Associação de Docentes de Português na Galiza

Loaira Martínez: “Queríamos demonstrar como vão ser capazes de falar português ao concluir Bacharelato”



A DPG acaba de lançar uma campanha audiovisual para incentivar a escolha do português nos centros escolares do ensino secundário. Com motivo desta iniciativa, entrevistamos a sua presidenta, Loaira Martínez Rey, professora de português, língua estrangeira, no IES de Cacheiras, em Teio.

A DPG está a encorajar [email protected] da ESO e de BAC a se inscreverem em português no próximo ano letivo com este vídeo. O português é um amor à primeira vista, com certeza, mas antes é preciso ocorrer a visualização, que é um dos objetivos desta campanha, não é?

loairaÉ sim, queremos visualizar que já é possível estudar português em muitos centros de ensino, que é divertido e que é só darem o passo, matricular-se. Queremos que esta ideia chegue a todas as alunas e alunos. É só isso, sim, mas também é um vídeo pensado para tornar visível como é fácil para o alunado galego compreender português sem estudos prévios, mostrar que é uma língua moderna que “está na moda” e vai estar ainda mais. Também queríamos demonstrar como vão ser capazes de falar português ao concluir Bacharelato.

É um vídeo pensado para tornar visível como é fácil para o alunado galego compreender português sem estudos prévios, mostrar que é uma língua moderna que “está na moda” e vai estar ainda mais. Também queríamos demonstrar como vão ser capazes de falar português ao concluir Bacharelato.

Quais são os passos para haver a oferta de português nos centros de ensino? Todo o estudantado podem fazer essa escolha na atualidade?

A nossa associação representa docentes dos diferentes modelos de ensino. Há diferentes tipos de centros e em cada modalidade há passos diferentes a dar. Os centros interessados podem contactar connosco porque uma das nossas missões é aconselhar sobre os passos a dar. Recentemente lançamos uma campanha informativa também para FP com os requerimentos neste tipo de centros. Sabemos que o modelo IES costuma ser o mais representativo e por isso a campanha do vídeo promocional dirige-se concretamente a esse público alvo, mas como associação promovemos a inscrição em matérias de português ou em português em qualquer tipo de centro.

No caso do ensino obrigatório entendemos que a Conselharia teria que encontrar, junto com associações como a nossa, um modelo adequado que facilitasse a recolha de dados para que possa ser oferecido de maneira global, o quanto antes, em todos os centros. Entre as nossas propostas como associação, seguindo a esteira da Paz Andrade, está a existência em todos os IES dalgum processo de pré-matrícula em português ali onde ainda não existir, visando recolher dados em base às necessidades reais para alargar progressivamente a matéria a todo o território.

Entre as nossas propostas como associação, seguindo a esteira da Paz Andrade, está a existência em todos os IES dalgum processo de pré-matrícula em português ali onde ainda não existir, visando recolher dados em base às necessidades reais para alargar progressivamente a matéria a todo o território.

Com respeito à segunda pergunta, hoje o português não se oferece ainda em todos os centros e por isso parte do alunado interessado não se poderá matricular. Pensamos que através de ANPAS, do próprio alunado, do corpo docente e da nossa associação podemos fazer muito para aumentar a presença do português.

Os números na Extremadura, como se sabe, são bem diferentes dos galegos. Quais são as causas?

A situação linguística da Extremadura é completamente diferente à da Galiza. Por um lado, a nível social, na Galiza ainda existem preconceitos em relação à utilidade do galego, preconceitos ligados também em geral à utilidade do português. Por outro lado, a nível institucional, se bem é verdade que o apoio por parte da Xunta ao português tem melhorado, a realidade indica que é ainda claramente insuficiente. Comparativamente, no que respeita ao secundário, a aposta de longa data no português realizada pelo governo da Extremadura continua a ser a referência, digamos o modelo expansivo a imitar. Um dos objetivos da nossa associação é atingirmos o antes possível dados de oferta semelhantes em relação ao secundário; no nosso contexto isto significa uns 300 docentes da especialidade no secundário. Hoje contamos com menos de 40 especialistas em secundário, entre funcionários (7) e substitutos (25).

Um dos objetivos da nossa associação é atingirmos o antes possível dados de oferta semelhantes à Extremadura em relação ao secundário; no nosso contexto isto significa uns 300 docentes da especialidade no secundário. Hoje contamos com menos de 40 especialistas em secundário, entre funcionários (7) e substitutos (25).

Esta campanha conta com o apoio da SXPL. Em que medida a aprendizagem de português de Portugal, da Angola e do Brasil pode ser útil para a saúde social do galego?

O ensino de português é um elemento favorável para melhorar a situação linguística da Galiza. Este é um lugar-comum que já ninguém discute após a aprovação da ILP Paz Andrade. A saúde do galego continua a precisar de todos os apoios possíveis: o número de falantes de galego é cada vez menor, os espaços de exposição à língua continuam a ser limitados e o galego está cada vez mais castelhanizado. Isso traduz-se num menor número de inputs linguísticos que permitam a aprendizagem da língua e a sua reprodução. Mas o português não é apenas “mais um” reforço qualquer para a saúde do galego, mas atua também como regenerador imprescindível. Um exemplo claro é o infinitivo pessoal que embora exista no galego que se ensina na escola não está muito presente na língua do dia a dia. No mundo do português acontece ao contrário, é difícil lermos um texto em português ou ouvirmos uma pessoa a falar sem que apareça esta forma verbal a toda a hora. Isto torna mais familiar e natural o uso habitual desta forma. O seu uso corrente em português inevitavelmente acaba por transitar para o galego falado no dia a dia. O mesmo acontece com léxico galego que foi substituído e condicionado pelo papel do castelhano. Alguns exemplos? Bochecha, cartaz, rebolar ou os dias da semana tradicionais; a oportunidade de estas formas serem recuperadas e aceites com normalidade em galego estará em naturalizar a sua existência em português. A aprendizagem formal de português e o acesso ao seu universo cultural já estão a ser o grande aliado do galego.

O que tem a ganhar uma criança, um adolescente da Galiza com as aulas de português no seu centro escolar?

Hoje em dia o português é uma língua global em pleno crescimento. Ganha o acesso a um universo de mais de 260 milhões de falantes repartidos por todo o planeta e uma nova visão do potencial cultural que tem esta língua. Língua que também é deles pelo facto de serem galegos.

Podem por exemplo começar a aprender a como se apresentar através de vídeos de crianças de Timor-Leste como faço nas minhas aulas. De um ponto de vista mais prático, no aspeto académico, a matéria representa, por um lado, uma oportunidade para aquelas crianças e adolescentes que contam com dificuldades noutras línguas estrangeiras. Pelo outro lado para quem quer aprender uma língua estrangeira e adquirir competências num nível elevado, aqui consegue. No nosso contexto, aprender português, com o espaço académico adequado, é simples e altamente produtivo. A progressão para quem tem mais vontade de aprender costuma ser exponencial, e com aquilo que se aprende até 2º de Bac, um aluno continuará a progredir ao longo da sua vida num nível muito superior ao doutras línguas estrangeiras.

Para além disso, ganham também uma visão da sua própria língua que quebra todos os preconceitos, não apenas ao pôr em valor os seus conhecimentos prévios de galego, mas ao entrar em contacto com a língua real usada em qualquer contexto comunicativo. Em resumo: Uma visão mais alargada da língua e das culturas lusófonas, melhoria académica indiscutível, aquisição de competências numa língua estrangeira útil e vitaminas, muitas vitaminas para o galego.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


PUBLICIDADE