Por Ernesto Vázquez Souza
Any one may judge the labour of my hands in such a piece of work; but labour and patience carried me through that, and many other things. I only observe this in particular, to show the reason why so much of my time went away with so little work, viz., that what might be a little to be done with help and tools, was a vast labour, and required a prodigious time to do alone, and by hand. But notwithstanding this, with patience and labour, I went through many things, and, indeed, everything that my circumstances made necessary to me to do, as will appear by that follows. Daniel Defoe, Robinson Crusoe, 1719.
Os caminhos do Sul começaram com um trafego inusitado depois daquela longa invernia. Diante mesmo da casa começaram obras arreo. Dias e dias de labor. Nem se sabe que lhe dera àquela gente engraçada.
Primeiro foram alguns a passearem, ante a surpresa dos vizinhos daquelas terras já não afeitos às visitas. Logo, com mais freqüência, e já a conversarem com a gente, vieram mais, tratando de localizar os lindes velhos e enxergando as culturas locais. Aqueles tolos…
Depois vieram mais ainda, grupos soltos, trabalhos descontínuos em feriados, medições, maquinaria ligeira, mãos não afeitas a sachar nas terras e roupas de trabalho antiquadas ou coloridas de mais. Exageros que causavam risos tanto nos locais como nos vizinhos da vila que na outra beira da ponte alviscavam ao longe. Enfim, loucos virados. Mas os trabalhos continuaram, ainda o exagero das burlas nervosas e as críticas cada vez mais azedas.
Aquela tarde, também de feriado, e baixo uma rajeira que acorava, um homem, nem moço nem velho, em mangas de branca camisa e apenas defendido de exótica pucha dos Chicago Bulls, cavava seriosa e calmamente, aos poucos se detendo para enxugar a suor e botar um grolo de auga.
Terminada uma cova, passava a fazer outra. Como a quatro metros da anterior. Bem funda. A continuar mais outras que fizera noutras tardes naquele vrão. Nestes tráfegos levava já uma tempada. A gente da vila besbelhava e se perguntava pelo que pretendia com o que já semelhava um rego de covas à beira do caminho que ia da cancela da horta da casa até quase o cerre que saia à estrada na altura da pontenla velha.
— Boas tardes, — disse-lhe naquele intre dom Reinaldo, o médico novo do concelho, entanto abria, do outro lado do valo, a porta do seu rechamante e possante auto.
— Boa tarde, — respondeu-lhe o homem tirando a pucha, entanto se perguntava pelo estranho de o seu vizinho vir pela porta traseira da sua propriedade e lhe falar.
— Vostede, meu amigo — engadiu o médico em se achegando cumpridor e (outra novidade) de sorriso afetuoso montado — seique não está bom!
— E logo? Por que não hei de estar?
— Homem, nós, ainda que não tenhamos muito trato — e já raríssima confiança acrescentou entanto passava a portela entreaberta — bem que nos conhecemos. Quando meu avô já era médico cá, como depois foi meu pai, e mercou este terreio cabo desta vossa, os teus sempre trabalharam com sentido e aproveitamento, como fizeram os meus, as terras “da outra parte”. E sempre lhes deu para não trabalharem em feriados, nem os caseiros. Por isso esta novidade… este andar a trabalhar como um tolo num dia como hoje, com esta calor… e nestas partes, com todos esses furados. Pode-se saber em que anda meu vizinho tão atarefado com tanta cova?
— Ah, isto… Pois é-lhe mui doado, vou plantar no seu tempo umas nogueiras para alegrarem e marcarem como passeio o caminho da pontela até a nossa casa.
— Nogueiras! Caminho? Vostede, meu amigo, sempre foi otimista. Mas nogueiras… e a gente pensando que tinha algum projeto… — E botou-se a rir.
— Vaia, Doutor, não compreendo que tanto o faz rir.
— Pois é obvio. Antes dessas nogueiras darem fruto, quantos anos vão passar? Acredita que vai ver esse passeio florescido? A gente comenta na vila dessas teimas suas. A sério, cuide-se.
— Já faço. Já faço, obrigado. Pensei que um passeio de Nogueiras dariam jeito a este caminho. Alem do mais, é o meu tempo livre, não se preocupe, a ninguém faço mal.
— Ora essas. E para que isso, nestas partes remotas? Quantos anos pensa viver para ver esta corredoirinha cheia de árvores e feita caminho passageiro?
— Homem, já isso dos anos bem sei. Em quanto ao de remotas, que quer que lhe diga, eu tenho-lhe por certo que este caminho voltará a ser um dia o principal da casa.
— Pero que tolada é essa. Que vos deu — disse com desprezo e burla o médico — com que esse caminho vai ser o principal? O principal, da-tua-como-da-minha-casa, de sempre, é o do Leste. Uma cousa é quererdes tirar partido a estas terras e tratar com jeito na gente do Sul. Alá vós… Mas o progresso não vai por aí. E ainda que fosse… há que ter contatos cá e lá, para isso fazer. Não se pode… E vens agora com esse absurdo é conto das nogueirinhas e do caminho do Sul?
— Absurdo? E por que havia de ser absurdo um projeto? Uma idéia? Um caminho para quando a gente vaia ou volva do trabalho no Sul, agradável de sombras beira do rio, elegante e ainda com ricas nozes na tempada?
— Já vejo, já vejo –disse o Doutor torcendo a boca- eu tinha-te por homem sabido e de valia e sais-me com esses idealismos sem proveito, com esses contos sonhadores de Sulistas setários e fanáticos. Estais cegos.
