Margarita Ledo: “A língua precisa de umha mudança ontológica: passar a ser corpo dissidente em troca de corpo oprimido”



Neste ano 2021 cumprem-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, iremos realizar ao longo de todo o ano umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para nos darem a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom para o futuro. Desta volta entrevistamos a jornalista, docente e cineasta Margarita Ledo.

Tamara de la Fuente

Tamara de la Fuente

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
Para mim, que pola minha origem como jornalista atravessei aquele tempo em que as organizaçons sociais levavam as suas novas e toma de posiçom em galego aos meios de comunicaçom e introduziam a língua na informaçom; para quem, como eu, em 1977 bota a andar o jornal A Nosa Terra, umha iniciativa fulcral foi a criaçom de meios públicos na nossa fala, com estatutos que os comprometem com o idioma. Porém, como acontece em muitos âmbitos da intervençom oficial, a sua aplicaçom, tanto na programaçom como na qualidade da língua, transgride os textos fundacionais.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situaçom na atualidade fosse melhor?
Aquelas comissons de “especialistas” autonomistas, enganchados ao espanhol como referência e, no fundo, à hegemonia parlamentar dos partidos que nem ousam desenvolver o que se legisla, mesmo a LNL ou, mais perto, a Iniciativa Paz Andrade, por exemplo.

Mudaria aquelas comissons de “especialistas” autonomistas, enganchados ao espanhol como referência e, no fundo, à hegemonia parlamentar dos partidos que nem ousam desenvolver o que se legisla, mesmo a LNL ou, mais perto, a Iniciativa Paz Andrade, por exemplo.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Se coincidimos em que a língua é a nossa maior construçom comunal, que leva as marcas de momentos emancipatórios e de outros de submetimento, a posta em prática do galego desde os níveis do conhecimento especializado ao coloquial, passa por um trabalho ingente de recuperaçom formal e de sentido que talvez precise de umha mudança ontológica: passar a ser corpo dissidente em troca de corpo oprimido.

1986-Homenaxe ao Zeca Afonso em Castrelos, Vigo.

1986-Homenaxe ao Zeca Afonso em Castrelos, Vigo.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, umha similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
Como umha das variantes do sistema do galego-português, a língua de Galiza precisa de umha norma de seu, sem botar sombra  nem no devalo histórico nem numha situaçom de  constante agressom que cómpre reverter. Ou será considerada “quase” umha língua.  Nisto assemelha-se a essa consideraçom sobre as mulheres que o patriarcado meteu nos miolos:  como “quase” gente, sem alma, sem direito à fala. Talvez para usos pontuais -como se tem feito noutra altura com a ediçom de antologias de Manuel María e de Celso Emilio- poda adaptar-se a grafia. O que nom resta que se intensifiquem os intercâmbios, que aprendamos as diferenças, que fagamos circular cinema de  cada variante  entre nós -fai-no umha distribuidora independente como Atalante- e que  o cinema em língua galega seja reconhecido além.


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