que se trata só de uma coincidência histórica. No entanto, para além desta coincidência, se analisarmos um bocadinho os dous âmbitos (económico e linguístico), não é difícil encontrarmos alguns paralelismos interessantes. Passo logo a enumerar uma lista de aspetos comuns e diferenciadores entre o conflito económico a nível mundial e os nossos conflitos linguísticos domésticos.
Os teóricos do Monetarismo e do Keynesianismo costumam escrever artigos científicos para insultar-se e denegrir o adversário. Não só elaboram ideias e conceitos para encontrar erros ou defeitos nos argumentos do rival, senão que também inserem nas suas argumentações termos grosseiros para humilhar as teorias contrárias e as pessoas que as defendem. O mesmo acontece entre os nossos filólogos isolacionistas e reintegracionistas, No entanto, esta situação não e habitual na maioria das áreas científicas. Quando se corrige ou critica um modelo, o científico crítico tenta convencer os seus colegas com provas experimentais. Por outro lado, o científico criticado fica feliz pois sabe que está a ser citado e, portanto, as suas ideias tendem a ter mais impacto. É claro que os insultos entre científicos das ciências sociais estão motivados polo facto que as ideias discutidas são suscetíveis de serem aplicadas à sociedade mediante políticas específicas. Os economistas e linguistas insultam-se porque sabem que os seus modelos luitam por impor-se no âmbito do poder politico.
Isto acarreta também um alto grau de dogmatismo. É mais fácil que um camelo passe polo buraco de uma agulha que um economista monetarista se torne keynesiano. Provavelmente é também mais fácil que um rico entre no Reino dos Céus que um filólogo isolacionista acabe por abraçar o Reintegracionismo. Mesmo se uma observação rigorosa do objeto de estudo demonstrasse que a teoria está errada, os dogmáticos costumam dizer que o problema se encontra no objeto de estudo (que não se comporta como era esperado), e não na teoria que defendem. Isto não acontece na maioria das ciências, onde os protocolos de experimentação rigorosos permitem demonstrar que um modelo está errado. Não se costuma criticar o comportamento do fenómeno estudado. Se um modelo não funciona, modifica-se ou procura-se um outro mais ajustado com a observação.
Nas práticas dogmáticas, a argumentação teórica passa a um segundo plano e os esforços focam-se no proselitismo. Tece-se um discurso baseado na sedução de novos adeptos e na denigração das ideias dos adversários. Em vez de tentar convencer os rivais com argumentos científicos (algo pouco provável dado o alto grau de dogmatismo), o objetivo é ganhar novos adeptos entre os leigos. O âmbito de ação natural do proselitismo é o marketing político. Tanto keynesianos como monetaristas têm grande experiência na elaboração de termos para seduzir e denegrir, que se encontram já integrados no material genético dos principais partidos políticos. É bem interessante observar como os nossos políticos jogam com a terminologia para se referirem à mesma realidade económica: o que alguns monetaristas denominam ‘endividamento insustentável’ ou ‘dispêndio público’ é o que os keynesianos chamam ‘dinamização e estímulo da economia’. Quando os monetaristas falam de ‘mercados racionais e inteligentes’, os keynesianos preferem descrevê-los como ‘mercados insaciáveis’. Se os monetaristas utilizam os termos ‘austeridade’ e ‘controlo do défice’ para fazer referência às limitações do gasto público, os keynesianos falam de ‘recortes’ ou ‘tesouras’. O que um monetarista chama ‘investimento’ denomina-se ‘especulação’ em linguagem keynesiana. Por último, o ‘intervencionismo estatal’ dos monetaristas é a bem conhecida ‘regulação’ dos keynesianos. No caso do conflito isolacionismo-reintegracionismo, existe também uma ampla artilharia terminológica para denegrir e seduzir, mas semelha ficar restringida às discussões técnicas dos filólogos no âmbito académico. Em geral, esta terminologia nunca esteve focada em ganhar adeptos entre