Esforço zero

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Por José Ramom Pichel Campos

Um começa a envelhecer quando lhe parece anormal o que nesse instante é normal, assumido. Uma contradição com a existência, assumir que as cousas mudam, os rios não se podem apanhar e a água lembras escorrega e escorrega até voltar com os seus irmãos da corrente. Por isso, por muito que nos esforcemos a água escapa, a raiva de não poder apanhá-la, de assumir os limites pode não ser controlável, até injusta com um mesmo. A realidade não sabe de lógica, a realidade é um lugar onde as cousas sucedem e que lhe vamos fazer.

Dizia Milan Kundera que é um dos melhores valores que podemos encontrar na vida é o prazer da lentidão, essa cada vez mais desconhecida, por enquanto continuamos a estar obsessionados uns com os outros em atingir mais velocidade cruzeiro, como se isso fora um objectivo em si mesmo. Pedalamos a bicicleta, continuamente, com pedaladas continuas sem respiro, e sem saber finalmente por que o fazemos. Um ciclista sempre mira o horizonte, o chão de esguelho ou de lado, mas sempre para a frente, o prazer da respiração de outono, o cheiro a erva, a talher de automóveis, a gasolina. A lentidão já não controla os nossos músculos nem as nossas engrenagens, correr é um verbo oculto, um vírus diário.

Por isso tiveram sucesso na tecnologia todos esses sistemas operativos de seguinte-seguinte, janelas que nos prepararam para a velocidade, o importante é instalar e instalar, perder o rumo de que se está a fazer, e por que. E as que perderam até há pouco foram esses sistemas que nos explicam porque há que fazer as cousas, ganhar o tempo razoando, pesquisando embora tenhamos às vezes ganas de tirar computador ao lixo ou fazê-los amigos para toda a vida, a metáfora.

Quando a gente se queixa de que por que um filho deve estudar matemáticas em galego, ou inglês ou matérias parece incompatíveis com língua que não seja o espanhol, como diz um amigo de tertúlias, parcerias tecnológicas e provocações compartilhadas, chamado Severino Santirso, o que se está castigando realmente é o esforço por aprender. E parece-me uma perspectiva muito inteligente para além de boa, completa. Parece que é um problema esforçar-se, ter gente nova que aprenda que o conhecimento não é trivial, que os neurones querem novos reptos.

Esta gente em contra da língua, em realidade está em contra do esforço, querem que o conhecimento, a cultura, a vida seja uma auto-estrada, para que corramos e corramos, livres de qualquer um obstáculo. E depois quem vai parar o mundo?


(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.