Encarna Otero: “O ILG fijo um dano mui grande ao assumir que a fala era o que definiria a norma”



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Neste ano 2021 há 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, iremos realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom para o futuro.
Desta volta entrevistamos a historiadora, mestra e política nacionalista Encarna Otero.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
Cuido que houvo muitas, mas destacam principalmente as que partirom da base social. Sobretudo no mundo do ensino, com iniciativas do próprio professorado para fazer do galego língua veicular e criar ferramentas, como livros, materiais de apoio, etc. Forom respostas ante as próprias necessidades.
E depois todas as campanhas de valorizaçom, como as de Queremos Galego. Também no mundo da justiça e da empresa houvo iniciativas de valorizaçom, com gente detrás como Joaquim Monteagudo ou Pepinho de Teis, que tenhem construído desde diferentes âmbitos. Também no cinema ou na cultura.
A nível institucional, figerom-se cousas durante o governo bipartito da Xunta, e a nível local com os serviços de Normalizaçom Linguística Municipais, nos Concelhos onde existem.
Quem fijo mui pouco ou quase nada forom as universidades: aí nom se normalizou o galego como idioma de investigaçom e de criaçom de conhecimento, estám todas elas mui por debaixo do que se tem feito a nível social, é umha vergonha.

Quem fijo mui pouco ou quase nada forom as universidades: aí nom se normalizou o galego como idioma de investigaçom e de criaçom de conhecimento, estám todas elas mui por debaixo do que se tem feito a nível social, é umha vergonha.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situaçom na atualidade fosse melhor?
Eu focaria em três pilares: O primeiro, retomar a iniciativa de Carvalho Calero, e devolver o galego ao seu tronco comum, que é o português. Frente o triunfo do ILN de tornar a fala em norma, cumpre retomar propostas que contribuam e fortaleçam um idioma tam danado como o galego, e reintegrá-lo no mundo da lusofonia. Eu levo três anos estudando português na Escola de Idiomas, e o que descubro é que estudando português melhoro muitíssimo o meu galego.

Em segundo lugar, penso que cumpre aplicar a legislaçom e o reconhecimento legal do galego, tanto na Constituiçom Espanhola como no Estatuto de Autonomia e garantir o direito ao uso, tanto numha vertente interior, dentro do País, como exterior, dimensionando-o como língua que permite a comunicaçom com quatro continentes. Cousa que nunca se fijo, através das instituiçons que teriam competências para isto, que som o governo galego e o parlamento da Galiza.

E terceiro, já que Galiza tem um problema de auto-ódio, cumprem campanhas positivas de seduçom e de valorizaçom. Propostas de carinho, de ternura, de autoestima, e de posicionamento no mundo. Fazendo finca-pé em que temos a sorte de que se fala em quatro continentes.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Cumpre normalizar o galego em todas as esferas da vida. E para isto cumprem campanhas de seduçom: olha que bem namoramos em galego, olha que bem compramos em galego, que bem se trabalha em galego, etc. Tenhem que ser campanhas sempre em positivo, e desbotar a ideia de que o idioma é um assunto do nacionalismo: O galego é o idioma do país, penses como pensares politicamente.
Há cousas que som pilares transversais, e o idioma é um deles. Se nós nom o defendemos quem o vai fazer?

Além disso, é necessário cumprir a lei Paz Andrade, que foi aprovada por unanimidade: E em todos os centros de educaçom secundária deveria ser obrigatório ter a opçom de estudar português, isto iria mudar muito a visom do idioma.

Além disso, é necessário cumprir a lei Paz Andrade, que foi aprovada por unanimidade: E em todos os centros de educaçom secundária deveria ser obrigatório ter a opçom de estudar português, isto iria mudar muito a visom do idioma.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?

Eu aí tenho as minhas dúvidas, acho que o galego devera ter umha norma oficial que nom fosse o da ILG-RAG, mas umha ortografia que estivesse mais próxima da lusofonia. Também Moçambique ou Brasil tenhem as suas normas, mas dentro do tronco comum. Por umha questom de eficácia, seguiria de novo com Carvalho, a normativa do galego tem que estar vinculada ao seu tronco comum, que nom é o espanhol, é o mundo lusófono, as diferentes variantes do português.

Seria mui eficaz, até a nível económico, a nível cultural… relacionar-se com todo esse mundo falando no mesmo idioma. Entendo que o galego teria as suas próprias variantes, de vocabulário e traços que sempre há, mas a norma nom é o mesmo que a fala, seria melhor mudar a norma que atualmente temos.

Era preferível a norma dos 80, que permitia terminaçons em -zom, e que agora nom se está a usar. Isso seria recuperar inclusive o galego das Irmandades da Fala. O ILG fijo um trabalho enorme de recolher as variantes da fala, mas figerom um dano mui grande ao assumir que a fala era o que definiria a norma. Dizer isto nom é negar as variedades dialectais, já sabemos que em Ourense falam diferente que nas Rias Baixas, mas isto som variedades, umha riqueza por ser um idioma vivo.
Em aquela altura o que se fijo foi impor esta posiçom, e ademais dumha forma mui violenta e houvo muita confrontaçom. Hoje estamos noutra situaçom. Com o PP nom há nada que fazer, que até apoia a falácia de que o espanhol está em perigo em algum lugar da Galiza. Mas entre outros setores, as novas geraçons podem encontrar consensos e abrir um novo caminho, que permita que o idioma se reincorpore no seu tronco natural. E seduzir à gente sabendo que com o galego se vai a qualquer parte, de que o galego é útil, que se calhar umhas décadas atrás nom era possível.


