José Luís Rodríguez: “Demonstrou-se que era possível reatar a escrita do galego às bases medievais, vivas, no essencial, no resto da nossa comunidade lingüística”



Neste ano 2021 há 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, estamos a realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro.
Desta volta entrevistamos o catedrático de filologia da USC e agente central do movimento reintegracionista, José Luís Rodríguez.

José Luis Rodríguez fronte á casa de Carvalho Calero en Compostela.

José Luis Rodríguez fronte á casa de Carvalho Calero en Compostela.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
As derivadas precisamente da “co-oficialidade” prescrita no Estatuto de Autonomia, apesar de subalterna, pois reconhece o direito mas nom o dever de conhecer a língua. Se bem que insuficiente, foi instrumento que permitiu ao idioma assomar-se à normalidade das línguas oficiais, saltar do campo e do mar para as aulas liceais e universitárias, para a tribuna, para o púlpito…, para os incipientes usos formais.
E dentro da recuperaçom dessa certa normalidade, o surgimento da praxe reintegracionista, solidamente alicerçada, com alto grau de codificaçom, levando à prática o que nos pioneiros do galeguismo era tam só um anseio, ou um experimento um tanto ocasional. Os reintegracionistas entendemos que “os tempos eram chegados”, e com Carvalho Calero à frente, demonstrou-se que era possível reatar a escrita do galego às bases medievais, vivas, no essencial, no resto da nossa comunidade lingüística, reiniciando assim, em certa maneira, umha nova tradiçom, bem mais promissora. É verdade que o reintegracionismo ainda nom triunfou plenamente, ou nom o deixa(ro)m triunfar, mas seja qual for o futuro, num processo ainda aberto, as suas achegas para a melhora da língua culta dos galegos é impressionante, tendo contribuído para já a frear o populismo ineficaz, confundido amiúde com o castelhanismo galopante, sementes ativas de dissoluçom, opondo-lhes um norte claro e seguro para a fixaçom do idioma, para a sua coerência e vitalidade.

