Isaac A. Estraviz: “Díaz Pardo afirmou infinidade de vezes que galego e português eram a mesma língua”



diaz_pardo_lingua100_b-pdfNo ano 2008 a AGAL editora, publicou: Isaac Diaz Pardo e a Língua (homenagem da Agal). Que neste ano que é o centenário do natálicio de Diaz Pardo, esse livro esgotado que Através Editora disponibiliza agora de graça.

Esse livro deveu-se a dous factos determinantes: A vontade de Diaz Pardo, e a sua calorosa amizade com Estraviz. Esta pequena entrevista de Alexandre Banhos a Isaac A. Estraviz, centra a história.

Esse livro foi em grande medida uma cousa tua. A sua gestão começou a fins do 2007. De quando vem a tua amizade com Diaz Pardo?

Resposta: O meu primeiro encontro com Isaac Diaz Pardo foi no ano 1960 ao adquirir em Buenos Aires o seu livro Midas. O ángulo de pedra (1957) que depois iria comigo a França, Sória, Alemanha, Navarra, Albacete…. Pessoalmente conheci-o em 1970 na Galeria Sargadelos de Madrid. Foi um encontro gratificante com uma pessoa inteligente, amável, respeitosa com todos. Surgiu entre ambos um carinho e uma admiração mútua. Depois foi em O Castro, Sargadelos e no Instituto de Información bastantes vezes. E várias em Santa Marinha de Águas Santas. Mesmo nos publicou em Edicions do Castro vários livros sobre o relacionamento entre galegos e portugueses. Não se atreveu com o Dicionário Galego polo voluminoso que era e porque supunha muito dinheiro que ele tinha medo em fracassar. Teve uma enorme alegria ao ver que a obra saira a lume.

Diaz Pardo pertencia a tradição galeguista na que se formara nos anos 30 do século passado, para a qual galego é português era a mesma língua.

Que galego e português eram a mesma língua afirmou-o infinidade de vezes, como se pode comprovar no livro homenagem que lhe fez a AGAL e do qual eu fui o coordenador. Pode atualmente consultar-se na publicação digital também disponível no PGL. Esse livro consta de uma primeira parte na que intervêm: José Maria Casariego Guerreiro, Isaac Alonso Estraviz, José Paz Rodríguez, Alexandre Banhos (naquela altura Presidente da AGAL) e José-Martinho Montero Santalha. E uma segunda, com trabalhos dele sobre a língua galega e a sua unidade com a variante portuguesa.

Isso não era incompatível com escrever à castelhana, infelizmente a única forma que se conhecia.

Escrevia-se a castelhana na tradição galeguista que afirmava a unidade da língua, porque era o único jeito que se sabia escrever, diria mais o único que aliás podia se conhecer, mas existia a vontade de mudar as cousas, que o franquismo e a sua eficaz guerra e ditadura decepou. Castelão o expressou muito bem, ao dizer que aspirava a que o galego se confundisse com o português. Diaz Pardo sempre defendeu a unidade, um bom exemplo é o seu livro em castelhano em Ruedo Ibérico, Galicia Hoy, uma pequena maravilha que destinava a todos, tendo em conta os destinatários e a finalidade que se propunha.

O Pinheirismo e a ação do estado criando o ILG, racharam radicalmente com essa tradição.

Pinheiro e o pinheirismo resultou fatal para a nossa língua. O meu relaciomento com ele foi muito durante anos. Ele mesmo disse-me que a parte galega do Dicionário de literatura portuguesa, brasileira e galega fora cousa dele, quando em realidade fora cousa de Ernesto Guerra da Cal. Ele comigo defendia a unidade e uma das vezes que falávamos comentou-me a anedota de que uma das vezes que pronunciou uma palestra no Brasil e esteve a falar durante hora e meia em galego, ao final um dos assistentes ergueu-se e disse-lhe: “Podia o senhor falar-nos em galego cinco minutos para vermos como soa? E eu estivera falando hora e meia em galego! Eu acho que mudou de opinião ao prescendirem dele na elaboração da normativa do governo da Pré-autonomia, e passou ao grupo do ILG aceitando umas normas com as quais não estava de acordo antes como me tinha dito ao prescindirem de cousas como “ao”.

Os artigos de Diaz Pardo foram escolhidos para o livro em demorados encontros dos dous, com muito comentário. Como foi isso?