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  • Hugo Da Nóbrega Dias

    Uma ortografia que aproximasse o galego do tronco comum seria o ideal, sim, mas talvez numa fase inicial fosse mais aceitável (do ponto de vista de quem aceita estas cousas) uma convivência de duas normas. Deste jeito haveria uma fase de inicial de adaptaçom, que poderia trazer maior aceitaçom e, consequentemente, familiaridade.

    • José Luís Maceira

      A respeito do (muito bom) comentário anterior, uma outra possibilidade —bem aplicável ao caso galego, penso eu— poderia ser a que o IEC (Institut d’Estudis Catalans) está a propor para ‘reintegrar’ o catalão de l’Alguer na catalanofonia.

      Dizemos ‘reintegrar’ porque o alguerês, por vicissitudes históricas, leva desinserido há séculos do resto de territórios catalanófonos, numa existência completamentamente arredada. Prova disto é que o (escasso) alguerês que até hoje se escrevia usava maioritariamente a ortografia do italiano, embora ninguém negue a origem catalã do seu falar —um detalhe importante.

      Em resumo, o IEC está a sugerir uma ‘reintegração’ em duas fases:

      1. Inicialmente, para o ensino, para a implantação nas escolas, e para o uso coloquial e quotidiano (lojas, imprensa, etc…), propõe-se um estândar alguerês reintegrado de âmbito ‘restrito’. Quer dizer: empregar os usos ortográficos distintivos do catalão (ny, ll, acentuação, etc…) mantendo as peculiaridades locais (fonética, morfologia, léxico,…) mas priorizando, as formas convergentes com o resto da catalanofonia. (Equivaleria a uma antiga norma-AGAL, na sua feitura mais localista-galega: ‘canto’, ‘dixem’, ‘bebim’…)

      2. Ao mesmo tempo, aconselha-se a ir familiarizando aos utentes (de modo passivo) com a língua catalã-padrão geral, especialmente para os usos formais, que seria o objetivo a alcançar, pouco a pouco e sem forçar. Essa língua-padrão final catalã, contudo, nunca seria monolítica, mas ‘pluricêntrica’ —a meu ver, uma das maiores virtudes que tem a codificação do catalão. Deste jeito, o catalão-padrão em l’Alguer teria uma modulação própria (ortofonia local mas convergente, pequenas peculiaridades lexicais e morfológicas), homologando-o ao que acontece com os catalão-padrão de Valência, do Principado, de Ibiza, de Maiorca, etc… Esse ‘pluricentrismo’ é que permite que, sendo a língua-padrão essencialmente a mesma, não seja sentida como ‘estrangeira’ em nenhum dos territórios.

      Uma proposta parecida é a que o IEO (Institut d’Estudis Occitans) propõe para o aranês (occitano-gascão do Vale de Aran), atualmente oficializada nesse território.

      Se na gerência do PGL houver interesse, não tenho inconveniente em escrever neste portal um artigo mais demorado sobre o tema.

      • https://pglingua.org/index.php abanhos

        acho que já te podes pôr a fazê-lo

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    Umas aspas ao facto de Encarna “Outeiro” achar que os problemas da língua se alicerçam no auto-ódio (auto-nojo).

    Porque é que os galegos tenhem auto-ódio a sua língua?

    Eu acho que a resposta não é que tenhem, se não, que não tenhem.

    E logo porque educam aos filhos em castelhano se não tenhem ódio a sua língua?.

    Pois por uma cousa muito simples, não tenhem língua, tenhem fala, uma fala limitada onde de continuo tenhem que encher os valeiros pujando do castelhano, que escrevem como o castelhano, uma fala que cada dia está mais empobrecida (o sucesso da normalizaZion), e onde o castelhano enche mais e mais espaços da sua vida. uma fala que sabem que quando falam em castelhano também permeabiliza este, pois em realidade a fronteira e bem indefinida, e eles querem sucesso e segurança para os filhos.
    Uma fala, que quando a falam não fala de ti, pois se não as elites galegas e as classes altas galegas, gastariam a mesma com muito cuidado para que falasse bem deles, e quando a usam limitada castelhanizada empobrecida essa fala não berra alto e claro (a linguagem gestual a das aparências, como um certo registo nos define) que são analfabetos, que não são elites, e todo povo quer elites e dirigentes de verdade.

    O sucesso da normalizazión oficializada, é que é um modelo de substituição linguística estupefaciente sob AS ENTIDADES SUBIDAS AOS CEUS DA ASNEIRA

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      Eis o Aracil (Agália núm. 17) que bem o esclarecia e como a máquina da normalizaZion é uma máquima de reforçar a raia. https://a.gal/Agalia/017.pdf

      QUESTIONÁRIO DE HISTÓRIA CONTEMPORÁNEA
      L1uÍs V. Aracij
      (Apresentaçom, adaptaçom e notas por
      C. C. MORÁM FRAGA e J. MATO FONDO)
      «E saiban os da perguiza
      Qeu sin traballo e sin tempo
      Ninguén fixo nunca nada
      Nin se fará sin comenzo».
      (Joám M. Pintos)