Os reintegracionistas entendemos que “os tempos eram chegados”, e com Carvalho Calero à frente, demonstrou-se que era possível reatar a escrita do galego às bases medievais, vivas, no essencial, no resto da nossa comunidade lingüística, reiniciando assim, em certa maneira, umha nova tradiçom, bem mais promissora.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?
Dentro das possibilidades do Estado das Autonomias, se o galego nom podia ser única língua oficial, polo menos conectá-lo desde o início com as demais modalidades do seu sistema lingüístico, principalmente a lusitana e a brasileira, por meio de umha norma para o idioma pactuada entre todos, revisável cada xis tempo, com objetivos a curto e longo prazo, para quebrar as estruturas seculares de dependência e possibilitar um rumo ao futuro menos acidentado.  Manter a máxima unidade possível entre os estudiosos e militantes do idioma, mesmo que isso demorasse os objetivos finais, evitando as imposiçons e as políticas unilaterais. Ainda hoje me parece esta umha estratégia fundamental, pois como se di popularmente é melhor um mau acordo que um bom pleito.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
jose-luis-rodriguez-carvalho-caleroHá muitíssimo que fazer, em todos os âmbitos, de todos os pontos de vista. Todos conducentes a reforçar as nossas raízes, ameaçadas de dissoluçom, e a dar visibilidade interna e externa aos nossos produtos culturais, sempre que valiosos. Limitando-me a aquilo que me é mais familiar, o setor lingüístico-cultural, diria que promover entre os próprios galegos a alta qualidade do nosso idioma, pondo de manifesto que a língua herdada de nossos pais, que nos confere essa particular idiosincrasia que nos fai galegos, é ao mesmo tempo um formidável instrumento de comunicaçom internacional com ecos em todos os continentes. Nesta perspectiva, a pouco que o pensarmos, Portugal aparece sempre como indispensável pano de fundo, tanto olhando para o passado como perscrutando o futuro.
Como é possível, por exemplo, que o passado dia 5 de maio, Dia Internacional da Língua Portuguesa, tenha passado despercebido como se nom nos dixesse qualquer respeito? Que nom tenha sido celebrado também cá na Galiza como algo próprio? E nom só polas entidades reintegracionistas mas também por parte da RAG e do ILG, do Conselho de Cultura Galega, do Governo Galego, enfim. É umha data em que se celebra a nível simbólico a língua de Camões, Rosalia e Machado de Assis, por citar só três vultos incontornáveis. Celebrá-la também aqui seria um primeiro sinal da ansiada normalidade. Devia organizar-se um percurso cultural, a norte e sul do Minho, entre o dia 5 e o 17 de maio, a começar polos concelhos limítrofes, doze dias de efetiva exaltaçom da língua de Joam Airas e D. Dinis!
Prestigiar verdadeiramente o galego, passa por prestigiar também Portugal e a sua cultura. Cada vez som mais os nossos cidadãos que valorizam a conexom com Portugal, que é um País que nom levanta fobias entre nós, embora, entre o grande público, se desconheça quase tudo dele.
O galego tem umha ligaçom tam evidente com o português, que está na mente de todos, consciente ou inconscientemente, sejam galegófonos, ou castelhanófonos. Essa projeçom pode exercer-se em termos de simpatia e adesom ou, em casos já raros, em termos ainda de menosprezo e rejeitamento. “Portugal nom paga a pena, José Luís”, diziam-me alguns anónimos que me enviavam na década de 80. Lusófilos ou lusófobos, é rara a indiferença. Entom, promover entre nós o conhecimento desse mundo, prestigiá-lo aqui, servirá também para prestigiar-nos nós mesmos, pois a Galiza é, afinal, a célula originária, o dialeto-fonte dessa língua transnacional que se denomina “português”. Essa necessária implementaçom nom deve limitar-se só a intercâmbios académicos entre especialistas, mas promover umha efetiva interdependência entre os respetivos espaços, encher de conteúdo os planos de colaboraçom existentes (Galiza-Regiom Norte de Portugal, Eixo Atlântico, etc.), ampliá-los a todos os níveis,levando-a à prática numha intensa convivência com Portugal, a todos os níveis etários: entre alunos e  professores, empresários e operários, entre partidos políticos, para dar visibilidade a um espaço económico e cultural, um tecido social, que contribua a superar o ainda atuante ‘efeito fronteira’, o qual, após mais de trinta anos de pertença à Uniom Europeia, continua a fazer-se sentir, se bem que amolecido, num e noutro lado da raia. Habilitar, por exemplo, um INSERSO galego para deslocaçons por Portugal, com guias turísticos de língua galego-portuguesa, conhecedores das realidades de ambos os países, traria à memória dos mais idosos melodias de harmonias comuns. Afinal, assim poderiam responder com mais conhecimento à pergunta do velho de Castelao, na beira do Minho, sobre quem era mais estrangeiro…

“Portugal nom paga a pena, José Luís”, diziam-me alguns anónimos que me enviavam na década de 80. Lusófilos ou lusófobos, é rara a indiferença. Entom, promover entre nós o conhecimento desse mundo, prestigiá-lo aqui, servirá também para prestigiar-nos nós mesmos, pois a Galiza é, afinal, a célula originária, o dialeto-fonte dessa língua transnacional que se denomina “português”.

