Galinha de brasão: Comédia bárbara

Partilhar

Por Ernesto Vasques Souza (*)

Topou o néscio ichavinho e pensou que era botão… Popular

Foi uma vez um homem que no campo achou um ovo, de uma forma, cor e tamanho que nunca vira pelo país e não sabendo o que fazer levou-o para a sua casa. Lá o seu filho meteu-o no galinheiro e uma pita chocou-o.

Lá ao pouco nasceu uma pitinha que com o tempo e em companhia das suas irmãs e irmãos medrou e aprendeu o tudo quanto sabem as galinhas.

Passaram os anos e a gente vinha ver a águia tamanhona que se achava galinha, que comia como galinha, caminhava entre as galinhas e se comportava como galinha. Mas a águia que via a gente a apontar com espanto não sabia que não era uma pita.

Alguma vez olhava para o céu e via voar um falcão, outras vezes eram os corvos e ainda uma vez viu, tão alto, voar uma ave bela e poderosa que perguntou por ela às suas irmãs galinhas e estas disseram que eram sonhos que tão longe não davam os olhos, mas que a sombra que bem se via no chão era de uma besta terrível chamada águia.

E fantasiando na beleza do voo e invejando a força daquela ave espantosa a galinha procurava no chão minhocas, bichinhos e grão. Às vezes, quando ninguém reparava, fazia ela sombras maravilhosas estendendo as asas; alguma vez sentia que via mais longe e que os seus saltos eram longos. Porém nem os galos nem a senhoria do poleiro gostavam dela, nem o seu bico e patas, nem mesmo os olhos eram tão bons como o das suas irmãs para apanhar do chão a comida.

E deste jeito e cada vez menos levantando os olhos do chão passaram os anos até que finalmente a águia morreu de velha sendo galinha, invejosa do peteiro e patas, tão úteis, das outras pitas e comesta de tristura por não ter posto um só ovo.

 

* Versão de um conto popular re-escrito e dedicado a escritores galegos.

Máis de Ernesto V. Souza