      Apresentamos um texto inédito do notável sócio-lingüista catalám, que
      foi no seu dia ponência no I Congresso Internacional da Língua GaJegoPortuguesa na Galiza, celebrado na cidade de Ourense em Setembro de 1984.
      Quantos naqueles dias participámos activamente numhas reunions sem
      precedentes para a nossa história, nuns debates que julgávamos altamente esclarecedores e que, sem dúvida, o fôrom, tivemos a feliz oportunidade de perceber em Lluís V. Aracil umha das.análises mais rigorosas a respeito da situaçom lingüística e do problema nacional: rigorosa na sua brevidade, precisa da sua focagem e especialmente desmitificadora polo procedimento discursivo empregado. Por causas diversas nom foi possível que a ponência aparecesse publicada nas Actas, mas felizmente tinhamo-Ia recolhido íntegra emfita magnetofónica e conservamo-la até hoje.
      Transcorridos quatro anos e meio das jornadas anteditas, e quando a
      AGAL já tem organizado e celebrado um II Congresso, a situaçom política,
      cultural e lingüística nom mudou substancialmente, embora se podam registar factos susceptíveis de análise em diferentes planos, factos a que nom vamos fazer referência. Seja como for, o texto aqui reproduzido mantém toda a vigência do primeiro dia, toda a força dinamizadora, toda a luz, e também
      toda a sua carga de possível «incomodidade» em tantos e tam diversos potenciais receptores.
      Nom é este o lugar para fazer um comentário do texto que, aliás, pudesse condicionar os leitores. Cumpre, no entanto, explicar o critério aplicado
      nesta publicaçom.
      Os leitores devem saber, em primeiro termo, que nom se parte de umha
      conferência «lida», mas de umha dissertaçom mais ou menos improvisada,
      submetida -é c1aro- a umha organizaçom prévia. Isto deixava aberta umha
      possibilidade: adaptar o «texto oral» até convertê-lo num «texto escrito» mais
      «formalizado» ou «académico», despossuído assim de certas brincadeiras e
      pretendidos desajustamentos próprios da oralidade. Porém, pareceu mais oportuno -e científico- respeitar integramente o fio do discurso por manter
      umha total fidelidade à expressom dos conteúdos.
      Se este proceder for válido em qualquer caso, aqui atinge umha validez
      singular, pois é precisamente no fluir da linguagem discursiva onde se manifesta, talvez, o maior interesse que apresenta o discurso de Lluís V. AraciL
      Quer dizer, deixando de parte -e fora de dúvida- a importáncia do significado, achamos que tem um valor especialmente apreciável o significante, isto
      é, o procedimento analítico, a imagem humorística carregada de ironia, a linguagem ilusiva ou a redundáncia consciente, o paradoxo ou a tautologia, etc.,
      como meios efectivos sempre utilizados, para chegar a um tema, polo autor
      de Dir la realitat ou Papers de Sociolingüistica. ~
      Eis a justificaçom do critério empregado. Mas isso nom impediu algumha modificaçom necessária sem alterar em absoluto o sentido original: tais
      variantes atingem apenas a algumhas expressons cuja redundáncia era inútil
      na escrita, à supressom de brevíssimos comentários marginais (quase imperceptíveis na gravaçom) ou determinadas interjeiçons (nom todas), nomeadamente algumha de carácter onomatopeico.
      Além disso, cumpre assinalar que, para facilitar a compreensom sintética dos diferentes pontos, optámos por apresentar o texto de maneira seqüendai, responsabilizando-nos portanto das epígrafes, restringidas -isso simao mínimo possível, pois quando há subdivisons recorre-se apenas à numeraçom arábica e às letras do alfabeto para nom interferir a linearidade expositiva. Contudo, e por respeito ao fio do discurso, algumhas epígrafes pode-se
      dizer que fam parte de outras ou estas estám superpostas a aquelas.
      Finalmente, assumimos a responsabilidade de empregarmos diferentes tipos de letra (negra, cursiva, maiúsculas), o qual, se por um lado pode influir
      (isso se pretende!) no leitor, por outro tenta reflectir no plano da escrita as
      pertinências fónicas e gestuais próprias da oralidade.

      6
      César -Carlos Morám Fraga
      José Mato Fondo
      A Corunha, Primavera de 1989

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        lntroduçom
        «Umha consideraçom interessante, talvez nom bem sabida, é que o sentido etimológico da palavra HISTÓRIA é invesaigaçom. Isto pode surpreender, mas é assim. História, (historÍa» (l), é investigaçom. Pesquisa, inquérito, e só secundariamente «informe», «narraçom», sobre os resultados do inquérito. Digo-o porque realmente é importante diferenciar estes dous sentidos da palavra HISTÓRIA: a história questom, a história resposta. E é importante fazermos esta diferenciaçom porque na História achamos perguntas
        sem resposta -e algumhas que eu plantejarei som assim- e achamos também, sem dúvida, respostas sem pergunta. Som o que se costuma chamar «questons retóricas» ou de «catecismo», e o catecismo é um exemplo flagrante de
        respostas sem pergunta: inventa-se umha pergunta a algo para justificar como pretexto a resposta que nos perguntam.
        « … de História CONTEMPORÁNEA: limitaçom, a meu ver, esclarecedora, «História contemporánea» é o que os livros de texto chamam História
        contemporânea (2). Por algo cumpre começar, e isso quer dizer que me limitaria a falar dos dous últimos séculos grosso modo, e entre meados do século
        XVIII (ou fins) e nós: portanto dous séculos.
        História sócio-lingüístÍca da Galiza
        Umha primeira cousa a fazer seria um inventário de que história sóciolingüística da Galiza existe, o que é que há, o que se tem produzido.

