Por Xian Naya Sánchez
Cheio. Ateigado de gente. Nom cabia nem um mísero alfinete e mália isso, semelhava deserto. Cada um ao seu. Colhim o puxador da porta e passei sem mirar aos olhos a nengumha das pessoas presentes, coa fronte baixa. Acheguei-me ao mostrador.
– Olá! – dixem. Mas nom obtivem resposta.
Sentim medo por um momento, se calhar era um sonho que estava a viver sem me dar conta com a intensidade da realidade mesma. Em tudo caso era um sonho mui desagradável, desses dos que ansias espertar com todas as tuas forças. Intermináveis.
– Bom dia – Insintim. Adiantando a minha cabeça polo balcóm coma se fosse atleta a piques de ganhar o pódio por uns centímetros. Mas de novo indiferença –.
– Guau – Pensei para mim. – Voltaria-me invissível logo? –
Saim do local apartando à gente. Nom era um sonho (por muito de pesadelo que tivesse), isso ficara claro logo do terceiro pisotóm que berrei em siléncio. Nom gostaria parecer descortés. Já fora dessa angustiosa espiral de gente mirei para o rótulo que pendurava no alto do escaparate, nom fosse ser que confundisse o meu destino. “Ahá! Negativo!” – berrei desta vez em alto –. O sítio era esse e eu nom ia marchar sem o recado do meu pai.
Colhim de novo o puxador da porta com a mesma força coa que o cabaleiro colhe a sua espada e desembainha contra do seu inimigo. Eu gostara sempre das histórias de aventuras e de guerras, de como vingavam os heróis as injustiças que atopavam. Aos meus dez anos já recriava na minha mente a batalha do Carlo Magno com a sua Joiosa, ou o herói espanhol com a Tizona. Esse puxador ia dar-me fôlegos. Era o momento de fazer-se ver.
Entrei. Notei como algumha das pessoas se decataram da minha insisténcia, mas preferim nom apartar a mirada do mostrador e avançar coa limpa frente erguida cara o dependente. No mostrador, agora mais liberado de gente, descansavam os braços dum matrimónio novinho com um carro de bebé ao seu caróm. À minha esquerda, um senhor que bem podia ser o meu avô comentava com o dependente o partido de futebol disputado no serám do sábado.
– Cala ho! Vam e perdem com esse equipinho de segunda… e cobrando o que cobram! – Dixo o senhor da minha esquerda.
– Os que temos culpa somos nós, que seguimos vendo o partido e ainda veremos o seguinte. Tsss… Ponhé-los a trabalhar! Isso é o que lhes fai falta! – Respostou o da barra ao tempo que punha orde na vitrina.
Pugem-me nos bicos dos pés e interrompim a conversa. Pedim a dúzia de filhoas e a empada de xoubas que meus pais encargaram horas antes por telefone. Sentim-me observado. O dependente demorou uns segundos em reacionar. Notei tamém que a mulher do matrimónio da minha direita olhava para mim com a filha em braços. Os olhos bem abertos.
– Eeempanada y filloas para el señorito! Maaarchandoo!
– Podes falar-me em galego. Eu falo-o. – Dixem-lhe surprendido pola escolha que figera.
Pareceu nom lhe fazer muita graça e nom voltou a dirigir-me a palavra mais que para dizer o preço. – Diez noventa –. Nom dixem nada. Asentim com a cabeça. Os homes seguirom debatendo sobre o partido sem me despedir sequer. Virei-me cara a porta e apanhei o puxador, quase sem força desta vez, cum gesto na cara entre indignaçom e nom entender nada.
Cheguei a casa e sentamos na mesa. Aos domingos juntávamonos com a família para jantar. Eu seguia pensando no acontecido na tenda, nom conseguia entendé-lo. Quigem-lhe perguntar ao meu pai o que pensava. Papá sempre resolvia as minhas dúvidas e eu tomava a sério tudo o que dizia. Estava a ler o jornal na sua cadeira, à cabeça da mesa, como sempre fazia antes de começar a comida. Olhei o jornal e achei na notícia da portada a minha resposta: Perda de novos falantes devido à fractura da transmissom geracional. Impactou em mim cumha força brutal. Fiquei calado todo o jantar. Rematei as filhoas e saim ao parque para jogar, com o medo no corpo. Qualquer dia, sem queré-lo, poderia voltar à casa sem a minha língua.