Quanto à planificaçom do córpus, da fixaçom normativa, potenciar tudo quanto é comum a ambas as margens do rio Minho, acabando com a tradicional indefiniçom, a volubilidade léxica, e com escolhas ortográficas que marquem a distância a respeito do castelhano, porque os nossos falantes cada vez têm menos consciência da fronteira lingüística a respeito deste idioma. Polo menos, nas marcas de palatalidade (lh, nh), o –m final de palavra, o –s dos patronímicos, etc. O objetivo deverá ser, citando mais umha vez Castelao, a “confusom”, “confusom” no sentido da comutaçom, da equivalência, da igual-valia, entre as modalidades idiomáticas de aquém e de além Minho. Sem implicar Portugal e o mundo que este criou, no projeto galego, duvido que tenhamos futuro promissor, ou simplesmente futuro, na língua própria. Umha língua, hoje amplamente desbordada pola oficial do Estado, mas que conta ainda, felizmente, com esse extraordinário baluarte, que nos deve servir de espelho, esse retalho saído da Galiza, com mais fortuna histórica que a sua malfadada progenitora.
Repito a receita para sobrevivermos. Mantermo-nos em máximo contato com as outras variedades internacionais da nossa língua, muito mais do que já se tem feito. Nom há vida fora daí. O galego, encafuado nas quatro províncias, definha e aos poucos irá apagando-se, seja por falta de uso, ao tornar-se desnecessário socialmente, ou por descomposiçom interna perante a interferência substitutiva do castelhano/espanhol. Infelizmente é  o que está a acontecer já. Nom querer vê-lo é negar a evidência.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
O que é ter, já as tem de facto. A norma do ILG-RAG e a(s) reintegracionista(s)…, outra cousa é que nom se reconheça polo poder académico e administrativo esta situaçom, ou nom se reconheça, para sermos mais precisos, a oficialidade da prática luso-reintegracionista. Causaria alguns problemas implementá-las por exemplo no ensino e na administraçom. Creio ser preferível avançar, mesmo a passo de tartaruga, para acordos conducentes a umha norma única, por mais flexível que seja. Para isso é imprescindível o diálogo e o respeito polo outro. O diálogo e os acordos som sempre positivos. Acordos para os usos administrativos e o ensino, e liberdade na criaçom, subsídios equitativos, desligados do uso de tal ou qual norma. Avançar com acordos necessários, mesmo provisoriamente parciais. Convencer é mais importante que vencer sem mais. Para o idioma, para todos.
O que há que fixar é um certo reconhecimento mútuo a respeito da língua (sem necessidade de entrar nas respetivas normas) entre a Galiza e os restantes países lusófonos, que, afirmando a sua unidade essencial, lhe dê umha dimensom dificilmente sonhada por muitos galegos… Ao mesmo tempo, aceleraria a presença da Galiza em todas as instituiçons lusófonas, a começar pola CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, etc., um horizonte irrenunciável. E facilitaria ver na Galiza, com normalidade, a televisom portuguesa, por exemplo, reclamaçom esta que se perde na noite dos tempos… Invocam-se problemas técnicos, mas parece claro que o que nom há é principalmente vontade política.


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  • Joám Lopes Facal

    Sólido discurso reintegracionista, sabiamente ancorado no galego medieval originário que nos legitima e no português internacional que nos instala na modernidade.
    A óptica sociolinguística e estratégica que alicerçam o discurso luzem sentido comum e realismo político.
    Finalmente, a sóbria ortografia clássica praticada, nom só é congruente com a perspectiva adoptada senom também com as indagaçons mais recentes sobre a ortografia do galego medieval.
    https://pgl.gal/os-sufixos-com-cion-e-vel-ble-nos-documentos-medievais-da-galiza/
    Gratidom a J.L. Rodríguez e a todos os mestres desse galego com história e futuro no qual acreditamos.

  • José Ramom Pichel

    A minha grande admiração, caro professor. Gostei imenso de te ler. Imenso.

  • José Luís Maceira

    “Sempre é melhor um mau acordo que um bom pleito…” Poderá ser, desde que o acordo não seja metafisicamente impossível, que às vezes é…

    Outras vezes, um acordo pode significar uma sentença à morte.

    Em todos estes casos, sempre é melhor a convivência amistosa no desacordo… E deixar o tempo decidir.

  • ernestovazquezsouza

    Muito interessante entrevista. Uma das melhores, da parte reintegracionista, desta série. Boas respostas e mui lúcida a final.

    Demonstrar, demonstrou-se… isso é verdade. O esforço do reintegracionismo para que a nau mantivesse o rumo fixado pelos precursores e não se desviasse à loucura e a destruição tem de ser lembrado e considerado na sua justa medida, mesmo por aqueles que teimaram tanto e quanto em meter o leme a contrário como se quisessem nos levar embarrancar no meio e meio da terra ancha de Castela.

    E é notável esse projeto e essa batalha dada, com todas as de perder, por tantas pessoas para construirmos uma língua nova retomando o esforço que noutras partes fez o humanismo no renascimento e nas origens da era das nações, afincando-nos na tradição e ao mesmo tempo tratando de re-estabelecer, com rigor filológico e erudição a lógica da língua no conjunto de que faz parte.

    Do resto, não chega com ter razão… como dizia (mais ou menos) nos “Foguetes” Perez Ballesteros:

    três cousas che comprem Vilas,
    se um preito tês de ganhar:
    ter razão, saber dizi-la
    e mais que cha queiram dar…

    aperta