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          1. Descobriríamos, em primeiro termo, que quanto a «história-narraçom» (história-resposta) -e acho que sairám algumhas soluçons, talvez já saírom(3)- fundamentalmente há dous tipos de «história-resposta», dous tipos de «história narraçom» (a que é mais ou menos institucionalizada): umha chama-se
          «História do Espanhol» (com «h» diante de «História», nom de «Espanhol») e outra diríamos que é «auto-história», «auto-crónica» «do Rexurdimento»(4). Som duas histórias típicas que respondem a perguntas que realmente, creio,
          ninguém se planteja, e é um exemplo bastante claro o «catecismo» (o qual me recorda a época em que havia catecismos e um neno perguntava ao mestr(1) Trata-se do termo grego (historía), que significava simplesmente um conhecimento adquirido por busca ou investigaçom, sem referência expressa ao passado. Com efeito, na antigüidade clássica, como conseqüência da busca da verosimilitude, procura-se umha compreensom humana dos acontecimentos restando valid,z à intervençam divina. Assim mesmo rejeitam a história concebida de modo literário e introduzem o rigor científico mercê ao confronto das fontes, o enquadramento geográfico e o estabelecimento da cronologia, com o qual
          ponhem os alicerces da erudiçol)l moderna. Porém, na Idade Média desaparece o espirita crítico na historiografia, ao se admitirem sem nengum reparo como verdadeiros factos fantásticos e mitológicos: abandona-se o en- quadramento dos acontecimentos narrados num espaço e num tempo bem definidos e debilita-se a “individualizaçom das personagens.
          (2) A tautologia é um recurso freqüente em Aracil, que contribui, pola via humorística, a incidir sobre o receptor
          no sentido de partir de zero e nom dar nunca nada por sabido.
          (3) «talvez já saíram»: refere-se ao ambiente do Congresso, neste caso às sessons anteriores ao acto. É importante
          porque reflecte umha visam de tais jornadas como umha unidade em processo ascendente. (4) «Rexurdimento» ou «Ressurgimento». Respeita-se o vocábulo utilizado na conferência, que está matizado fonicam ente a modo de cita.
          tre: «conte-me a Criaçom», pergunta absolutamente espontánea e própria do
          neno).
          2. Em troca, brilha mais pola sua ausência a «história-questionário». Eu limitarei-me a isso. E a este respeito tenho a impressom de nom se poder alegar falta de dados. Os dados existem, eu próprio espero assinalar alguns, e
          na realidade o que falta nom som os dados mas a curiosidade. O que faltou, até agora mesmo, fôrom as perguntas, até o ponto de parecer que os dados sobrem. É o que costuma acontecer nos países pobres: o limite da pobreza
          é que já lhes sobram os recursos, porque nom sabem como utilizá-los.
          Umha primeira questom global, mas que só nos serve para acedermos à matéria, seria perguntarmo-nos «QUE TEM FALADO, QUEM, NA GALIZA NA HISTÓRIA CONTEMPORÁNEA». Quer dizer, «COMO TEM
          FALADO» a gente na Galiza na História Contemporánea. Trata-se de umha pergunta muito geral que cumpriria esmiuçar, analisar. QUEM?, ONDE?, PARA QUE?, QUANDO? Cumpriria nom apenas esmiuçá-la, mas também acrescentar algumhas precisons como, por exemplo, o que é que se tem dito e se tem feito nos diferentes idiomas que se usárom. Bem, isso só nos facilita o acesso à matéria.
          As duas direcçons, os dous níveis de ínvestigaçom que, por analogia com casos semelhantes, julgo especialmente produtivos, seriam, por um lado, indagar o que chamaríamos tendências demográficas -quantitativas- e por outro lado o que chamaríamos o «multidiscursO}>. (Prefiro chamá-lo «multidiscurso» para reconhecer, desde o prefixo, que nom é simples).

