Leonor Gomes: “Parece-me que cada vez mais portugueses compreendem a real ligação à Galiza”



Leonor Gomes, beiroa, é arqueóloga de formação mas sente-se como uma pensadora antropológica. Arrependeu-se de estudar Arqueologia porque o seu interesse eram as suas conclusões, não os seus problemas. Cheia de curiosidades, a sua maneira de se sentir íntegra é desintegrando-se por tudo o que suscite o seu interesse. O seu primeiro contacto com o reintegracionismo foi revendo uma entrevista ao Eduardo Maragoto. Quando escuta o galego das pessoas mais idosas, e especialmente rurais, lembra o falar das gerações mais antigas da sua família da Beira Alta.

Leonor Gomes tem uma formação em arqueologia mas não se considera uma “arqueóloga competente”. Que caraterísticas deve reunir essa categoria?
Considero a arqueologia como disciplina complementar ou como uma sub-disciplina da antropologia que estuda o ser humano através da sua cultura material – isto é, todos os objectos e estruturas físicas que um ser humano possa ter deixado para trás. Segundo me foi incutido e eu fui vendo, um bom arqueólogo deve ser extremamente metódico, técnico e capaz de aceder agilmente a um conhecimento enciclopédico do seu período de estudos e das morfologias individuais destes restos físicos. No final, arrependi-me, pois concluí que o que me interessava na arqueologia eram as suas conclusões, não os seus problemas. Para ser mais clara, ao estudar os artigos científicos para as aulas, aborrecia-me a leitura descritiva de centenas de peças líticas, por exemplo, mas entusiasmava-me com as suas implicações para o desenvolvimento cognitivo do Homem primitivo, ou para a sua produção cultural, a sua organização política. Gosto de juntar várias conclusões para formar teorias alargadas.
A antropologia é mais multidisciplinar e procura uma verdade mais “holística” no estudo do ser humano, considerando os factores biológicos, históricos e socio-culturais e eu sinto-me mais confortável neste tipo de raciocínio. Claro que existem especializações dentro da antropologia, mas eu sempre fui gananciosa e ainda não consegui apaixonar-me por uma matéria muito específica. Por isso, decidi que me debruçaria sobre a ciência cognitiva nos próximos tempos. A ciência cognitiva combina uma série de disciplinas científicas e humanísticas na tentativa de estudar o nosso cérebro como processador de informação. Se tivesse que especificar, interesso-me pelo aspecto evolutivo do género homo – contudo, até isso implica conjurar os milhares de culturas, comportamentos e etapas físicas do ser humano e seus antepassados símios!

A ciência cognitiva combina uma série de disciplinas científicas e humanísticas na tentativa de estudar o nosso cérebro como processador de informação. Se tivesse que especificar, interesso-me pelo aspecto evolutivo do género homo – contudo, até isso implica conjurar os milhares de culturas, comportamentos e etapas físicas do ser humano e seus antepassados símios!

Outro motivo pelo qual não seria competente como arqueóloga é a prática. Um arqueólogo tipicamente escava ao longo da sua formação, faz trabalho de campo e tem tarefas de laboratório específicas, coisas que nunca cheguei a fazer. Fiquei-me pela teoria, como um astrónomo que nunca irá ao espaço.
Claro que as barreiras são ténues, e tanto antropólogos como arqueólogos devem ser capazes de relacionar informações de diversos campos, com uma grande capacidade crítica e de abstracção.

Tens ainda uma inclinação para a arte, a dança, a estética. São muitos seres a aninhar no mesmo corpo, não são?
No mesmo horário, talvez! No mesmo corpo, depende da perspectiva. Tenho a ideia de que todos possuímos uma curiosidade natural para o mundo e que o potencial de cada um se realiza através de múltiplos interesses, por vezes contraditórios. A sociedade em que estamos não ajuda, quer-nos optimizar para uma única tarefa e desde pequena que eu, pelo menos, me sinto muito constrangida.
Este modo de vida não está isento das suas crises existenciais. Mas a minha maneira de me sentir íntegra é desintegrando-me por tudo o que suscite o meu interesse.

