Por José Ramom Pichel Campos
Não sei qual podia ser a razão mas era a primeira vez que perdera o telemóvel por razões terrestres e não aquáticas. Sempre ou quase sempre, o destino dos seus telemóveis, dos dela quero dizer, esses seres automáticos, dependentes, de dar-lhe de comer todos os dias, era acabar em lugares aquáticos.
Aquela queda polo water naquele restaurante de ir fazer aquilo que não rima com orina e ao erguer-se em salto olímpico e o telemóvel, o aparelho eletrônico caindo polo buraco aquoso rodeado de branco, de marca valadares ou era roca?. Porto ou Vigo?.
Ou aquela outra vez de caminho por terras castelhanas, naquela procura, pesquisa, tentando chegar a compostela, com essas ovelhas e o horizonte, quem é que regala o horizonte?. Aquelas mochilas formigas e formigas, e o verão. Por isso tinha de caminhar de noite às vezes, mas ainda era de dia e teve de ir apanhar água justo naquela fonte, e depois o mítico empurrão, o abraço do peregrino que acababa de chegar, que pensam que os abraços são necessários, e alá vai o telemóvel, em triplo salto mortal, como um boomerangue a câmara lenta, chegando sem ela poder remediá-lo tocar a água e mergulhar-se na fonte do caminho. Segunda história.
Também aquela visita ao museu do desembarco de Normandia, em Caen, que dependendo da pronúncia em francês pode ser cidade do norte da França ou imbécil. Aquele lugar que queria acceder com um aquario de peixes, e que raios fazia com o telemóvel naquela altura que também caiu em caen para visitar os peixinhos, dous em total, com nomes de Epi e Blas poderiam ser. E como brincavam com o novo habitante do desembarco. Terceira história.
Agora foi a primeira vez que o telemóvel se perdera em terra. Havia quatro semanas sem ele, sim sabia o que ganhara. Ganhara poder perder-se no mercado, desfrutando mais do que nunca dos cheirinhos a peixe, dos bigotudos e homens solitários que compram só os sábados, as velhas de nabizas a de-me o que queira, a chuva horizontal, vertical e diagonal de compostela. Ganhara decidir quando estás disponível. Ganhara chegar sempre à hora e não ter de esperar polas contínuas replanificações dos outros usuários de telemóvel. Ganhara ter de voltar a provar sorte e ver se a gente está na casa, se não estar não se passa nada.
Ganhara voltar a desfrutar sem o telemóvel do presente, e imaginar como seríam de novo os encontros aletórios polas ruas da cidade, polos mercados, polos cinemas e se calhar polas cabines telefónicos, que antes ficavam tão longe.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