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            Tendências demográficas
            Falarei de «tendências demográficas quantitativas», tendências de um certo
            volume. Que tendências tem havido na História Contemporánea na Galiza?
            Globalmente haveria umha resposta, bastante brutal, que por sua vez nos leva à pergunta. A resposta brutal e simples seria que na História Contemporánea -e o que de la fica- poderia-se dizer: a História da Galiza é a história
            de como retrocede umha língua. Mas esmiucemos: quais fôrom as tendências
            mais volumosas e mais significativas?
            1. Nom há dúvida de terem sido duas, mas principalmente umha: a <<umha» tendência foi a bilingüizaçom, isto é, a generalizaçom da competência
            num idioma que nom por açar era umha língua nacional e que foi unida a
            cousas como a alfabetízaçom. Facto curioso: quando na Galiza se plantejou
            o problema de difundir o saber de letras, nom se questionou em que idioma,
            pois os que sabiam e exerciam de letras já tinham claro em que idioma o faziam. A bjJingüizaçom dos falantes do galego, o facto de umha proporçom
            mais e mais grande da gente falante do galego ter adquirido -e nom apenas
            adquirido mas também coloquializado, e nom só coloquilizado más também
            à longa«nativizado»- o outro idioma, é sem dúvida, creio, a tendência mais
            grande da História Contemporánea da Galiza, sociolingüisticamente falando. Sem dúvida e a muita distáncia. O impressionante é que se umha pessoa
            pudesse voltar ao mundo após douscentos anos -e nom digo douscentos se8
            nom talvez cinqüenta, mas palo menos douscentos com segurança- ficaria
            abraiada ao ver que, por exemplo, o argumento típico para se dirigir em público em galego era antes o de ser o único idioma que entendia todo o mundo,
            argumento típico empregado agora para usar o castelhano. Isso é um cámbio, e a História, em parte ao menos, consiste em cámbios.
            a) Porém, essa tendência, que alguns acham tam natural e que parece imemorial, foi a minorizaçom mesma. Quer dizer, esta tendência chegou
            a um ponto no qual praticamente se extinguírom os falantes unilíngües do
            galego. (Nesta altura pode-se dizer que se extinguírom, e se nom for assim
            estám para se extinguir. Antes de desaparecerem já há muito tempo que nom
            contam! O menosprezo absoluto do falante unilíngüe do galego no seu próprio país é um dos aspectos mais sinistros e desagradáveis desta história: como foi maltratado, como foi pisado, como foi ignorado, em fim, é desagradável). E reparai bem: a desapariçom dos. falantes unilíngües do galego significa ter chegado a umha situaçom em que, na prática, todo o falante do
            galego é falante do castelhano, até tal ponto que saber galego implica saber
            castelhano, até tal ponto que a comunidade ou subcomunidade lingüística ga··
            lega é um subconjunto da castelhana: relaçom de inclnsom (e portanto é minoria, pois umha parte é sempre menor do que a totalidade). Isto é: a
            minorizaçom.
            b) Outro aspecto que me limito a assinalar é o seguinte: neste processo, por razons que vocês já imaginárom, tem sido mais forte a adesom da
            comunidade ou subcomunidade Jingüística galega à castelhana do que a coe~
            som da própria comunidade lingüística galega ou galego-portuguesa. Precisamente um fenómeno típico das situaçons minoritárias nos processos de minorizaçom é que, amiúde, a adesom a outra comunidade é mais forte do que
            a coesom da própria comunidade.
            2. É, pois, umha tendência, e agora assinalo outra que foi consecutiva
            e portanto tem um desfasamento, um «décalage», um atraso, embora seja
            também digna de ser estudada. É consecutiva: é a nnilingüizaçom. Se a bilingüizaçom fora a adquisiçom de um idioma (o castelhano neste caso), a unilingüÍzaçom foi o abandono do galego. Evidentemente ulterior, evidentemente
            posterior por razons que nom expliço. Como se produziu a unilingüizaçom?
            Como se abandonou o galego? Som questons a plantejarmos e eu, dispondo
            de mui pouco tempo, limitar-me-ei a recordar em público e aqui umha anedota, umha anedota que acho insuperável: um amigo galego que fala em galego aos seus filhos contava-me que os vizinhos galegos, lhe perguntavam:
            «E entendem-vos?» (5). Fim do chiste. O chiste nom tem apéndice, o chiste
            (5) «E entendem-vos?». Observe-se que a pergunta verificada em tais «vizinhos galegos» é tam possível formulada
            em galego como em espanhol: «i, Y os entienden?». Seria interessante experimentarem os leitores se em ambos os casos se trata do mesmo «discurso» e da mesma consciência (ou inconsciência). Poderiam-se detectar as seguintes possibilidades: a) pergunta formulada em galego por um vizinho que fala habitualmente em galego, embora nom o faga com os filhos; b) pergunta formulada em espanhol por esse mesmo indivíduo ou outro das
            mesmas características; c) pergunta formulada em espanhol por um vizinho que fala habitualmente em espanhol; d) pergunta formulada em galego por esse mesmo indivíduo ou outro das mesmas características (raro,
            mas possível). Haveria ainda mais duas possibilidades: e) pergunta formulada em galego por um vizinho que
            fala também em galego aos seus filhos, mas com um grau de notável inconsciência; f) pergunta formulada em
            espanhol por esse mesmo indivíduo ou outro das mesmas características.
            9
            acaba aqui: «E entendem-vos?». Nada mais! Poderia ser que este tipo ele gracejoJosse difícil de compreender em Portugal, pois -nom se sabe por queas crianças em Portugal nom brincam em castelhano, e cumpriria realizar um
            inquérito internacional para esclarecer este fenómeno e até que ponto a água
            do Minho a partir de umha certa altura ou baixura produz estes efeitos. Nom
            nos equivoquemos. A uniJjngüizaçom, o abandono do galego, é perfeitamente compreensível num contexto cujo esquema seria este:
