A realidade está, por definição, em constante mudança. O mundo muda, países mudam, pessoas mudam e os nossos idiomas criam novas palavras e estruturas para nomear os novos mundos. Daí palavras como micro-ondas, feminicídio, todes. Assim, linguagem não binária (lnb) “não é uma questão de estilo, mas de respeito”. Também o caminho contrário. Renovamos a linguagem para mudarmos o mundo e as nossas escolhas nunca são inocentes: “a língua reflete como pensamos e pode incluir ou excluir pessoas”.
Para além do masculino e do feminino, “lnb não é uma cor nova adicionada às duas que já existiam, mas todo o espectro de cores que estava oculto. Por isso, a lnb está longe de ser «neutra»; é política, posiciona-se contra os binários e contra a rigidez das categorias”.
Este guia visa canalizar e sistematizar uma potentíssima criatividade coletiva, da Galiza e do mundo todo, oferecendo num único volume uma ferramenta útil para quaisquer públicos. Com dicas claras, imensos exemplos e capítulos de profundização, este guia serve a leitóries curioses, escritóries comprometides, pessoas leigas na matéria ou filólogues e linguistas sem medo a mudarem os seus esquemas. Observando a nossa própria forma de construir e utilizar o idioma, vai ao encontro do português internacional.
Falamos com Alva Lourenço, Nee Barros e Daniel Amarelo, responsáveis do volume.
Antes de mais, gostava de saber qual foi o vosso primeiro contacto com a linguagem não-binária.

[Alva] No meu caso, o primeiro contato foi no bacharelado a raiz dos debates que surgiram depois que Irene Montero utilizasse a LNB no congresso. Depois, de maneira mais teórica, já na Faculdade, da mão de publicações de pessoas como Carla Míguez, e com parte do professorado que esteve interessado nestas questões, sobretudo de linguística.
[Dani] Quanto a mim, é paradoxal… mas diria que não lembro de um primeiro contacto específico. Sei, sim, que durante o grau na universidade progressivamente fui vendo este tipo de estratégias na paisagem linguística (nas paredes das faculdades, nas praças, em grafitti nas casas de banho, etc.). Nos diferentes movimentos ativistas dos quais participei, como o LGBTQ+ ou o estudantil, também começamos a articular aos poucos opções não binárias em coletivo. E, é claro, por ter estudado sociolinguística dentro da formação filológica, o debate sobre o masculinismo e o binarismo de género na linguagem ocupou sempre um espaço importante nas discussões (mais nos cafés do que nas salas de aula, ainda que com exceções, hei de dizer!). Diria que entre 2015 e 2020 vivi em múltiplos espaços essa eclosão da LNB.
[Nee] Não podo colocar uma data exata, mas estou segure de que foi através da Internet. Como para muitas questons relacionadas com a diversidade e o coletivo LGBTIQA+, fum encontrando informaçom em linha e às vezes sentim-me só: como se fosse algo que nom pudesse explorar no meu dia a dia. Mas, com o passo dos anos, descobrim que na Galiza também havia gente a buscar outras fórmulas e tentar quebrar o binário. Este livro é outro passo nesse caminho, que aprende do que já foi feito e tenta sistematizá-lo com algumas propostas.
2. Muitas pessoas estão familiarizadas com a linguagem não-sexista, uma proposta linguística que, através de diferentes estratégias linguísticas e discursivas, visa visibilizar as pessoas (especialmente as mulheres) que tradicionalmente ficaram marginalizadas. Sendo que já existe este modelo, por que deveríamos apostar na linguagem não-binária?

[Nee] A linguagem não-sexista foi um passo fundamental para combater o masculino genérico e recuperar a visibilidade das mulheres. Isto através de estratégias como palavras sem género (todas as pessoas) ou desdobramentos (todas e todos), mas estas propostas têm limitações. Por um lado, as fórmulas sem género podem ser difíceis de generalizar e, por outro, os desdobramentos continuam a reproduzir a ideia de que só existe o feminino e o masculino: o binário de género. Mesmo o feminino genérico, como usar “todas” para incluir toda a gente, acaba por fazer que alguns homens trans e persoas não binárias se sintam excluídes.
É aí que a linguagem não binária é necessária. Propondo formas como “amigue” no singular ou “todes” no plural, quebra este binário e abre espaço para o questionamento e para o reconhecimento de identidades que ficavam fora. Assim, por um lado fai que persoas não binárias tenham um espaço explícito na língua e por outro cria possibilidades para novas formas de genéricos. E também fai que paremos e reparemos em como usamos o género. Tem tanta força que, com um simples “e”, consegue até enfadar muita gente que, noutros contextos, nunca repararia no género ou na língua!
3. Uma parte da sociedade — talvez mais barulhenta nas redes sociais — clama contra a linguagem não-binária por se tratar de “uma nova moda que está a estragar a língua”. Como responderíeis a este discurso?
[Daniel] Parece que estamos constantemente esquecendo a nossa história recente. Se olharmos para trás, veremos que a chamada “feminização da linguagem” provocou essa mesma resposta barulhenta. Como é que íamos dizer “todos e todas” ou “as alunas” quando um grupo de estudantes era maioritariamente feminino? Passados alguns anos, porém, vemos que muitas instituições usam esta linguagem (especialmente o chamado “desdobramento”). O que era um escândalo passou a ser institucionalmente habitual. O ponto meio parece que se foi movendo, graças ao ativismo feminista.
Na Galiza em particular, por motivos evidentes, sempre houve um certo catastrofismo linguístico, mais ligado geralmente à morte do galego (lembre-se o Informe dramático do recentemente falecido Alonso Montero) do que à questão de género. O que é claro é que vivemos em constante negociação entre o cortisol altíssimo por causa da fragilidade da língua, por um lado, e a total desconsideração ou até ignorância da língua, por outro lado. José del Valle tem falando na cultura linguística galega como heteroglóssica, no sentido de as pessoas galegas terem uma orientação para a diversidade de dialetos, de formas da língua, de normas para a escrever (mesmo dentro dos dous grandes pólos clássicos isolacionismo vs. reintegracionismo) ou até de atitudes e ideologias. O leque vai desde quem morreria polo galego até quem nem se importa da sua existência e/ou desaparecimento. Penso que este contexto linguístico que alguns (masculino propositado) caracterizariam como “esquizofrénico” é um ponto de partida produtivo para uma aceitação social e académica da linguagem não binária. O purismo linguístico que pretende encapsular um tipo de galego enraizado no mal-chamado masculino genérico ou em formas binárias gramaticalmente férreas terá que decidir se quer continuar a discursar para uma comunidade linguística cada vez mais e mais pequena. Porque as pessoas NB ou com preocupações com temas de género e sexualidade poderão facilmente migrar para o castelhano ou outras línguas (e comunidades sociais) onde se sintam melhor recebidas e representadas. Aliás, a preocupação com a norma deveria ver com bons olhos que se tente articular um modelo de LNB estável, sistematizado. A linguagem não binária é um assunto de política linguística, de estandardização e de revitalização linguística.

