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Isaac Lourido: “à cultura nascida nos movimentos sociais, que é criativa e inclusiva, custa-lhe manter continuidade no tempo”

Nascido em Ferrol em 1981 e especializado na relaçom entre movimentos sociais, língua e literatura, Isaac Lourido é professor da UdC. É colaborador habitual de meios de comunicaçom do soberanismo, como o Novas da Galiza ou este mesmo portal, além de ser membro do conselho editor do Espaço Clara Corbelhe. Compaginou desde novo a militáncia assembleária independente com a atençom académica ao processo de institucionalizaçom da cultura galega e às respostas dissidentes. Com ele falamos de pensamento crítico, reintegracionismo ou academia nuns tempos que ele reconhece “radicalmente diferentes” àqueles em que iniciou o seu compromisso.

Como marcaram as tuas origens as tuas escolhas militantes e intelectuais?

Eu procedo dumha família da classe obreira, meu pai era trabalhador do naval, em Ferrol, e minha mae trabalhava na sanidade. O certo é que transito tarde para o pensamento crítico. O meu primeiro passo, na adolescência, e num contexto hostil, é converter-me em galegofalante, alentado por certas influências à minha volta. A inserçom definitiva dá-se na universidade: na faculdade de Filologia em Compostela vivo aquele grande ciclo mobilizador de 2001-2003, o “nom à LOU”, o Nunca Mais e a oposiçom à guerra do Iraque. Lá começo um compromisso informal, nom partidário, no movimento estudantil, e isso ligo-o com a minha pesquisa, na que os movimentos sociais estám presentes.

Noutra dimensom das cousas, compagino todo isto com o desporto, desde muito neno, que penso que me dá umha certa visom das cousas, me abre a outro entorno social, e também me molda no sentido de pensar a médio e longo prazo sobre as cousas que um quer conseguir.

Nestas coordenadas fago a minha vida académica, sempre condicionada pola precariedade, nomeadamente desde a chamada crise das finanças de 2008, que piorou tudo, e que tenta seguir esta linha de estudos culturais.

Na tua pesquisa sobre a cultura galega, abordas o que chamas a “cultura da normalizaçom” que acompanha à autonomia nas últimas quatro décadas, e a sua relaçom com outras culturas mais ou menos dissidentes. Qual é a tua tese?

No ámbito estatal falou-se em “cultura da transiçom” para explicar como os pactos políticos de finais dos 70 derivaram numha certa prática consensual da cultura. Na Galiza, há quem fale de “cultura da autonomia”, mas eu utilizo o termo “normalizaçom” porque me parece mais acaído, é este um termo que aparece umha e outra vez nos textos oficiais para referir-se à língua, à literatura…trata-se dum termo difuso que tanto utiliza o PP como nacionalismo.

Eu dou com as origens desta proposta cultural a finais dos anos 70: na altura há umha grande divisom política entre as elites, que som as chamadas “pinheiristas”, e também outras mais ligadas ao aparelho do franquismo, e o nacionalismo galego, que apresenta ideias opostas: desafia o sistema cultural, em dimensons tam simbólicas como o Dia das Letras Galegas, quando chega mesmo a organizar homenagens alternativas à oficialidade. A minha tese é que desde meados dos 90 estas duas posiçons vam convergendo, e o espaço do consenso aumenta progressivamente. Por dizê-lo assi, vam-se celebrando as mesmas cousas. Por exemplo, a concessom de “prémios nacionais” do ministério espanhol som comemorados por todo o leque político e cultural, a figura homenageada o Dia das Letras merece reconhecimento total (com a pequena excepçom da controvérsia gerada pola figura de Filgueira Valverde)…

A minha tese é que desde meados dos 90 a cultura da oficialidade e a cultura do nacionalismo vam convergendo, e o espaço do consenso aumenta progressivamente. Por dizê-lo assi, vam-se celebrando as mesmas cousas.