            Há douscentos anos neste país havia dous idiomas, ambos os dous necessários para viver umha vida normal, e os dous; conseqüentemente, eram
            insuficientes. Era necessário o galego para a gente em geral se entender e para
            qualquer viver normalmente, e o castelhano era necessário talvez nom para
            isso, mas sim para muitas cousas. Entom, os dous eram necessários e portanto os dous eram insuficientes. Pois bem, hoje chegámos a umha situaçom na
            qual um idioma continuou a ser insuficiente e ademais chegou a ser desnecessário (o galego), mentres o outro continuou a ser necessário e ademais fixo-se
            suficiente. (O castelhano, nom é?). Mesmo um filósofo poderia detectar
            umha lógica neste sentido! Mesmo um filósofo … ajudado por um analfabeto
            insistente.
            Tais tendências podem ser detectadas, podem ser quantificadas, e a falta
            de dados censais é umha vergonha. A falta de dados censais deve-se a que
            as autoridades estatísticas desta parte do mundo pensárom com razom que
            «ojos que no ven corazón que no siente». E nisso tenhem toda a razom: como nom há estatísticas, aqui nom se tem passado nada!
            Porém, embora fosse assim, quero dizer -e darei umha pista elementarque é possível entendermos isto bastante bem. Eis o truque mais elementar:
            num momento dado os diferentes níveis de idade correspondem, «coeteris paribus», a épocas sucessivas. Há umha correlaçom brutal. Por conseqüência,
            se quigermos ter umha perspectiva diacrónica a partir de um panorama sincrónico, cumpre repararmos nos contrastres de idade. Elementar, querido Watson!. .. Justamente por isso mencionei as crianças. É o primeiro nível de idade que mencionei nesta história. Isto é, se comparávamos níveis de idade, compararíamos que se ainda há gente que nom sabe castelhano serám mais bem
            os velhos; que nom saber galego é mais bem próprio dos nenos … , etc.
            Evidentemente.
            As interferências
            Falei até aqui de umhas tendências que podem ser estudadas demograficamente -devem sê-Io-, que podem e devem ser estudadas geograficamente
            (A geografia, de facto, é sumamente interessante. Nom há dúvida de existirem desfasagens, atrasos, fortes desnivelamentos dentro da Galiza entre
            umhas zonas e outras. Nem há dúvida que estes fenómenos som significativos). Assinalarei, aliás, outro tipo de tendências para serem estudadas: as interferências. Todos sabemos que as interferências entre os dous idiomas em
            contacto fôrom enormemente unilaterais. Sabemos também que as inteferências do castelhano sobre o galego a esta altura nom som já umha infiltraçom,
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            mas umha invasom. Todos sabemos isso. Sem dúvida produziu-se num contexto. Poderíamos chamá-lo a «castrapizaçom» ou como se quiger, mas para
            umha pessoa que nisto -sou eu- tem a vantagem de nom ser galego, isso
            representa-se de umha maneira terrivelmente patética. Poderíamos dizer: qualquer cousa que for castelhano pode pasar por galego. A única condiçom é
            ser castelhano. Se nom, pode ser, por exemplo. «estrangeiro» ou português!
            Pois bem. Aqui introduziria outro ponto de investigaçom com o qual assinalo um abismo, um abismo de ignoráncia, um abismo de «incuriosidade»:
            qual é o fenómeno sociológico mais interessante que há na Galiza? Poderemo-lo
            adivinhar entre todos? Nom digo o mais interessante do mundo, mas sim o
            mais interessante da Galiza, a meu ver:
            A RAIA, A RAIA, A RAIA! (Primeiro prémio, segundo e terceiro do
            concurso, pois merece-os todos). A RAIA (6). Bem, e que cousa é «A RAIA»?
            Nom o vou descrever. No entanto recordarei, por exemplo, que as fronteiras
            tenhem a ver com o senso da realidade. Cousas fantásticas! As fronteiras som,
            na ~erdade, umha sorte de laboratório super-realista. Tenhem a ver com o
            senso da realidade, tenhem a ver com o que é, com o que nom é, com o que
            deve ser, com o que pode ser, como o que nom pode ser, com o que se vê,
            com o que nom se vê … Mas centremo-nos. Indubitavelmente a RAIA é anterior à idade contemporánea. Porém, na idade contemporánea -e precisamente
            nela- adquiriu uns caracteres inéditos e terrivelmente novos. Eu proporia
            um tipo de inquérito que ainda nom foi, ao que parece, nem concebido e que
            poderia ser maravilhosamente revelador: fazer simplesmente um inquérito dialectal, a banda e banda, a lado e lado da RAIA, a diferentes níveis de idade.
            Arrisco umha orelha -felizmente tenho duas- a que se observaria que a gente
            mais velha fala mais semelhante; os jovens mais apartado. Já nom digo porque uns «falam» português e outros «hablan» espanhol! Isso, creio, deveria-
            -se incluir no inquérito. Seria «o limite» …
            Quer dizer, que efeito fijo a RAIA? A RAIA, na realidade, é um fenómeno que assinalo como catalám, fenómeno ao qual sou singularmente sensível. A RAIA é, por um lado, um fenómeno local, que podemos estudar «in
            situ», aqui mesmo. Podemo-nos instalar e depois olharmos o que se passa,
            quanto passa, quando passa, quem passa, quem os deixa passar ou nom os
            deixa passar, por que dianho os deixa pasar, com que cara os deixa passar
            ou nom os deixa passar. .. Todos estes fenómenos podemos estudá-los «in situ» e som muito interessantes. Como argumento sociológico número 1, A
            RAIA. Isso é certo.
            Ora bem, nem todos os fenómenos som locais. Eis outro ponto mais interessante: afinal seria ridículo pensar que a RAIA separa Tui de Valença do
            Minho. Pois que separa a RAIA? Nom nos equivoquemos. A RAIA separa
            a Espanha de Portugal. E também nom separa a Galiza de PortugaL Nom.
            Nom fagamos chistes. A RAIA separa a Espanha de Portugal como o seu