os neófitos. Dentro do Isolacionismo, a estratégia reintegracionista é definida como ‘lusista’ ou ‘portuguesa’, com o intuito de colocá-la num contexto alheio à nossa realidade, frente à sua própria estratégia autodenominada ‘via galega’ ou ‘de seu’, é dizer a nossa, a autêntica. Dentro do Reintegracionismo, os termos utilizados para denegrir são ‘isolacionista’, ‘autonomista’ e ‘via castelhana’, frente à noção mais aberta e positiva de ‘reintegração’ no espaço cultural lusófono. Nos últimos anos, a terminologia reintegracionista está a evoluir à procura de descritores mais sedutores, nomeadamente ‘estratégia de internacionalização’ ou ‘língua éMundial‘, que poderiam facilmente ser aceites por qualquer partido político. Igualmente, um termo mais eficaz para denegrir o isolacionismo desde o ponto de vista do marketing político seria ‘via essencialista’. Este termo descreve uma realidade semelhante à referida por ‘isolacionista’, mas chega a mais gente (a minha mãe não sabe o que significa ‘isolar’ mas sim consegue imaginar o que é a ‘essência’). Em resumo, a oposição Internacionalismo-Essencialismo poderia ser um par terminológico muito mais eficiente em termos sociopolíticos para o Reintegracionismo. Como está a fazer a atual direção da AGAL, acho que é bom sabermos utilizar uma ampla rede de ferramentas, tanto conceptuais como terminológicas, para criar uma imagem de marca atrativa.
Porém, não só há semelhanças. Vejo também uma diferença crucial entre os dous pares analisados: Keynesianismo-Monetarismo, por um lado, e Internacionalismo-Essencialismo, por outro. Em quanto que os dous modelos económicos foram aplicados em diferentes momentos históricos, nenhuma política linguística chegou a aplicar o Internacionalismo. Esta estratégia segue o mesmo roteiro de marginalidade que o liberalismo radical ou o anticapitalismo, nunca aplicados até hoje. O facto de o Keynesianismo ter sido aplicado no passado faz com que pareça um modelo mais facilmente aplicável no futuro. Ademais, a sua aplicação permitiu encontrar falhas teóricas (lembre-se a estanflação) que levaram a uma revisão do modelo polos neo-keynesianos. Portanto, mesmo se não está a ser aplicado desde há vários anos, é visto como uma alternativa possível a médio e longo prazo. Isto não acontece com o Internacionalismo. Os indicadores de seguimento do Essencialismo (sondagens sobre uso do galego, número de médios de comunicação em galego, etc.) mostram que esta estratégia não é a mais apropriada hoje em dia. Ora bem, dado que o Internacionalismo não é percebido como um modelo aplicável, as políticas essencialistas mantêm-se por inércia. Não tem rival no âmbito da política. Seria importante que a sociedade (incluídos os essencialistas teóricos) se apercebesse que as políticas linguísticas melhorariam em qualidade se houvesse alternativas ao Essencialismo. As alternâncias fortalecem tanto os ganhadores como os perdedores. Dez anos de aplicação do Internacionalismo, por exemplo, permitiria descobrir falhas nos princípios básicos do modelo, que agora mesmo ficam invisíveis. Além disso, o Essencialismo teria tempo para renovar-se, corrigir erros e, voltar de novo a ser aplicado, se os indicadores de seguimento mostrassem que algo não bate certo com a via internacionalista. Como no caso dos modelos económicos, nasceriam modelos neo-essencialistas e neo-internacionalistas mais eficientes e, mesmo talvez, posições híbridas melhor adaptadas à nossa realidade. É o jogo da alternância. A história dos modelos económicos, mesmo se não gostemos deles, ensina-nos que estão inseridos numa dinâmica de transformação: vão evoluindo (embora muito lentamente) a medida que vão alternando-se como ideologias programáticas do sistema financeiro. Tais transformações permitem enxergar algum tipo de progresso dialético hegeliano. No plano das políticas linguísticas galegas, polo contrário, só há imobilidade. Não há dialética de transformação, apenas o eterno retorno do Ser imóvel e aborrecido dos monoteístas.