Como foi o teu primeiro contacto com a estratégia reintegracionista?
O meu primeiro contacto com o reintegracionismo, e com a AGAL em particular, ocorreu no final de 2020 ou já em 2021 através do meu amigo sócio David Lloberas (já entrevistado), quando ele entrevistou o presidente Eduardo Maragoto. Quando o David quis publicar a entrevista numa revista portuguesa, pediu-me para rever o texto e, a partir daí, comecei a explorar e não parei mais.
Eu era ciente e simpatizante da proximidade etnográfica com os galegos, mas o estatuto e abordagens da língua eram abstracções para mim. O reintegracionismo transmitido pela AGAL foi a primeira problematização e estratégia tangíveis a que fui exposta. Foi também a ideologia que eu procurava para formar uma opinião, com confirmações de aspectos históricos e linguísticos que eu já pressentia. Entretanto, hoje estou mais informada e continuo a considerar o reintegracionismo a política mais racional e respeituosa para o povo galego.

O que será o que move as pessoas a preservar as heranças? Afinal, é mais fácil escorregar…
Sim, há uns tempos confessei-te que não sabia bem que força move as pessoas a preservar a herança dos seus antepassados. Continuei a reflectir sobre a questão e, na verdade, cheguei à resposta mais simples quando li um artigo sobre a diglossia na Galiza e vi que, em sondagens, a percepção externa acerca dos galegos era diferente quando estes falavam o galego ou o castelhano. É, portanto, uma problemática de identidade, de como queremos ser vistos e de como nos queremos ver a nós próprios.
A herança dos anciãos à nossa volta é uma referência fundamental enquanto crescemos, que deixa incrustadas em nós memórias, opiniões, instrução, uma grande nostalgia, mas, sobretudo, uma referência basilar. É uma origem à qual voltar quando nos sentimos perdidos, mesmo que seja imaterial: são sotaques, vocabulários, contos orais, cantigas, orações, cheiros, sabores. Portanto, quando expomos essa herança, queremos anunciar ao mundo que viemos dali e que queremos manter a referência próxima do nosso ser. Fazê-lo é dizer que ela merece um lugar no mundo porque existe em nós. Se a preservação é uma atitude egoísta, que seja, porque acaba por ser também comunitária.

Em que medida é complexo de perceber para uma pessoa de Portugal que na Galiza existe um fragmento da sua língua, ainda, um fragmento original?

Estou em crer que alguns portugueses ainda julgam que o galego é apenas um sotaque raiano do dito espanhol – porque, na verdade, se assemelha ao nosso portunhol quando tentamos falar castelhano sem formação!
No entanto, quando escuto o galego “mais puro”, o das pessoas mais idosas, e especialmente rurais, não deixo de me recordar do falar das gerações mais antigas da minha família da Beira Alta. Para não falar das semelhanças gritantes entre os raianos de ambos os lados!
Mas talvez o meu caso seja atípico, pois interesso-me por temas linguísticos e etnográficos e tento cultivar uma sensibilidade para tal. Porém, quando abordámos, na escola, a poesia galaico-portuguesa, nem eu nem os meus colegas a recebemos com estranheza. Aliás, penso que essa introdução nos currículos do português tem feito mais pelo esclarecimento nacional que o ensino que é feito de uma História atomizadora e ainda subtilmente colonialista e anti-espanholista (com isto entenda-se tudo o que provenha do outro lado da fronteira), como se o reino de Portugal ainda se debatesse com o reino de Castela. Mas quando lemos os poemas, a língua está lá e a língua não mente.
Uma das minhas missões em Compostela foi a “caça ao galego”, em que eu prestava atenção às conversas na rua e tentava descobrir quanto galego realmente ainda se fala. A sensação de familiaridade era imediata quando ouvia os velhos no banco do jardim ou a menina a pedir ‘áuga’ à mãe. Era inexplicavelmente comovente ver o galego a sobreviver, como encontrar casa em terra estranha.

Uma das minhas missões em Compostela foi a “caça ao galego”, em que eu prestava atenção às conversas na rua e tentava descobrir quanto galego realmente ainda se fala. A sensação de familiaridade era imediata quando ouvia os velhos no banco do jardim ou a menina a pedir ‘áuga’ à mãe. Era inexplicavelmente comovente ver o galego a sobreviver, como encontrar casa em terra estranha.

Resumindo, penso que a única carência em Portugal é a falta de exposição à realidade galega. Não é nada complexo. Uma vez que a exposição se dá, a percepção é quase imediata. E parece-me que cada vez mais portugueses compreendem a real ligação à Galiza.
Dou mais um exemplo: é comum, bem no interior português, sintonizarmos o rádio ou a televisão para os canais espanhóis, em particular a RTVE. Quando Portugal, nos anos 70 e 80, possuía uma única transmissora televisiva, a Rádio-Televisão Portuguesa (RTP), a minha mãe (e penso que muitos meninos da sua geração) cresceu a ver conteúdos espanhóis, porque às vezes lhe interessavam mais. E, quando ia passar os verões à casa de familiares em Lisboa, indignava-se de não possuírem a televisão espanhola, pois julgava que todos os portugueses tinham uma convivência diária e natural com o castelhano. E se uma criança presume isto com o castelhano, imaginemos com o galego!