            (6) Aqui, como noutros casos, conservamos a brincadeira, embora seja índice da oralidade, por contribuir a reforçar (como procedimento «tautológico») a evidência do que deveria ser óbvio.
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            nome indica ou como as suas bandeiras indicam de urnha maneira avondo
            clara. Entom, que quer isto dizer? Que quer dizer a RAIA? Que importáncia
            tivo na História Contemporánea a RAIA? Daria umha pista também: o facto
            de as fronteiras serem essencialmente filtros por definiçom, e portanto serem
            substancialmente discriminatórias (ou nom serem nada. Também pode ser que
            nom sejam nada, mas entom significa que nom som fronteiras, obviamente).
            Destarte, surgem as questons: o que é que discriminou! O que é que filtrou a RAIA? O que é que deixou passar? O que é que nom deixou passar?
            A RAIA é um fabuloso quantificador, um fabuloso discriminador. É permeável
            ou impermeável segundo de que e de quem e de como e quando se tratar. A
            RAIA é um analisador fabuloso de fenómenos sociais. Umhas cousas coamse sem ninguém o perceber, as outras detenhem-se absolutamente e nom passam em mil anos …
            Aliás, a nível dialectal de coloquiais locais eu nom sei qual seria o resultado do inquérito, pois parece nem ter sido concebido. O típico é que os mapas dialectais do português providencialmente chegam até a RAIA, os mapas
            galegos-espanhóis providencialmente chegam até a RAIA, e providencialmente
            os uns com os outros encaixam simplesmente porque a RAIA anterior é a mesma. É óbvio, ao ser a mesma encaixam, mas nom há imbricaçom. Porém um
            facto é bem sabido: a língua nacional a um lado e a outro sim coincide perfeitamente com a RAIA. Eis outra prova da providência. Com efeito, há muitas
            provas da providência. Suponho que o sabedes: umha das provas da providência é que a abertura das pálpebras coincide justamente diante dos olhos
            e nom no cogote. Pois o facto de a língua nacional espanhola e a língua nacional portuguesa terem a sua fronteira justamente na RAIA é umha das provas da providência. Isso coincide com exactitude. Nom há um pelo de diferença. Coincide com os uniformes, coincide com a moeda. Alá onde houver
            um tipo de uniforme, um tipo de moeda, um tipo de comboios, por exempIo … , isso sim coincide. Curioso!
            Nom sei se os companheiros portugueses terám reparado num fenómeno
            bem esclarecedor (7). Realmente a RAIA nom foi ainda -embora poda chegar a sê-lo- umha raia entre duas gentes. É a RAIA entre dous estados, a
            RAIA entre duas naçons, o qual é muito mais complexo. Nom se trata apenas de gente. Um estado, umha naçom, implica umha organizaçom, implica
            outras cousas, nom é? E um aspecto dessa organizaçom é o facto elementar
            de essa língua de comunicaçom modema, de comunicaçom intelectual, de comunicaçom pública … ter sido neste lado o castelhano. E foi o castelhano porque
            a gente deste país que sabia, a gente deste pais que importava, que contava,
            .estava de acordo em que fosse o castelhano, e avonda. Em troca isso nom
            foi assim em Portugal: eis a diferença que explica, diria eu, o noventa por
            cento das demais diferenças. Tam simples como isso. O povo falava mais ou
            (7) Alude, naturalmente, aos congressistas vindos de Portugal, num claro intento de amplificar a focagem mercê ao troco do ponto de vista. Tal perspectiva (a portuguesa) seria de grande interesse no Congresso, e talvez susceptível de umha análise esmiuçada.
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            menos o mesmo, mas o povo, felizmente, nom contava. O povo era feliz, o
            povo nom contava. E os outros, os que nom eram povo, ah, os que nom eram
            povo! Os que nom eram povo, alguns eram espanhóis e os outros eram portugueses, e estes contavam e contam. Contarám, mas …
            o multidiscurso
            Espero que se fale também (8) do «muItidiscurso». Do multidiscurso daria eu assim mesmo pistas muito elementares para começar a indagar. Assinalaria a existência de, polo menos, dous discursos principais:
            1. Um discurso da necessidade, por chamá-lo assim, que vai unido ao
            espalhamento da língua nacional. Curiosamente esse discurso aqui, a este lado da RAIA, vai anterior ao espalhamento do castelhano. A gente há de saber de letras em que língua? A dúvida ofen<;le! Ham-se civilizar! Cumpre pôr
            a RAIA! Em que língua falará a RAIA? ( … !) Bem, curiosamente, e felizmente, ao outro lado da RAIA também nom o questionavam. Uns e outros
            o tinham igualmente claro, salvo que nom coincidiam. Por que? Um discurso
            da necessidade de promoçom de umha língua nacional, e de resto a língua
            nacional significava o saber de letras, significava a vida moderna, significava
            as luzes, significava a comunicaçom, a discussom, etc., etc. TEM HAVIDO
            A ESTE LADO DA RAIA A PROPOSTA DE O GALEGO SER LÍNGUA
            NACIONAL? Questiono. Deixo a questom como questom. A minha impressom é que nom. Um dos fenómenos estranhos da Galiza contemporánea é
            ter chegado a pulular um certo nacionalismo galego centrado num idioma,
            o qual (idioma) nom foi concebido como língua nacional. Cousa, aliás, bastante absurda. Quer dizer, o nacionalismo galego baseava-se na língua galega, a qual (língua galega) (9) nom era concebida como língua nacional! … Ao
            que parece, o chiste continua! Um fenómeno muito estranho! Parece que continua! Umha língua que nem sequer sabem como escrever! Umha língua na
            qual é «natural» ser analfabeto, como suponho o é o Senhor Reitor da Universidade de Santiago! E nom é umha indirecta. Eu sou sociólogo: isso supom que sei certas cousas. Se nom seria um néscio, um impostor. Portanto
            é essa a minha obrigaçom: supor que o Reitor da Universidade de Santiago
            é analfabeto em galego, porque se nom eu seria incompetente.
            2. Há, pois, um discurso da necessidade, que invoca a necessidade como
