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José Manuel Aldea: “O mercado cultural alvo para Galiza deveria ser o Brasil”

Entendendo a importáncia estratégica das ligações comerciais e económicas da Galiza com o Norte de Portugal, e as implicações e facilidades que a língua comum pode achegar nesse âmbito, a AGAL lança um novo desafio, consultar vozes autorizadas que possam deitar luz sobre a importáncia do estudo de português como ferramenta para as interações transfronteiriças.

Para isso, e com o apoio da Deputación da Corunha, hoje falamos com José Aldea, consultor cultural e editor, ex-diretor da Cultural, e de Viñetas desde o Atlántico e na atualidade diretor de Ouvirmos.

O que representa Ouvirmos no campo das relações culturais galego-portuguesas? O âmbito da programaçom cultural é um dos mais avançados. Mas, falta muito por fazer?

Ouvirmos somos umha pequena empresa galega que fomos transformando o nosso ámbito de trabalho e incidência cultural durante os anos. Primeiro fomos discográfica, e participamos nas primeiras candidaturas a património da UNESCO ligado ao património imaterial galego-português, com Ponte nas Ondas, penso que no ano 2009 ou 2010. Fomos evolucionando de ser discográfica a ser editora e desde há anos estamos volcados unicamente na gestom de grandes projetos e infraestruturas culturais. Esta é na fase em que estamos atualmente, e com isso temos várias experiências laborais e económicas no sector económico do Norte de Portugal. Ganhamos algum concurso público de gestom cultural em Portugal, o último foi um projeto que se chama Afándega Imaterial, realizado para a AECT Rio Minho, associaçom económica transfronteiriça, que som 26 concelhos e cámaras municipais galegos e portuguesas. Aí figemos um trabalho de catalogaçom do património imaterial, como produto cultural e turístico entre estes concelhos.

Também participamos noutros concursos públicos dentro deste terreno, com câmaras municipais e outras organizaçons económicas do norte de Portugal.

Ganhamos algum concurso público de gestom cultural em Portugal, o último foi um projeto que se chama Afándega Imaterial, realizado para a AECT Rio Minho, associaçom económica transfronteiriça, que som 26 concelhos e cámaras municipais galegos e portuguesas.

As relações económicas vão à frente das sociais, culturais ou institucionais?

O que vai por diante do mundo cultural som as relaçons políticas. O que se bota em falta é que nom haja mais sinergias entre empresas e que definitivamente se comparta o mercado cultural. Nota-se muita afluência de turismo cultural à zona do Porto desde o sul da Galiza. Vigo – Porto. As propostas mais avançadas já se deslocarom a Porto, e o público mais desejoso de consumir cultura de qualidade está baixando muito ali, onde há grandes centros culturais de referência como atualmente está sendo a Feira do livro ou Serralves, que está programando a nível internacional com umha qualidade excelente.

Faltaria troca social, de públicos, de empresas e desenvolvimento de projetos em comum.

Há alguns anos figemos um congresso, com a Deputaçom de Ponte Vedra, Culturminho, entre empresas culturais galegas e do norte de Portugal durante a pandemia.

Foto de Miguel Souto

Qual o papel das eurocidades a tentar integrar todas as vias de integração?

As eurocidades, se em algum lugar da Europa tenhem sentido, é aqui, polos vínculos histórico, patrimoniais e de identidade, muito próxima. Tanto Verim-Chaves como Tominho-Cerveira já estám a trabalhar a passos mui grandes nesse sentido, partilhando linhas de autocarros para o ócio noturno, ou bicicletas e sendas verdes comuns. Eu penso que isso é o futuro.

As câmaras galegas som mui pequenas em populaçom, e a procura de sinergia com câmaras portuguesas dá muita capacidade de aceder a fundos europeus. Está a funcionar mui bem, com cousas concretas muito para além da teorizaçom, estám numha fase completamente prática.

Os vínculos culturais e históricos são importantes para fortalecer os laços económicos? E vice-versa?

Por umha parte está esta linha de trabalho mais historicista, mais cultural, e por outra, estám os fluxos económicos e das empresas, que estám a trabalhar a passos de gigantes. A produçom automobilística, por exemplo, já tem muitos galegos, nom sei se centos ou milhares, mas há muitos galegos a trabalharem em nesse setor em Portugal. A nível económico isso já está a acontecer, há projetos de desenvolvimento económico plenamente assentados. Penso que nom é igual em outras zonas da Europa onde as fronteiras delimitam zonas culturais claramente diferentes; o caso galego com o norte de Portugal é muito próximo, nom há tanto tempo éramos o mesmo país e estávamos baixo os mesmos governantes, ou parecidos, mas nunca deixamos de partilhar usos, costumes e vivências gastronómicas, culturais e afetivas muito similares. E isso une mais do que questons políticas.