Falas também dum terceiro actor, que seria a cultura generada desde a base polos movimentos sociais, na que aparecem as editoriais alternativas, os centros sociais, e outros projectos autogeridos.

Si, e para entendê-la cumpre entender a um tempo a cultura nacionalista. González-Millán, um autor no que me inspiro, tem-na definido como umha posiçom que parte de ser anti-institucional para virar numha cultura integrada, que procura quotas de poder. Se bem nalgumhas instáncias nom o consegue, em outras si. E ainda que nos discursos segue a manter as ideias iniciais, há umha notória falta de coerência entre a lealdade a um posicionamento histórico e práticas mais assimiláveis a outras posiçons ideológicas, com o fim de conseguir em última instáncia o poder da Xunta.

Frente a isto, os movimentos sociais funcionam em lógicas de resposta, sempre na oposiçom, no antagonismo. For no ecologismo, no feminismo, na defesa dos direitos e liberdades, tenhem umha natureza opositiva. Como tais, nom estám preocupados com o reconhecimento institucional, senom com materializar iniciativas concretas, logo estám menos presos ao que se considera “bom” em determinada altura no terreno da literatura, da música…o aspecto positivo destas práticas é serem inclusivas, qualquer um pode participar, sem necessidade de nenhuma acreditaçom especial. O negativo, ao meu ver, é que como os movimentos funcionam por ciclos de alta intensidade-esgotamento, apresentam umha grande falta de capacidade para consolidar no tempo propostas, para terem um norte estratégico.

Um dos grandes representantes da cultura dissidente no nosso País foi o reintegracionismo, que porém, nos últimos anos, parece mudar a sua identidade. De proposta opositora, passa a acentuar o seu perfil consensual e pro-institucional. Como avalias esta viragem?

Na sua origem, é um movimento que apresenta dous modos de filiaçom: um vem pola disconformidade dum modelo de língua que se considera imposto institucionalmente, que se entende inspirado polo padrom castelhano; e logo existe umha filiaçom, com a que eu nom simpatizo, de tipo essencialista, como de procura dumhas origens puras, da unidade étnica galego-portuguesa. Ao meu ver, o movimento arrastava duas marcas fortes: a de senhores muito formados que sabiam muito, algo enormememente especializado, e o de ser um movimento eminentemente masculino, um movimento de professores homes, mormente. Daí passa-se a algo que eu valoro positivamente, que é um processo de abertura a novas geraçons, a pessoas nom tam condicionadas por batalhas ortográficas do passado, a abrir um círculo que era muito fechado…

Ora, que acontece? Que se começa a botar em falta, particularmente em AGAL, que é a grande instituiçom deste movimento, umha ausência de crítica sócio-lingüística. Abre-se um diálogo institucional, que para mim nom é algo de seu negativo, particularmente com a Xunta, mas nom se pom o acento em que a situaçom da língua piora. Entom, eu considero que reconhecer a institucionalidade pode ser um passo necessário, abrir espaços, mas sempre em troca de algumha cousa. Porque se é em troca de nada, para que?

Feitas estas análises, a mim custa-me elaborar umha conclusom fechada sobre esta viragem, porque se combinam estas ambas dimensons que venho de relatar.

Os movimentos sociais funcionam em lógicas de resposta, sempre na oposiçom, no antagonismo. Nom estám preocupados com o reconhecimento institucional, logo estám menos presos ao que se considera “bom” em determinada altura…o aspecto positivo destas práticas é serem inclusivas, qualquer um pode participar

Em todo processo de institucionalizaçom, também neste ámbito, estám presentes as condiçons materiais de quem produzem. É possível umha cultura dissidente se se depende profissionalmente do Estado?

