Estratégia Google

Partilhar

Por José Ramom Pichel Campos

E insistimos, do verbo insistir, da terceira conjugação como era previsível. Que sucederia se uma empresa como Google figera um tradutor estatístico de catalão usando corpus paralelos (traduzidos um do outro) do francês?

Pois que pensaríamos provavelmente que se trata do mesmo idioma. Pois isto é como contamos há semanas o que fijo Google com o galego. Continuamos a investigar e descobrimos que usara corpus do português do Brasil, provavelmente a variedade da nossa língua com maior produção textual do mundo.

Agora que estamos em crise, como dizia o outro, há que refletir sobre qual a estratégia para recuperar o nosso idioma.

É certo que os dados sobre o uso do idioma são muito desencorajadores, e como dizia Leonardo Boff ao Papa J. Paulo II quando foi admoestado por segunda vez, por essa teologia da libertação incômoda para a hierarquia, “mais grave que perder a fé, é perder a esperança”. E a verdade que as elites, sobretudo filológicas, que se dedicam a isto da planificação da língua, fazem muito por convencer-nos que devemos perder o mesmo que o Leonardo. Mas isso não vai ser possível. Cada vez mais a sociedade civil está a dar passos precisos sem perder nunca o objetivo final.

Por tanto, o galego tem de ter uma orientação lusófona para ser a língua atmosférica. Não devemos perder a outra língua que habita na Galiza, o espanhol, e devemos ganhar o inglês como língua internacional.

Google, empresa que mudou o paradigma das pesquisas por Internet, mudando a forma de realizar-nos na net, aposta para o galego, pola reutilização, polo trabalho coordenado, pola convergência com os outros sabores da língua, o sabor português, e o sabor brasileiro principalmente.

Google está a marcar uma estratégia para as próximas políticas lingüísticas, se é que realmente queremos sobreviver. Com esta orientação podemos mudar de via a autoestima que temos do nosso idioma. Temos a sorte de ter um idioma rico para o mundo por existir e útil por insistir.

Com esta mudança de práticas e com relacionamento e paciência, poderemos ter mais hipóteses de que o idioma dos nossos avôs continue com vida. Já agora seria fantástico que os organismos públicos e privados aprendessem de Google, reconhecessem que falamos uma língua própria, que se fala para além de na Galiza, em tantos lugares da net, da net do mundo. Que quando dizemos no goo- gle translator “falamos galego” em cristiano significa “nosotros hablamos português”. Com efeito, para não perder a esperança.


(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.