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Marcos Abaldes: «A perseguiçom ao reintegracionismo é próprio dumha sociedade totalitária»

PGL Países Cataláns – A sexta-feira 19 às 19h30, realizará-se no Ateneu Barcelonès da capital catalã (carrer Canuda 6) umha leitura dramatizada da obra de teatro Canibalismo, escrita por Marcos Abalde. Esta obra obteve o reconhecimento da crítica com a consecuçom, há oito meses, do XI Prêmio Josep Robrenyo.

Aproveitamos este próximo evento para conversar com o autor em torno a umha série de questons presentes na rija fabulaçom que constitui Canibalismo.

O título da tua obra, Canibalismo, e as cenas de crueldade que se dam nela, remetem a umha visom hobbesiana das pessoas segundo as quais «o homem é um lobo para o homem»?

Nom é umha questom natural, mas produto da organizaçom social. A obra nom quer ser misantropa, polo contrário quer ser um esconjuro. Embora eu tenha mui pouca esperança nesse homem branco proprietário. Dá-se a mesma dinámica constantemente. Os seres humanos tornamo-nos mercadoria e os imigrantes som a antonomásia deste processo.

Saiu há pouco nos mídia o escándalo do monstro de Amstetten como se fosse esse cidadão austríaco simplesmente um repugnante degenerado, umha excepçom da história, e nom a própria essência da nossa civilizaçom. Europa, Ocidente em geral, relaciona-se de uma maneira muito semelhante com essas três quartas partes da humanidade empobrecidas, violadas, torturadas e invisibilizadas umha e outra vez. Três quartas partes da humanidade que nom só moram debaixo da nossa casa, senom que a sustentam.

E nós comportamo-nos como a mulher do mostro que prefere nom saber, que escolhe nom saber, fazer-se a despistada, olhar para outro lado, estar tranquila e de quando em vez recolher umha criança à porta da casa ou algum negro agonizante na praia. E assim até que passem vinte e quatro anos e se abram os campos de concentraçom ou as entranhas da Europa e botemos as mãos à cabeça perante tanto sofrimento que se pudo evitar, que pudemos evitar. A imigraçom lembra-nos este abismo.

Antes de mais, o que é Canibalismo?

É umha reflexom sobre uma sociedade como a nossa que caminha para o abismo. Após duas guerras mundiais continuam-se a transmitir os mesmos valores. Continua essa tendência de submeter, dominar, controlar, humilhar e -de chegar o caso- exterminar indivíduos ou povos inteiros.

O pensamento ocidental fundamenta-se nessa pulsom de devorarmo-nos os uns aos outros. O capitalismo baseia-se no domínio do outro, na sua exploraçom, na sua anulaçom. Sessenta anos depois de Auschwitz pode-se dizer que a humanidade nom aprendeu nada.

Sarajevo é uma referência constante. Que representa esta cidade para ti?

Quando se estavam a realizar matanças e violaçons massivas em Bosnia, quando Sarajevo sofria o cerco mais longo da História moderna, Europa tocava o violino. Sarajevo é a capital da Europa, no sentido com qual Žižek identifica a universalidade com a questom da exclusom. A principios do Sec. XX, Marina Tsvietáieva exprimia umha ideia semelhante num verso: «Todos os poetas som judeus». Agora haveria que dizer que todos os poetas som palestinos.

O texto de Canibalismo é dumha grande complexidade. Foi escrito para ser lido ou concebes a sua representaçom?

Escrevim-no por prazer e apresentei-no ao premio por necessidade econômica. Heiner Müller achava que o texto mais interessante para o teatro é aquele que oferece resistência à representaçom. De se chegar a encenar, espero que a representaçom nom se reduza à palavra, que se abra às linguagens das artes cênicas, que sirva de catapulta.

É muito mais interessante que se emancipem as linguagens, que se questione o cánone, que se quebrem as jerarquias, que se deixe de fazer pintura figurativa, que nom se assuma nengum tipo de dominaçom, que se dissolvam as fronteiras genéricas, que polo menos seja o teatro um espaço libertado, um laboratório social. Também acrescentar que o texto vai aparecer proximamente em papel graças a Estaleiro Editora.

Tu vens dum gênero como a poesia e isso parece notar-se na tua incursom no teatro, realizada com um lirismo notável. Quiseste quebrar os gêneros literários? Estamos acaso ante umha obra que poderia ser qualificada de poética?

A grandeza do teatro é a possibilidade que tem a poesia de se levantar sobre o cenário, de se tornar física, colectiva, em construçom e derrube. A poesia está muito próxima ao teatro, muito mais que a narrativa. A palavra no teatro é mais honesta, mais real porque se faz visível a si própria, porque se contrapom a um Estado-Capital que decreta ficçons ocultadas sob o nome de normalidade ou, melhor dito, de barbárie. Perante esta situaçom, acho fundamental recuperar a capacidade poética, a dimensom lúdica tanto no teatro como na vida. A linguagem deve negar-se a assumir o espaço convencional, consensual. Embora hoje ainda seja dominante o logocentrismo do teatro subordinado ao texto.

Canibalismo reflicte criticamente sobre umha série de assuntos que formam parte do nosso quotidiano: a xenofobia, o patriarcado, etc. Es dos que pensam que o artista deve intervir mediante o seu ofício na realidade que lhe envolve?

O artista nom chega de Marte, pode aparentar comportar-se como um astronauta, mas sempre intervém de um lado ou do outro, queira ou nom. Numha sociedade de classes é impossível a neutralidade. O activista é umha espécie de poeta social. Tenta aproximar a utopia à realidade. Transformar o mundo, mudar a vida. O seu teatro é a rua, as relaçons sociais, a redistribuiçom da riqueza, o questionamento do marco, dos papeis, dos silêncios e, também, dos aplausos.

Augusto Boal tem muito que dizer nestes assuntos. A respeito do compromisso do artista. Eu gosto de lembrar uns versos de Sarrionandia: «Quando o comisário Ángel Martínez mete o cano do seu revólver/ no anus do detido e a mira sai suja, ensanguentada, patética,/ que importa ao rapaz torturado se o poeta é um fingidor?»

Como «jovem escritor galego» provavelmente padeces as eventualidades que afectam o resto dos e das tuas colegas em Galiza. Para além disso, e talvez como dificuldade engadida, tens um compromisso práctico com uma concepçom reintegracionista do idioma. Gostaria que reflexiones sobre o que supõem estas questons para ti.

Sem entrarmos em questons lingüísticas. É indiscutível a unidade da língua às duas margens do Minho. A mim parece-me um escándalo, do ponto de vista ético, cívico, democrático, esta marginalizaçom a que se quer condenar o reintegracionismo, com todo o que significa de damnatio memoriae, de negaçom da tradiçom do galeguismo histórico. Esta perseguiçom é própria de uma sociedade totalitária.

Como é possível que practicamente nom existam prémios literarios con liberdade normativa? Que nas aulas de galego nom se de nengumha noçom das outras variantes da galegofonia e das suas literaturas? Que ainda nom chegassem as rádios e televisons portuguesas? Que haja uma explícita censura nos subsídios de Política Lingüística a asociaçons culturais ou periódicos que nom desenvolvam as suas actividades no galego RAG-ILG 2003? Ou mesmo que seja quase impossível editar um livro ou publicar um simples artigo se nom é nessa ortografia?

Medidas como estas que restringem a liberdade intelectual e de expresom e o desenvolvemento social e económico da Galiza têm um porquê e esse porquê só pode provocar vergonha e nojo.

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