Os encontros para elaborar esse livro tiveram lugar várias vezes no Instituto Galego de Información em S. Marcos (Santiago de Compostela). Mas antes desses foi decidido na AGAL levar adiante essa homenagem a uma personagem da categoria de Isaac Díaz Pardo em todos os campos da nossa cultura de uma forma desinteressada, para que Galiza recuperasse a sua dignidade e categoria histórica.

Fala-nos da alegria de Diaz Pardo polo livro vir a luz.

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dedicatória de Díaz Pardo a Estraviz.

créditos do livro Esfinge de pedra.

créditos do livro Esfinge de pedra.

Logicamente a sua alegria foi enorme. Mas antes temos que falar de uma obra encantadora na portada, onde se recolhem os Desassosegos de Isaac Diaz Parado. Estou a falar de Tentando construir uma esfinge de pedra (2007).

Um dia apareceu pola minha casa e entregou-me um montão de papéis para que os ordenasse e adaptasse ao galego internacional. O problema foi que depois queria a toda custa que eu aparecesse como autor. Eu neguei-me e propus-lhe que aparecesse como revisor e adaptador. E assim foi. Em certa maneira o livro da Agal editora navegava no ronsel da Esfinge de pedra.

Lembras da sua apresentação em Compostela, na biblioteca Ângelo Casal?

Sim, lembro, ainda que de uma forma um pouco vaga. Sei que estivemos na apresentação os dous falando bastante tempo com as pertinentes perguntas do público ao final, e havia muito pessoal até algum membro do Conselho da Cultura e da RAG.

Eu com ele tivem sempre uma relação bem intensa, quando o Instituto Galego da Informação organizara uma reunião, para a ampliação do capital do Instituto Galego de Información. Ali, ao terminarmos, Iván Cociña fez-nos uma foto na que estamos os dous Isaac. Para mim a melhor foto da minha vida. isaac

Porque tem sentido agora que se cumpriu o centenário do seu natalício, trazer à tona a Isaac Diaz Pardo.

Porque o que não podemos os galegos é esquecer a quem tanto fez por nós e pola Galiza. Temos que combater a desmemória, uma doença terrível, um verdadeiro alzheimer dos povos. Eu sempre estive nisso, e como no seu dia fizemos os meendinhos com Carvalho Calero erigindo-lhe uma estátua na Alameda compostelã e que este ano se viu em todos os meios de comunicação.

Temos que combater a desmemória, uma doença terrível, um verdadeiro alzheimer dos povos. Eu sempre estive nisso, e como no seu dia fizemos os meendinhos com Carvalho Calero erigindo-lhe uma estátua na Alameda compostelã e que este ano se viu em todos os meios de comunicação.

Porque o pessoal deve descarregar o livro é lê-lo, comenta-nos o seu conteúdo.

O livro é de leitura bem gostosa e além disso, esta resposta já ficou dita nas perguntas anteriores: os galegos temos que conhecer e recordar os nossos bons antepassados e tudo o que fizeram para que Galiza recupere a sua personalidade histórica e a defenda em tempos atuais e futuros.

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo

Alexandre Banhos Campo (Crunha 1954) é Licenciado em Ciências Políticas e em Sociologia (especialidade de demografia e população) pela Universidade Complutense. Em Madrid foi membro fundador do grupo LOSTREGO.

Post-grau em gerimento de formação e processos formativos pela UNED, e tributários pola USC. Tendo desenvolvido alargadas atividades no campo da formação, em todos os ramos, e também na sua condição de formador.

Tem sido colaborador jornalístico, e publicado inúmeros artigos sobre os temas da sua atividade.

Ligado ao ativismo galeguista na Galiza desde há 40 anos, tendo ocupado diversos postos de responsabilidade em diversas instituições e entidades. Neste momento é do conselho consultivo do MIL, dos Colóquio da Lusofonia e o atualPresidente da Fundação Meendinho.
Alexandre Banhos Campo


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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Isaac Díaz Pardo esteve na constituição do concelho de Compostela presidido por A. Casas, que pronto viria a ser assassinado com muita mais gente como o pai de Diaz Pardo.
    Nesses atos ios g e j dos nomes e sobrenomes, como era próprio da tradição galeguista, pronunciavam-se como eles eram sem isso significar qualquer mudança na escrita….
    A vigorante besteira de pronunciar as letras dos nomes sempre a castelhana, não supõe nenhum reforço do xis, como num texto me explicava alguém dirigente do Bloco, e sim um canto ao castelhano de jeito direto e indireto, e além disso deseducador do nosso povo…
    Como dizia Díaz Pardo, um jeito de agir de parvos.