Por José Ramom Pichel Campos
Pois é evidente que existem diferentes graus de amizade que se vão repetindo em cada um de nós, em cada um dos momentos, fases, etapas ou qualquer cousa que se lhe pareça vivida, e um já começa a não lembrar os nomes de tanta gente que passou por diante dos focinhos, dos olhos e das conversas.
É como esse ser que vens enfiando no passeio cara ti, com esse andar de anúncio de colónia, devagarinho, um andar turista de allegro ma non troppo, e que justo quando rebasam o teu lugar, ou o seu, sei lá, a interseção dos lugares a quem pertencem?, pois justo aí, quando se pára o tempo, esse segundo, no que abres narinas, e sem querer cheiras mais uma presença humana. Nunca dirias que essa pessoa, como dizia teu amigo António Garcia Soto (companheiro de Faculdade e outras questões vitais) é colega, ou até sub-colega.
Tahar Ben Jelloun, nascido no ano 1944 em Fez, Marrocos, lugar de tantas guerras e escritor escreveu um magnífico livro chamado Elógio da amizade onde chegou a comentar com a palavra escrita essa plêiade de amigos e amigas que o fôrom acompanhando durante a sua vida.
Como comentam na editorial, o autor marroquino tenta transmitir através desse livro esse jardim segredo da amizade, essa “religião sem Deus, nem juízo final e sem diabo”. Para isto Tahar Ben Jelloun fala de todo esse conjunto de pessoas que ele tem etiquetado como amigos e todas as classes e subclasses que acompanham a esse laço que nos une: esse amigo intermitente, esse amigo de passo, esse amigo desaparecido, o também reencontrado.
Mas agora que existe o Facebook, esse portal cheio de presuntos amigos e amigas que aparecem um a um, pinga a pinga, a tortura chinesa, um lembra todo o valor da amizade. No Facebook a gente fai laços de amizade em função do número de amigos em comum. Aquela canção de Objetivo Birmânia: “uy, vaya lío, los amigos de mis amigas son mis amigos”. E tudo parece tão fácil, que nem tanto. A amizade é um dos bens deste mundo, se for questão de frequências! O Facebook ou livro de faces é isso, um lugar para amostrar a que dedicamos o tempo livre, um lugar para encontrar gente, colegas e sub-colegas, e até algum amigo ou amiga.
O único que me dá medo do invento é saber que qualquer poder poida ter acesso a essa presunta rede social na que todos andamos inseridos, desvelar o ADN social que levamos dentro, nós, os que felizmente não estamos excluídos.
Frente a essa hipótese haveria que espetar à quem se atreva a abusar da informação ou do valor da amizade, aquela pintada numa parede “nem poder, nem amo, nem buen rollito”.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