— Contos? Sonhos? Fanatismos? Cegueiras? Repare. Não é certo que alguns vizinhos andam a trabalhar de novo estas terras da outra parte da ponte? É que não há mais trafego e comercio do que nunca houve por estas partes? Aquelas antigas vinhas, de novo cavadas, não se colheitam e bebem festivas logo? Não olha para o jardim com essas roseiras que dá génio vê-las?
— Parvadas, parvadas e mais parvadas. Se tanto acreditais nesse caminho —bufou entanto se batia nervosamente na coxa direita com uma edição dominical enrolada de La Voz de Galicia que tirara do peto do casaco — porque não plantais cá, já essas roseiras ou melhor ainda cravos, para receberdes a esses vizinhos do Sul que tanto admirais e lhes oferecéis as terras?
— Olhe meu amigo… O seu avô não era médico cá, quando se plantou aquela nogueira ao pé da Casa a que estas continuarão? E não bem sabe que deu fruto pontual ainda aqueles invernos irados que por ela passaram? Seica não comemos por duas gerações ainda dessas nozes? Mesmo não provou alguma vez você delas? Pois dessas eu vou plantar agora.
— Homem… Pois… Bem… vou-me ir despedindo, é-lhe-me tarde e tenho uns enfermos…
— Até, logo. E não se preocupe. Tudo chegará. O de se ter caminho, sombra e comer nozes. Mesmo as flores. O futuro faz-se acontecer. Mas agora —disse o homem enquanto lhe dava ao sacho de novo — é tempo de cavar para a sementeira.
Apêndice
A NOGUEIRA
Gravura, Castelao, Boletim Nós, 1920No cómaro de Lixandre, que está cara do levante, facía unha calor que acoraba. As raiolas semellaban fíos de ouro acesos, escentilantes,que ferían a carne con bicos de fogo.
Naquel recalmón da fonda corredoira, na que entraba a promo o sol, estaba o señor Mingos do Muíño cavando nunha cova que tiña máis de vara e media de fondo. De ves en cando suspendía o seu duro trafego e limpaba a suor da enrugada frente, volvendo de novo com mais afición ó duro traballo.
— Santas e boas tardes, — díxolle don Reinaldo, o médico do concello, que apareceu por alí dacabalo dunha besta relucente e gorda.
— Amén, señor, — contestoulle o vello Mingos descubríndose.
— ¡Vosté seique non está bon!
— ¿E logo?
— ¡Con setenta e cinco anos enriba das costas e traballando a estas horas baixo dun sol que queima!
— ¿E que lle habemos de facer, don Reinaldo? O que levou coma min toda a vida traballando non se afai a folgar. Ademais, hoxe é o dia do meu santo e quero adicalo a esta labor que fai tempo acuciaba.
— ¿E pódese saber para que é esa cova?
— Para prantar no seu tempo unha nogueira.
— ¡Unha nogueira! Vosté seique pensa vivir máis que Matusalem.
— E botouse a rire.
— Non me decataba que o que estou facendo poidera darlle risa — dixo o señor Mingos poñendo cara seria.
— Naturalmente, meu vello amigo. Ten vostede moitos anos, e ponse a prantar unha árbore que non dará froito senón cando xa non teña moas nin feitura delas con que comelas. ¿Non é cousa de se rire?
— ¡Ai, don Reinaldo! — excramou o señor Mingos como preparándose para unha longa conversa — Eu ben sei que estou moi vello e que a terra chama por min.
— ¿E daquela?
— Daquela… que, en verdade, magóame que unha persona da sabidencia súa fale desa maneira. O ben que Dios nos dá no mundo non pode lograrse sin o noso traballo. O cariño que nas almas espertan os nosos filliños, fai que traballemos algo para os fillos deles, en xusto pago do que por nós fixeron os nosos petrucios. A folganza neste caso pode ser unha cobiza, que é cousa mala inventada polo demo para matar a irmandade entre os homes. A vida, según di o crego da freguesia, é unha cadea da que os grilóns van sempre facéndose novos sin perderen o seu querendoso contauto, e traballando decote pólo melloramento de todos.
— Non falades mal, — díxolle don Reinaldo socarronamente.
— Os homes de letras, como vosté, poden dicirnos eso en toada de burla. Mais, se me dá licencia, voulle a facer unha pregunta. ¿Vosté foi quen prantou a nogueira do Souto Pequeno que lles dá anadas como en ningures se ten visto igual?
— Non; foi meu avó.
— ¿E seu avó probou as noces desa nogueira?
— Non; astra os netos non deu froito.
— Pois daquela, meu señor, xa ve que estou facendo o mesmo que seu avó fixo, e non ten por qué se rire de min. Estou traballando para que, cando eu estea morto, coman os meus netiños, no día do meu santo, as noces desta nogueira. Sin que eles se decaten estou preparándolles o regalo que despois non poderei donarlles, porque demasiado sei que eu non son Matusalem.
Don Reinaldo pideulle perdón, e foise como avergonzado da leición que o vello acababa de darlle.
E o señor Mingos volveu ó seu traballo coa fe dun apóstol que coida estar recibindo ordes do ceo.
Manoel Lugrís Freire, (A Nosa Terra, nº 2, 11 de agosto de 1907), Cito por A obra narrativa en galego de Manuel Lugrís Freire (ed. Xabier Campos Villar), Santiago : CIRP, 2000 http://www.cirp.es/pub/docs/lugris.pdf

