Por Ernesto Vasques Souza (*)
Tantum religio potuit suadere malorum
Lucrécio
Contra tudo quanto nos apreendeu a modernidade na procura do mais sólido Estado-Nação, no ronsel funesto da filosofia cristã e a sua consolidação como religião Imperial, o modelo único, inquestionável na ortodoxia, não é cousa boa, nem útil.
Quase 40 anos depois, podemos perguntar-nos, quanto à língua, de que serve ou a quem a teima de unidade? O dano dos anos 80, do “piñeirismo”, não é a Norma sacralizada pelo autonomismo, foi a exclusão, a rotura, o confronto, a perseguição, a quebra da convivência entre tradições e práticas, entre escolas de escrita e pensamento.
E mais quando aconteceu porque a escola e a legislação espanhola armadilharam o ritmo de uma obrigada unidade administrativa, limitada por lei ao território autonómico.
Diversa era, é, a prática: diferentes as tradições escritas, tanto que dificilmente podemos falar de normas consolidadas: raros são os casos professor-aluno, e mais extraordinários os grupos homogéneos e publicações corrigidas. Há teoria de escolas posicionadas, tendências pré-fixadas, critérios comuns defendidos.
Mas nenhuma escola ou teoria é mais perfeita do que a qualidade dos mestres que nela participem, nenhum modelo programado mais estratégico, nem mais perfeito tecnicamente, do que os seus resultados demonstrarem; nenhuma norma mais ajustada socialmente, nem histórica do que a moda ou a narrativa histórica futura queiram demonstrar.
A experiência diz que são mais produtivos os espaços de convivência e tolerância de práticas, que o terror e o silêncio. A realidade é de prática mútipla que todos fomos aprendendo, como pudemos, para sairmos do comum analfabetismo.
Por que não mudar a lógica e estabelecer que toda norma é boa mentres não haja um Estado galego, uma escola galega. E mesmo depois, visto o visto, por que têm de se gastar esforços na procura de uma Norma única prévia enquanto socialmente não houver consenso?
Seja como for, nos modelos enxebristas definidos por aquilo de “ser diferente é ser existente” o categorizado alheio (seja castelhano, seja português, seja alternativo) substrai, por princípio. Nos modelos abertos tudo suma, até o excludente, pois retifica, aquilata, reforça, questiona as estruturas bases, estabelece variantes formais, de contexto, registro ou dialeto.
Num modelo aberto, cabem, são parte, todas as escolas, todos os esforços de tantos anos, inteira a tradição e escrita. No meu escrever, a independência, sabor e força vêm garantidas pelos sedimentos de todos os elementos constituintes, pelo léxico ambiente, pelas morfologias populares, dialetais, e arcaicas, pela fraseologia, pela fortíssima tradição literária, as hesitantes normas gramaticais, pela história e política desse também dubitativo duplo iberismo nosso.
A minha achega é filha de leituras, teimas, contato com diversos grupos, escolas e perspectivas, original como a minha opinião, intransferível no seu trânsito e construção. Porém soma, e é ajeitada pelos contributos doutros que me lerem e nos que eu leio.
O conjunto desenha-se socialmente, por acaso múltiplo, capilaridade, influência, magistério de vozes, figuras ou escolha ambiente inconsciente. Um por um e escola e a estilo, vão-se achegando peças e ideias, para que os leitores e utentes do futuro, quais humanistas doutrora, façam entre ensaio e erro o seu sufrágio.
Deixemos acontecer, longe melhor dessa obsessão do modelo único perfeito e prévio, que mais rico é o caldo quanta mais e variada substância.
(*) Opiniom publicada originalmente no n.º 126 do Novas da Galiza.