            promoçom da língua nacional (aqui o castelhano unicamente, no outro lado
            o português), e há também outro que poderíamos -e deveríamos- chamar
            o discurso da boa vontade. O discurso da boa vontade é muito difícil de descrever, pois estamos tam afeitos a ele que nem caímos na conta, e como nom
            caímos na conta já nom sabemos a quem identificamos. Eu ponho por exemplo umhas palavras pronunciadas por Frédéric Mistral o 25 de Maio de 1884
            (8) Manifesta, com esta expressam, a esperança em que saiam à luz este e outros temas em sessons posteriores.
            Tem, pois, o mesmo sentido do já comentado na nota 3.
            (9) Palas passiveis valores que podam apresentar, respeitamõs as redundáncias «<idioma», «língua galega»), que escrevemos, no entanto, entre parénteses.
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            no parque de Sceaux, perto de Paris, há justamente cem anos (10), e portanto
            merece esta lembrança. Trata-se de umha frase que condensa, a meu ver, o
            discurso da boa vontade. Umha frase que vocês acharám familiar, e eu lereina em francês precisamente. E nom a traduzirei, pois justamente nom a traduzindo será como vós próprios a acharedes familiar. Ei-la:
            «Oh Franee, mere Franee,
            laisse-lui dane à ta Provence,
            à ton joli midi, la langue si douee
            dans laquelle elle étudie, ma mere.
            Et puis à notre langue
            qu'ont parlé nos aleux,
            que parlaient là-bas tes paysants et
            [tes marins,
            tes soldats et tes (. .. ),
            à notre langue de famille
            fais-lui dans tes écoles
            une petite place à côté du français».
            O discurso da boa vontade 'é, pois, um discurso ao qual estamos afeitos.
            Eu dei-vos umha mostra que suponho vos terá evocado -a quantos conhecedes este país- toneladas de papel impresso onde se diz o mesmo. E é o programa geral de todas as partes e o programa geral de todos os pontos da Galiza, etc., como vós bem sabedes. Nom é?
            Bem, e com isso acabei de assinalar pontos e questons de História Contemporánea. Espero ter sido polo menos bastante provocativo -é o meu
            dever-, e para rematar quereria fazê-lo com umha cita, um dos poucos textos polos quais se poderia dizer que alguém concebeu o galego como lingua
            nacional. E pois o texto mesmo é a mesma atitude, eu leio-vo-lo, respeitosamente, a apresento-o à vossa atençom. Trata-se de A gaita gallega tocada po10 gaiteiro, ou sea Carta de Cristus para ir de prendendo a ler, escribire falar
            ben a lengua gallega (lI). Inimaginável! Para que é apreender a ler e escrever
            a línga galega? Este homem estava louco! Em todo o caso esse homem era
            de Ponte-Vedra, tanto se estava louco como sen nom, e chamava-se Joám
            M. Pintos.
            As passagens que eu acho pertinentes som as que seguem, passagens de
            verdadeiro interesse. Lerei no meu galego (12):
            (lO) Recordamos que a ponência data de 1984. Também agradecemos à professora Maria Sánchez Seoane a sua
            ajuda na transcriçom do texto de Mistral.
            (11) Com efeito, a obra de Pintos -citada freqiientemente como A gaita gaJJega- tem por título completo A gaita
            gallega tocada po lo gaiteiro, ou sea Carta de Cristus para ir deprendendo a ler, escribir e falar ben a lengua
            gallega, e ainda mais, e foi publicada pola imprensa de <dosé y Primitivo Vilas», Pontevedra, 1853. Por diferentes razons é verdadeiramente revelador o facto de Aracil eleger esta obra, da qual Cabanillas dixera ser
            -nom por acaso- a pedra de alicerce da nossa renascença.
            (12) Citamos pola antedita ediçom, a original, o leitor veja nom só os erros, mas também as virtudes lingiiísticas de· Pintos. na pronúncia apreciam-se as variantes se (versos I, II), Galiza (v. I),
            2, quatro 3, 11, 12), galeguinhos (v. 11), Deus (v. 19), dizer (v. 19), gosto (v. 20), sem
            nem 28, 33,34), (v. 28), dec1araçons (v. 33). pobres (v. 35). Os interessados
            em cotejar o texto, podem na página
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            «Si non se imprime en Galida
            Un triste libro en gallego
            E catro farafullifias
            Se gaban de non sabelo,
            5 Poida que non tarde muito
            En andar o idioma impreso
            E que se Ue suba às barbas
            A outros que andan mui tesos.
            E aposto cento por un
            10 E mais pofia o que non tefio
            Que sicatro galleguinos
            Das catro esquinas do reino
            Se sacoden, co él abrochan
            Con patriótico empeno
            15 Po las aldeas é vilas,
            E cuiden de recollelo,
            De compolo e arrombalo,
            E facer un todo inteiro,
            Juro a Dios volvo a decire,
            20 Que ha de ser un gusto velo
            Chegar a donde chegaron
            Os outros, e en anos menos,
            E mais inda rebasalos,
            E deixalos ben arredro.
            25 E saiban os perguiza
            Que sin traballo e sin tempo
            Ninguén fixo nunca nada
            Nin se fará sin comenzo.
            E verdá que hoje non usan
            30 O n050 idioma gallego
            Para leis, nin escrituras,
            Nas oficinas, nin tempros,
            Nin pofien declarados
            Nin estenden testamentos,
            35 De maneira que a mil probes
            Lles meten gato por coello.
            Mais isto ten outro rabo
            Que enrrosca asobaUamento,
            E ten conta desfolalo
            40 E desroscalo con tempo».
            Estou perfeitamente de acordo com o autor. Muito obrigado pola vossa
            atençom» (13).
            (13) Som de grande interesse as intervençons de L1uís V. Araeil no posterior colóquio, as quais ficárom assim mesmo gravadas. mas que fiom transcrevemos aqui por nom romper a unidade estrutural da publicaçom.

  • Galician

    Que mente lúcida esta mulher, encanta-me