Neste sentido, ecoando Sara Ahmed e as suas feministas estraga-prazeres (kill-joy), sim, viemos para estragar a língua, se por Língua entendemos um objeto estanco e inabalável que temos que carregar. Acreditamos que a LNB torna a própria língua algo que nos impulsiona, que nos mantém vives e que nos dá dinamismo: em última instância, vem questionar o que é uma língua e o papel desta na(s) nossa(s) identidade(s). Mas morreremos nós e o galego continuará a existir; desaparecemos e outras pessoas NB continuarão a discutir as normatividades da língua.
4. O que es leitóries podem esperar encontrar no guia linguístico propriamente dito?
[Alva] Na parte do guia linguístico es leitóries vão encontrar, basicamente, uma das muitas receitas que existem para aprendermos as normas ortográficas e morfológicas da linguagem não-binária com o objetivo de as aplicarmos no dia a dia. E digo “uma das muitas” porque esta que nós apresentamos é como qualquer outra receita de cozinha: há variantes no processo, mas o resultado acaba sendo, com pequenas diferenças, o mesmo. Nós optamos por certas regras, como acentuar o artigo definido em reintegrado, ou por termos em conta a dialetologia tradicional galega à hora de fixarmos formas como unhe, porque tentamos definir e precisar no máximo todas aquelas pequenas questões que com frequência ficam no esquecimento nos trabalhos sobre LNB em galego.
Não pretendemos sentar cátedra de nada, apenas dar algumas fórmulas práticas e verdadeiramente úteis para o uso da LNB no nosso idioma e evitar que a gente recorra ao espanhol para se ver representada na linguagem. Mais do que um manual teórico, trata-se de uma ferramenta de consulta que aposta pela aplicabilidade e a compreensão efetiva da língua. Neste senso, o guia está organizado por categorias gramaticais — substantivos, pronomes, adjetivos, verbos — porque entendemos que é aí que a língua se estrutura e ganha forma. Esta estrutura não é arbitrária: permite que cada pessoa encontre rapidamente aquilo que precisa e, ao tempo, compreenda como cada peça contribui para o funcionamento do conjunto.
Não devemos esquecer, para além disto, que a LNB está em contínua transformação e que serão, sempre, es falantes es que a acabem por prescrever.
5. Qual o horizonte que enxergais para a linguagem não-binária?
[Es três] O horizonte da linguagem não-binária parece-nos inseparável do próprio movimento natural da língua: transformação, negociação e adaptação às necessidades de quem a utiliza. As línguas nunca foram estruturas fixas; evoluem à medida que a sociedade muda e que novas realidades procuram expressão. Nesse sentido, a linguagem não-binária não surge como uma ruptura artificial, mas como resposta a uma necessidade comunicativa e social concreta.
No curto prazo, é provável que continuemos a assistir a debates, hesitações e coexistência de diferentes propostas. Isso faz parte de qualquer processo de mudança linguística. No médio e longo prazo, o horizonte dependerá sobretudo do uso: serão as comunidades falantes que consolidarão — ou não — determinadas formas.
Mais do que imaginar uma uniformização imediata, vemos como horizonte a ampliação das possibilidades expressivas da língua. Se a linguagem serve para nomear o mundo e as pessoas que o habitam, então o seu futuro será tanto mais rico quanto mais capaz for de acolher essa diversidade. A questão não é apenas normativa, mas profundamente humana: trata-se de garantir que a língua continue a ser um espaço de reconhecimento e de pertença; afinal, um espaço (mais) seguro.
6. Qual o vosso conselho para alguém que tem vontade dar os primeiros passos no uso da linguagem não-binária, mas não sabe por onde começar?
[Es três] Achamos que ler um livro como este! É importante contarmos com manuais que tenham essa parte prática que permita pôr sobre papel aquilo que se vai aprendendo. Um guia prático ajuda precisamente a reduzir essa insegurança inicial por não saber ou não ter toda a informação. Oferece orientações claras, exemplos concretos e critérios que permitem tomar decisões linguísticas informadas, em vez de improvisar ou recorrer a soluções de outras línguas por falta de alternativas visíveis.
Além disso, aproximar-se da LNB não é como aprender do 0 uma língua estrangeira. Com um pouco de observação atenta, qualquer pessoa verá que este tipo de estratégias estão por toda a parte. Nesse sentido, os espaços comuns de ativismo, bem como os espaços digitais, representam lugares ótimos para familiarizar-se com diferentes materializações da linguagem não binária.
