F1

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Por José Ramom Pichel Campos

Muita gente acredita que todos levamos um animal dentro, esse jogo de procurar parecidos de pessoas e animais. Digo-cho eu, Manuel é cuspidinho a um urso, Ana é mesmo parecida com uma bubela. Parece que todos levamos um animal dentro, um cão por exemplo, mas não sabemos de que raça é. Há-nos parecidos a preguiceiros, animal mítico de documentários de 15:30, há-nos parecidos a avestruzes de documentários de 19.30, há-nos canzinhos de domingos das 16.30 e farrapeira.

Nas cidades, cada vez há essa percepção da urgência, transeuntes que passeiam desafiando à velocidade do som, necessidades de pontos para oposições, actividades extraescolares pouco realistas, formar-se formar-se títulos títulos ratatatatá. Parece que o mundo vaia desaparecer se certa gente não fai nada. Seica o mundo é um painel de controlo onde vários botões, se clicados condenam-nos ao fim. Para uns existe o botão que clicado constrói uma mudança climática irreversível, para outros outro que activa a perda do idioma, para outros mais um que conecta a perda de capacidade aquisitiva de funcionários e funcionárias, para o de lá abaixo existe outro que caminha cara a desaparição de raças autóctones de cães de palheiro.

O mundo parece que fosse um botão que se põe em ON/OFF, e por isso essa velocidade general. Muita gente pensa que deve estar dia e noite guardando qual soldado britânico de Buckinghan, de esquerda à direita e direita à esquerda, todos os botões para que ninguém clicar nenhum. A vida diária parece uma urgência sem acougo acima dum fórmula 1. E devemos acreditar que isto é absolutamente incorrecto

Mas quando a través dum fundo de escritório de Alpes, ou lusco-fuscos em ilhéus atlânticos, lagoas salgadas, praias de caribes impossíveis, mergulhamo-nos na realidade imaginada, nos cheiros que nos transmitem, decatamo-nos que a vida é outra cousa. Que nada de presa existe, as cousas levam tempo, os fornos de lenha geram um pão mais saboroso, o cozido melhor em cozinha de ferro, que os botões naquela zona do mundo não existem e os risos têm dentes brancos.

Só imaginar-se nesses lugares o animal que levamos dentro paralisa-se, volta à natureza da que partimos. Muitos dos usos pouco equilibrados das novas tecnologias transportaram-nos a lugares demasiado velozes para ser conscientes de nada. No entanto, também a tecnologia da-nos a oportunidade de parar, e premer no botão F1 de qualquer teclado, que nos leva directamente a activar a ajuda para ralentizar definitivamente este mundo.


(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.