Frustrenlha

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Por Ernesto Vasques Souza

Sedia-xi Dom Belpelho em ũa sa Maison
que chamam Longos, ond’eles todos som…

Afonso Lopes de Baião

I

Plaf… Plaf… Plaf… Plaf, plaf, plaf… Plaaf. O couro da luva, com as suas orlas escarlates, ia e vinha dubitativo contra a mão do poderoso feudal, até que finalmente foi apertado, esmagado diríamos, com certa raiva impaciente.

À sua beira, o abade Vasco de Suso sorria baboso nos lábios perversos e com olhos cruéis ia aos poucos oferecendo lascas de carne crua às aves de presa que senhoreavam a Negra Torre. Num canto, Lourenço, o jograr idiota do castelo, cantarujava uma obscena cantiga de soldadeiras, e cascava contra o piso as nozes de uma não pequena sacola, que amontoava avarento como se essa fosse a sua inteira ocupação.

Súbito o vento brasonou ruidoso o pendão do Barão dos Peares, feijão dourado em campo de azure, amarrado por corrente à divisa dos reis de Castela. A este gesto, qual mensagem divina, o senhor virou costas à paisagem que noturna apenas destacava os olhos espreitantes de centas de fogueiras espalhadas, talvez milheiros de lumes contando os fachos que iam e vinham e pareciam se achegar de toda parte.

Os olhos azuis apagados olharam com a determinação renarteira do seu alcume os principais da sua gente: o frio chefe de armas e mão direita, Rotarius Beldezer, que na sua habitual posse ausente passava uma mão pela sobreveste com as cores do seu senhor mas a outra aferrava duro o aguçado bico de corvo em que se apoiava e que lhe servia de fende-testas e de bastão de mando; o brutal Guerr, cuja armadura perene semelhava de bronze pelo batida e castigada pelo pó dos caminhos, que aguardava também entretido em passar a pedra de azeite pelo imenso cutelo cacheiro que se fizera tristemente célebre a ambas as beiras da fronteira com Portugal.

Terminava o grupo a belicosa Alfarjas, a Monja Alferes, com olhos fanáticos fitava queda para o seu senhor sem que se pudesse achar que estava de mais no seu bizarro conjunto, se a longa espada de maçã sobredourada, a rechamante cruz da ordem de Calatrava que lhe pendurava do peito, a couraça cor canela ou o sovado bezerro em que constante fingia ler em devoção.

As forças, vassalos e vitualhas foram mais uma vez contadas, repassaram-se as fortificações, confirmou-se que os muros eram sólidos e sem minas, que a barbacã no caminho fora reforçada e que nele os buracos e pés de ferro foram ocultados. Visto tudo e era cousa de aguardar mais um pouco pelos reforços em lanças e besteiros garantidos, que o Rei, e em seu nome o poderoso Valido da antiga casa dos Rajoi, a Igreja, as ordens de Cristo, o Tempre, Alcántara e Santiago e os outros feudais, por conveniência e contra todo pleito interno, não sendo a Casa de Lago, estavam com eles a uma contra estes rebeldes vilãos.

Nos pisos por baixo continuava a festa: donas, doncelas, amas, soldadeiras, fidalgos, cavaleiros, sargentos, músicos e gente das principais famílias gastavam na mesa franca, cantavam e bebiam os frutos dos impostos de senhorio nos seus estados, só atentos à perpetuação dos seus privilégios, seguros dentro dos fortes muros.

II

Pé do castelo roqueiro e arredor tudo continuava nas mesmas, nas últimas semanas foram chegando mais e mais sublevados, porém as gentes se não punham de acordo em quando e como para dar assalto.

A cousa era que mesmo as grandes fogueiras não indicavam números crescentes senão grupos diferentes, que os das paróquias da boca-ribeira se negavam a ser chefiados pelos da beira-mar e estes não queriam combater com os das do monte e menos com os burgueses e mareantes que eram doutros credos e entre eles todos havia desacordo em quem liderava e nos planos melhores para o ataque.

Aquela noite mesmo dividiram-se mais uma vez as divididas facções e decidira-se que os de Monte de Ferro cavariam eles sós uma mina, cousa que irritou grandemente os canteiros de Castro Novo, que já começaram a sua em vista que nenhum outro queria ajudar; os do Faro, bons artesãos de ribeira decidiram construir dous engenhos de assalto pela sua conta, feito que aginha que se soube talhou pleito com os do grémio de carpinteiros que tinham  ideia de construir um grande manganel. A antiga casa de Beira e um rico-homem do Deça com as suas esforçadas lanças e cavaleiros iam e vinham também por todo o campo numa constante ação colorida.

Também não se sabia o que fazer em nenhum dos grupos com os que vieram soltos e peregrinos nem com os que achegados pelos ventos de revolta e lume vieram doutros estados de perto e ainda de longe, que do arraial se apoderara uma febre de debate e chegavam cada vez mais profetas barbados, druidas antigos, mezinheiros, mestres ambulantes, pregadores de todos os estofos, feirantes, titeriteiros de muitos panos e mendicantes de voz alucinada, jeitoso dizer bem e mal dizer rápido que aumentavam a confusão nos diversos partidos e as constantes brigas.

O grupo mais numeroso e melhor armado, os da Irmandade velha, quase todos gentes esforçadas do povo e todos cristãos velhos provados, não contavam com os outros e achavam que, segundo o plano primitivo, podiam assaltar o fosso pelo caminho velho ao Sul do Castelo e com carros de lenha passarem o fosso e darem lume às portas.

Alguns pensam ainda que tudo podia dar, que gente havia, e um ataque ao mesmo tempo por várias partes podia surpreender, tal como se demonstra com traçado e manobra no livro famoso de Fanto Fantini della Gerardesca. Mas uns e outros debatiam e debatiam, e o ataque demorava e demorava anunciando-se, como os planos, dia e dia.

Mais uma alvorada continuará a noite – somos galegos e não nos entendemos – e eu cá subido nesta pena metido a cronista ou trovador contemplo os agitados acampamentos e enxergo a velha mas sólida Torre que ameaçadora sobre todos nós, avisa com inúmeras cicatrizes nos seus lenços das vitórias sobre tantos outros assaltos antepassados.

Não quero escarninho alcumar esta nova irmandade de “Frustrenlha” que faço por dar um sentido à fábula com pimenta, que o que eu quereria em verdade ver é arder e derramarem-se para sempre as pedras da Torre.

Máis de Ernesto V. Souza