Flor de março

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I was riding on the Mayflower
When I thought I spied some land
I yelled for Captain Akab
I have yuh understand
Who came running to the deck
Said, “Boys, forget the whale
Look on over yonder
Cut the engines
Change the sail
Haul on the bowline”
We sang that melody
Like all tough sailors do
When they are far away at sea

Bob Dylan’s 115th Dream

Voga, voga, marinheiro, voga. E entanto vogo contemplo a Flor de Março, partir caravela e audaz. Largam-se cordas, içam-se trapos, abre, sobre o escuro de séculos, o dia em rompente ao leste e se desenha a imensa margarida ao vento das velas. Apenas a proa marca o ronsel e o destino: além mais!

Acompanhamos a saída e voltamos, depois da emoção da despedida, ao cais. Enxergo, ao entrarmos no porto as enormes naus varadas há tanto, os galeões dos senhores almirantes que nunca partiram. Por temor do mar ou de guerra, não ousaram romper o bloqueio e os limites da navegação do Império pequeno. E os cascos foram, como as esperanças, apodrecendo entre paralisantes melancolias entre Fonseca e a Rua das tabernas.

A Flor é nau muito marinheira, cortada de velhas nossas madeiras, sob patrões novos a obra viva, reformadas a proa e o porão, procurando a ligeireza dos navios lusitanos, com mastros e velame desenhados para correr por mares nunca antes navegados.

As cartografias uma e outra vez sonhadas de tanto como planificadas desenham o périplo e lembram que o tempo (relógio que tão tristemente desde aquela marca as horas e o cantar que cantamos) se suspendeu para a Galiza no tempo que João de Maceda navegou para Portugal e o Mestre João, físico e estreleiro, media as constelações e fixava no Cruzeiro aquelas Terras intuídas nos mapas velhos que tinha entre outros Pero Vaz Bisagudo.

Carrega a nau forte, imagens de auga, árvores e de fontes, a origem certa das pedras do caminho e a matriz verde limão, as raizeiras faladoras das mais das palavras e também a longa literatura de fidelidade popular que se resistiu a deixar a Terra desassistida. A música e a flor primeira, o saber antigo da cura pela alegoria, o berro consciente da agonia e a denúncia. Dolmens, trebas, nações, reis perdidos, mouras encantadas, cantigas, contos, trabalhos, alvoradas, saudades e todas as alegrias que ainda somos capazes, os galegos, de trazer com nós. Língua plena no mar alto. Sociedade civil a nós representar.

Esperança nos corações para se encherem os olhos de todas as cores e o peito de todo o ar do Novo Mundo entanto se diz que ainda nós resistimos no Velho. Os instrumentos de navegar, postos ao dia. Instrumentos e procedimentos: idéias e usos metódicos, que nos permitam retomar a navegação além como no próprio ser, na presença restaurada de Galiza no lugar dinâmico e no espaço histórico em que bem ajusta.

Vedes partir a nau no seu destino institucional: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Musica e poesia. Mas viaja noutra dimensão: a da língua, arredor, a encontrar-se entre corações e maravilhas com ela própria futura e com nós mesmos definitivamente na Lusofonia. A abrir a rota atlântica das navegações a Ocidente, na procura dos mercados e dos sonhos, de um futuro para a língua e também para a individualidade das escritas numa normalidade internacional.

Rumo ao grande Brasil, cheios de velhas mercadorias, memórias e magias e plenos de esperança. Sem medo ao mar, com proa de nova feitura e os melhores paus das mais antigas fragas. No mastro orgulhosa em azul e branco, a bandeira da AGLP, na ponte as altas Senhoras, Concha Rousia, limaica de nação, cuja palavra cura e mais Isabel Rei, dos Kelenoi da Estrada, ante cuja música qualquer um perde o alento, embaixadoras.

Boa viagem, pois toda Galiza, vai nelas.

Máis de Ernesto V. Souza