Por José Ramom Pichel Campos
A engenharia não consiste em realizar a obra melhor com orçamentos e tempos perfeitos, longitudinais, sem curvaturas. Não. A engenharia provavelmente consista em realizar as cousas, as tarefas, as obras finalmente da melhor maneira possível e no tempo que se dá para fazer. Não estamos a falar por tanto de Escoriais para a história, cidades da cultura, ou esbanjamentos similares. A engenharia aprende dos erros, dos fracassos, das decepções, e continua, mas se não os aceita também se paralisa.
Isso foi o que veu contar outro dia Frances Allen a prémio Turing, o equivalente ao Nobel mas das ciências da computação. Fran Allen que é mulher, matemática e engenheira informática com o riso, deu outro dia várias palestras por Compostela, o importante não são o trunfos mas as derrotas, aprender a que as cousas tenham vida própria, que as questões falhem, esse é o nosso lugar na história.
Como disse o meu amigo Béni, somos simplesmente material humano. E por isso quando Allen e não Woody, mas poderia ser no entanto, começou a fazer compiladores de Fortran lá polos anos cinquenta, isto é, programas que entendem linguagens de programação parecidas as humanas e que as convertem em linguagem máquina que percebem os computadores, pois quando isto sucedia, começou-se a ver que não as soluções complexas ou elegantes são sempre as efectivas. Assim, quando havia que dar-lhe valores iniciais a um vector que continha cinco variáveis não era sempre a melhor solução fazer um laço com cinco iterações e em cada uma delas iniciar cada variável. Pois não era assim. O mais prático, o que menos custo computacional tinha, era efectivamente iniciar os valores das variáveis um a um, sem laço nenhum.
Parece que o mesmo nos acontece vitalmente. Continuamos a pensar que a solução a esses sarilhos nos que mergulhamos sem saber muito bem por que, é sempre as elegantes, os terapeutas imaginativos, o exercício continuado, não pensar porque pensar emagrece. No entanto ao melhor ocupar-se dum e duma mesma é provavelmente o começo do fim. E sobretudo inicializar as variáveis que são os nossos valores herdados de pais e família, cada um os seus, voltar a pôr os valores a partir dos quais nos movemos polo mundo, a zero. Com isto, falando com os nossos modelos de conduta, desapareceram medos, assumiremos erros e contradições, descobriremos mais uma vez a quem queremos, que é o importante, e que nada no fundo é mais urgente que ser um mesmo. Por isso, tanto sarilho e era mais fácil.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
