Por Xian Naya Sánchez
Som um menino dumha aldeia da Galiza, e chamam-me Roi. Moro numha pequena casa, junto à minha nai, meu pai, a minha irmanzinha e a pequena Lua, umha cadela que gosto de levar com o meu pai nesses longos passeios de verao.
Nom fum à escola infantil. Meus pais, podendo escolher, preferírom deixar-me com os meus avós, com os que tanto aprendim. Mas o tempo passa e já vou para fazer os 6 anos.
Meus pais apontárom-me a umha escola no centro da cidade. Vistas para o mar, cantina onde poder jantar ao meio-dia, atividades extra-escolares, um pátio imenso onde jogar nas horas de recreio… Umha jóia! Boa conta dera a Carme à minha nai: “Te es muy buena escuela, Miguelito está aprendiéndome muchísimo”.
O Miguelito (ou Miguelinho como eu gostava de lhe chamar) era filho da Carme e mais do Mário. Ele e mais os seus pais viveram sempre na nossa vila, mas havia uns anos que tiveram de ir viver à cidade por mor do trabalho de seu pai. Quando éramos vizinhos as nossas nais levavam-nos ao parque e jogávamos à bola, a índios e cowboys (muito americanos nós) ou bem andávamos à guerra com a Lua.
Minha irmá Maria já é cousa aparte. Desde que nasceu mamá leva-me menos ao parque. Já nom falemos dos dias de chuva… Aborreço essas tardes atirado no sofá da casa sem nada a fazer, e com a Maria, esses dias som habituais. Eu quero-lhe bem, abofé que sim. Quero-a com loucura, mas essas tardinhas… fam-se-me eternas! O único que me resta é jogar com a Lua, a pobre cadela, velhinha e cansa já de tanta liorta.
E digo que só me resta jogar com a Lua porque há dous anos que nasceu minha irmá. Os mesmos anos que leva o Miguelinho fora da vila. Às vezes a senhora Carme telefona à minha nai para nos fazer umha visita. Eu ponho-me mui contente de ver o meu amigo, mas também é certo que já nom é o mesmo de sempre. Eu bem sabia que na cidade faria novos colegas, que medraria e que viria menos por aqui… isso era de esperar. Mas quem me ia dizer que também lhe ia dar por falar outra língua? (Como fai a sua nai, agás quando nom há cativos diante. Já se sabe, é polo seu bem) Ou que lhe deixaria de gostar a aldeia, o parque, a bola ou jogar… com a Lua mesmo; essa cadelinha velha, feita com o passo e a dureza dos anos.
Mário, o pai do Miguel, mercara-lhe um cam novo. Bom, nom o mercara, regalara-lho um velho amigo da vila porque a sua cadela tivera cachorrinhos, e andava a reparti-los aos colegas e conhecidos.
Era um cam feitinho de todo, as cousas como som. De boa raça, grande, com umha pelagem suave e para mim, ladrador de mais (claro, acostumado à minha cadela, tam calada. Às vezes até preferiria que fosse um pouco mais rebelde, e melhor lhe iria. Tam boinha…). O que nom compreendia eu era porquê o Miguelinho já nom queria brincar nunca com Lua. Mais nada.
***
Começar a escola foi um bocado traumático. Mamá erguia-me bem cedo para chegarmos pontuais. Ademais de almoçar, tomar um duche e chegar às aulas, aguardava-me todas as manhás a minha dose de autocarro. Duas doses, pois tínhamos de fazer transbordo desde que papá tinha de levar o carro para trabalhar. Ao chegar ao colégio estava a Inês, a mestra, que nos aprendia as letras (em feminino), números, cores e o nome das cousas (das suas cousas).
Cuido que eu já sabia de mais, e transmitia todos os meus conhecimentos à pequena Maria, que nos fazia cúmplices das suas primeiras palavras : IR-MA-O (assinalando-me)…CA-DE-LA (dizia assinalando para a Lua desta vez). Mas incrivelmente nom coincidíamos de todo nas nossas “palavras”. Os outros nenos da aula olhavam para mim, estranhados, fazendo-me sentir pequeno. Mui pequeno. Cuido que o meu caro amigo sentiu o mesmo quando chegou à vila.
Daquela comecei a ver mais o Miguelinho com o seu “perro” (como adoito se lhe chamava ao “cam” na cidade), e muito menos a Lua e a Maria, que ficavam todo o dia na casa da vila com os meus avós. Foi entom que dei em falar como o meu amigo, e foi também nesses dias que me dérom a triste notícia.
Morrera a Lua. Cansa. Amargurada. Soa e velha.