A reintegração linguística tem um papel entre as outras integrações todas que parecem querer avançar?

Isso é a causa principal. Modestamente, nós temos também algumha experiência internacional e lembro em concreto, umha missom comercial amparada polo Ministério de Cultura espanhol, ao Brasil: os galegos éramos os únicos que podíamos falar na nossa língua no Brasil. Qual seria a surpresa para o resto da equipa, espanhóis e cataláns incluídos, que diziam, “carai, se nós tivéssemos esta facilidade linguística e de comunicaçom…”. Muitas vezes focamos em Portugal, mas realmente, o mercado cultural alvo para Galiza deveria ser Brasil. É umha das grandes economias mundiais, e com muita potencialidade no ámbito da gestom cultural. A ponte tem que chegar ao Brasil por necessidade estratégica.

Eu tenho umha teoria sobre o reintegracionismo, que estamos aí com Portugal, Portugal, e realmente o português do Brasil é muito mais acessível que o português de Lisboa, e as possibilidades de exportaçom de parámetros de gestom cultural em Europa… nós podemos exportar muito mais ao Brasil do que a Portugal, Portugal já está muito mais desenvolto em gestom cultural do que a Galiza. Portugal está muito mais “modernizado”, mais avançado, nom há mais que ver a programaçom das grandes cidades. Nós temos um lastre ruralista, umha visom mui conservadora da cultura galega, a todos os níveis, desde todos os ámbitos; sempre estamos revisitando o passado, nunca fazendo propostas de futuro. Procuramos um certo essencialismo, na música, nas formas… Eu lembro das minhas filhas dizerem-me “quando deixamos de falar do passado?”, porque eu sempre estava com a língua galega antigamente, antes, etc. Ou seja que um dos grandes retos da cultura galega atual é ultrapassar o essencialismo.

Então, uma maior presença do português no ensino poderia ser um incentivo ao um maior fluxo económico entre a Galiza e Portugal?

Isso é de vital importáncia, assim como a incorporaçom do português no ensino. É útil, necessário e da máxima urgência. Aí já se desmontam os tópicos das diferenças, mas desmontam-se também alguns tópicos dos movimentos culturais galegos de que em Portugal o sistema linguístico é muito próximo. Sim, é muito próximo, mas a dia de hoje, com o deterioro do galego, o preconceito de que é a mesma língua também nom funciona sempre, nem se diz “botelha” nem se dizem umhas quantas cousas, e ao chegar ali é um fiasco. Entom, o português no ensino seria um apoio muito importante para desfazer essas barreiras.

Instituições como o Eixo Atlântico ou a Comunidade de Trabalho Galiza-Norte de Portugal deviam ser revalorizadas? Deviam possuir mais funções e competências?

Eu engadiria a AECT Rio Minho, é umha fórmula amparada na legislaçom europeia. As outras som grupos de trabalho,e partem de formas constitutivas e legais diferentes. Em todo caso, todo o que seja avançar nesse caminho de intercâmbio e de possibilitar linhas de trabalho e fluxos económicos, de gente, de ideias e de empresas, é excelente. Todo o que se avance por aí enriquece, tanto para eles como para nós.

Portugal apostou na Alta Velocidade para a faixa atlântica e na Galiza essa música soa bem a todos os atores políticos e económicos. Caminhamos para uma megacidade Lisboa-Ferrol?

Eu penso que já é umha realidade. A linha Corunha-Vigo já é umha macrocidade. Todos somos já usuários desses comboios, vam cheios a quase todas as horas e isso é já a realidade. Simplesmente falta que os gestores do ferrocarril entendam o serviço ferroviário quase como um serviço de metro, cumpre ampliar horários e frequência. Agora há um trem cada hora, deveria haver um cada 20 minutos. Eu pensaria, sim, em ampliar até Porto. Está essa dificuldade orográfica entre Vigo e o Porto, que se passa ou nom passa polo Porrinho, mas umha vez superada essa questom, poderíamos falar de Corunha-Porto em 2h, seria ideal. Eu, nos próximos 50 anos, fixaria-me esse objetivo. Esta infraestrutura, construida polos estados, pode facilitar a vida dos cidadaos, necessitamos, por exemplo, um trem que comunique en horário noturno as cidades, e todo isto deveria ser harmonizado com Portugal, o comboio é o mais lógico.

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