Ao meu ver, os espaços do sistema que vivemos, e falo da universidade, do ensino médio, mas também dos concelhos que fornecem subvençons, ou da instituiçom que for, como mais um espaço de batalha. Ora, sendo cientes que é um espaço muito limitado que nom devemos idealizar, que tem umhas fronteiras muito estritas. Estamos condicionados polos programas, polos modos de avaliaçom, polas exigências de avaliaçom…Na universidade, que é o meu campo de actuaçom, há possibilidades de intervençom crítica. Certamente, nom passam já plo clássico adoutrinamento professor-discípulos, o docente que congregava à sua volta um grupo de continuadores; isso já nom produziria mais resultados nos tempos de hoje. Há porém opçons interessantes na docência e na pesquisa, pois há alunado susceptível de se interessar polo pensamento crítico. Para mim é fundamental topar-me com pessoas de outra geraçom que me abrem perspectivas de como funciona sociedade, como se move o pensamento, que influências condicionam as mais novas…e eu, como docente, digo sempre que se bem lecciono literatura e língua, a minha motivaçom fundamental é ajudá-los a entender como funciona o mundo, neste caso através do prisma da produçom literária.

Em definitiva, que qualquer oportunidade que tivermos na cultura para dar batalha, devemos aproveitá-la. E isto fago-o extensível a quem se dedicam ao teatro, à música…mesmo se dependem em boa medida da administraçom. Marcando linhas claras, há possibilidade de fazer trabalho muito digno. E muitas vezes fazemos acusaçons genéricas de “vendidos” que nom som rigorosas.

O reintegracionismo abre um diálogo institucional, que para mim nom é algo de seu negativo, particularmente com a Xunta, mas nom se pom o acento em que a situaçom da língua piora. Entom, eu considero que reconhecer a institucionalidade pode ser um passo necessário, abrir espaços, mas sempre em troca de algumha cousa. Porque se é em troca de nada, para que?

Vês de prologar o anuário que o Espaço Clara Corbelhe publicou, recompilando todos os artigos digitais do seu web. No limiar fas umha reflexom profunda sobre os espaços que produzem pensamento crítico em chaves galegas, afirmando que venhem de confluir duas linhas. Poderias desenvolver a ideia?

Eu penso que estamos num momento em que se encontram dous mundos diferentes. Por umha parte toda umha rede de pensamento crítico informal, que procede dos movimentos sociais, que levam muitos anos a reflectir e a elaborar propostas teóricas, nos seus espaços virtuais, também nos físicos, como centros sociais…e por outra parte, o académico, onde se deu umha transformaçom, porque as pessoas que pesquisam, pessoas novas, som bem mais que quando eu estudava. Pesquisam em condiçons precárias, e isto penso que contribui para alimentar a sua consciência crítica, e daí que a sua investigaçom se oriente muitas vezes ao que acontece fora dos espaços académicos. No texto que citas falo desse encontro, e que ao meu juízo abre possibilidades para o pensamento ser útil, produtivo, no caminho para umha sociedade mais justa.

Também colaboras regularmente com meios independentistas e alternativos, como este mesmo portal ou o Novas da Galiza. Meios que nasceram no ciclo mobilizador que citavas, há duas décadas, e agora navegam num mundo muito distinto, imediatista e emocional, o das redes sociais. Como conciliar estas duas realidades?

O paradigma comunicativo mudou, certamente, o que fai difícil o panorama para estes meios de molde clássico. Acho que estamos abocados a viver numha tensom: entre a necessidade da leitura sossegada, e calma, que marca posiçom, e ao mesmo tempo à necessidade de nom produzir conteúdos só para círculos restritos. O mais cómodo, claro, seria seguir na mesma, no que conhecemos, mas isso leva ao esgotamento dos projectos, e dificulta a capacidade de atracçom. Umha proposta poderia formular-se assi: ser leais às origens e abrir-se sem atraiçoar o que somos. Muito fácil de dizer e muito difícil de levar a cabo, sei-no.

[Esta entrevista foi publicada originariamente no galizalivre.com]

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