Quais seriam as melhores vias para essa perceção ser maior?
Não posso dizer nada de novo aqui. Educação intelectualmente honesta, educação, educação, educação; consórcios entre Galiza e Portugal que promovam partilhas culturais (RTP-TVG); reforço das vias de comunicação (um comboio bi-diário Porto-Vigo é apenas uma iniciativa incipiente).
A real questão deve ser: que obstáculos nos impedem de pôr isto em prática e como podemos vencê-los?

Que te motivou a navegares no navio agálico? Qual deve ser a sua rota?
Copiando um parágrafo que te enviei há uns tempos:
A minha vontade de me associar foi a vontade de apoiar um projecto que procura enaltecer o galego enquanto galego e não enquanto “crioulização”, pois o processo de castelhanização – já o sabemos vastamente – foi feito de forma súbita, imperialista, violenta e, sobretudo, artificial.

A minha vontade de me associar foi a vontade de apoiar um projecto que procura enaltecer o galego enquanto galego e não enquanto “crioulização”, pois o processo de castelhanização – já o sabemos vastamente – foi feito de forma súbita, imperialista, violenta e, sobretudo, artificial.

As minhas motivações à parte, confesso que tenho sempre algum pudor em opinar acerca da rota do navio, pois não considero que seja o meu dever junto dos irmãos galegos. Para os portugueses simpatizantes e associados, partilho a minha perspectiva de que devemos evitar a tendência de infantilizar os galegos, como se tivessemos de os salvar, ou de os tentarmos convencer, à força, a virem para o nosso lado. O que podemos fazer é apoiar a sua auto-determinação, seja ela qual for. De igual modo, devemos questionar se existe e apoiar a viabilização de um poder de auto-determinação real.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” do conhecimento da Galiza em Portugal?
Gostaria que os portugueses possuíssem mais consciência sobre as origens românicas da sua língua e não cedessem à pressão anglo-saxónica. A verdade é que, com paciência mútua, toda a Ibéria é inteligível entre si, não apenas pela língua, também pelos costumes. E há espaço para todos. Importa menos o nome que damos às coisas do que o respeito pelo lugar da sua expressão. Galego é galego e português é português, mas são meras etiquetas identificativas e tendencialmente monolíticas que nem exprimem adequadamente a diversidade ao longo de ambas as regiões. Onde é que realmente traçamos o começo e o fim de uma cultura? É impossível! Somos um gradiente. O que importa, realmente, é que a irmandade Portugal-Galiza é inegável e os seus costumes não devem ter um travão à fronteira, mas realizar-se num contínuo que flui até ao restante mar ibérico.
Gostaria que os galeguismos, como tonalidades vizinhas, colorações irmãs, fossem reconhecidos e celebrados em Portugal. Um galego e um português, um brasileiro, um cidadão dos PALOP devem comunicar no seu respectivo dialecto, não em castelhano, não em inglês. Que absurdo. E isto, naturalmente, torna-se numa mais-valia diplomática.

Um galego e um português, um brasileiro, um cidadão dos PALOP devem comunicar no seu respectivo dialecto, não em castelhano, não em inglês. Que absurdo. E isto, naturalmente, torna-se numa mais-valia diplomática.

Conhecendo Leonor Gomes

Um sítio web: sinonimos.com.br

Um invento: a escrita

Uma música: Longo Camiño de Desaprendizaxe, dos galegos Sangre de Muerdago (antes da minha afeição pelo reintegracionismo, foram alguns conjuntos galegos que me introduziram ao admirável mundo do neo-folk ibérico)

Um livro: Parábola do Cágado Velho, de Pepetela (só porque já referiram o meu querido A Lã e a Neve)

Um facto histórico: a celebração do Dia das Letras de 2020, quando a Agal adiou a leitura do Scorpio ao vivo para 2021 e o nosso humilde grupo de portugueses foi calorosamente recebido.

Um prato na mesa: as tortilhas dos meus amigos do outro lado da fronteira

Um desporto: dança, claro!

Um filme: Baraka, de Ron Fricke

Uma maravilha: a Cordilheira Central

Além de português/portuguesa: horizontalista

 


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