Elias Torres:”Grave, grave é andar ‘traduzindo’ de Portugal para o Brasil e vice-versa”



“Poli/não centrismo e unidade na construção de um intersistema integrador de comunidades de língua portuguesa. Antropologia e política” é o título da palestra do académico galego Elias José Torres Feijó na Academia das Ciências de Lisboa, dentro do ciclo “Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento”, organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa.

Faz sentido dizer português de Portugal e português do Brasil ou português de Angola? Não pode caminhar o português para ter cada vez mais variantes nacionais mas ao mesmo tempo, por causa da internet, assistir a certa padronização?
O seu sentido é identificar se há variantes que sejam úteis para alguma cousa. A algumas pessoas podem ser úteis para diferenciar-se ou afastar-se e mesmo podem acabar falando de brasileiro ou angolano. As denominações não são neutras nem neutrais (ainda que podem acabar neutralizadas), indicam interesses. O relevante é que todas as variantes se sintam incluídas no termo e no conceito “português”. A internet pode fomentar certa extensão de usos comuns, como também pode fazer aflorar variantes; dependerá da capacidade de imposição e de aceitação das/os agentes que nele atuem. O importante é não ter medo aos fluxos da língua nem às pessoas e comunidades que a usam. Há suficientes elementos, organizacionais e institucionais, que garantem a sua unidade. A partir de aí, a língua são oceanos onde toda a gente deve sentir o prazer de navegar. Sem patrões! Atenção: sem donos!

A polémica sobre o Acordo Ortográfico faz sentido para si? O Diário de Notícias, que tem mais de século e meio, já seguiu vários acordos. Nas edições mais antigas, por exemplo, existe “Pharmacia”.
Pois é! E, mesmo assim, com uma ortografia bem distante e, em caso, caótica, como é sabido, a intelectualidade galeguista dos século XIX e XX, de Manuel Murguia a Daniel Castelao, reconhecia nela a unidade linguística! Cito um provérbio da minha terra: “melhor um mal acordo que um bom preito”. Eu, galego, numa situação sociolinguística tão precária para o galego, nome que dou à língua que no mundo se conhece como português e, por razão do ofício, um pouco conhecedor do mundo de língua portuguesa, não entro já a discutir as soluções propostas nem, mesmo, as ambiguidades. Quero acordos. Num par de gerações, ninguém se irá lembrar disto; o grave é funcionar com a crença de sentir-se donos da língua. Grave, grave é andar “traduzindo” de Portugal para o Brasil e vice-versa. “Traduzem” do português para o português: vergonha para as políticas da língua. É tudo irresponsável para alguns ganharem à custa deste despropósito.

Até que ponto português e galego são a mesma língua ou já duas línguas diferentes?
E o português do Maranhão? E o da Madeira? Não é o mesmo? Galegamente, respondo: “depende”; entre outras cousas do parâmetro, da perspetiva, da vontade. Entendem-se as pessoas a falarem desde os usos próprios de cada variante? Eis uma língua comum na sua bela variedade. Para mim, o galego é (apesar da sua castelhanização), como conjunto, uma variante do que no mundo conhecemos como português, com traços, por exemplo, comuns ainda com áreas rurais e diferentes do português do eixo Coimbra-Lisboa que vingou… Não há que sair de Portugal para ler páginas e páginas da riqueza da língua comum que evidencia esse continuum, de Aquilino ou de Camilo, de Manuel Ribeiro a Alves Redol. Só que, nos últimos 40 anos, foi imposta, invocando falas populares, praticidade para uma comunidade apenas alfabetizada em espanhol (como todos os escritores e escritoras da contemporaneidade e que, apesar de tudo, viram sempre no português a forma de melhorar o seu galego!) uma norma escrita e uns usos orais que o afastam dessa unidade, com uma ortografia e, em boa medida, morfologia e escolhas léxicas, que o afastam do tronco comum. Mas, a pouco que se raspar com escalpelo amável, aí vem o galego genuíno com toda a sua plenitude galego/portuguesa E apesar da marginalização das propostas reintegracionistas (de defesa da unidade normativa com o mundo de língua portuguesa) estas têm mais vigor do que nunca antes, com muitas entidades populares e transversais e de promoção relevantes (Associação de Estudos Galegos, Associaçom Galega da Língua) ou técnico-científicas (caso da Academia Galega da Língua Portuguesa, reconhecida como observadora na CPLP); e produção científica e escritoras/es com grande reconhecimento, desde os saudosos Guerra da Cal ou Carvalho Calero até a atualidade que representam Moure, Quiroga, Vaqueiro, Sánches Arins, Taibo, Sende ou Herrero, para dar apenas alguns nomes.

E o português do Maranhão? E o da Madeira? Não é o mesmo? Galegamente, respondo: “depende”; entre outras cousas do parâmetro, da perspetiva, da vontade. Entendem-se as pessoas a falarem desde os usos próprios de cada variante? Eis uma língua comum na sua bela variedade.

Na sua experiência de Espanha, como se dá a coexistência de várias línguas? Há bilíngues perfeitos, por exemplo, de galego e espanhol?
Há pessoas bilingues perfeitas, à força não como expressão de livre vontade, que sempre são as da Galiza, as da Catalunha… ou… Vai ser-lhe difícil encontrar casos similares noutros territórios… O que não há é possibilidades de praticar esse bilinguismo de modo equitativo porque a sobreposição do espanhol é esmagadora: nunca tão poucos falantes teve a nossa língua na Galiza como na atualidade… O conflito sempre inclina o barco contra o débil. E o galego é o débil, até nas leis.

Como pode o português ser uma língua de dimensão internacional indo além da questão do simples número de falantes?
Fazendo política e abandonando a ínfula dos números (se quiserem, lembrem que a ONU calcula que, em 30 ou 40 anos, pode haver mais utentes de português na África que no Brasil). Fazendo do português um aliado do conhecimento e do respeito das diversas comunidades nacionais que convivem, com as suas línguas e culturas, no mesmo espaço social. Despregando uma política académica de estudo das diversas realidades das comunidades de língua portuguesa. Trabalhando, conjuntamente, em programas de conhecimento e divulgação exterior. Ou evitando essa prática de traduções a que me referia. Se o português, na sua difusão, se converter em portador de defesa e promoção de direitos humanos, de boas práticas sociais e ambientais, se se colocar na vanguarda de alianças entre comunidades e na atenção aos graves problemas da Humanidade e dos seres vivos, o português será crescentemente a língua amável e integradora que desejamos.

Como imagina as sociedades do futuro? Cada vez mais plurilíngues ou o domínio global do inglês ameaça as outras línguas em campos como a produção científica?
O inglês já é a língua da produção científica, embora não exclusiva. Já está. A questão é como se dá a conhecer cousas e saberes às pessoas; e o papel das línguas aí. Se medirmos pelas tendências atuais, o inglês avança como língua (do) comum; mas também avança a tradução automática que pode minorar muito esse progresso; e, mesmo, integrar outras línguas de raiz não indoeuropeia no mundo ocidental… Acho que uma maior consciência ecológica e de travar a deterioração das condições de vida dos seres vivos, fará virar olhos também para a manutenção do que é íntimo e próprio, integrado, sem maior conflito, em âmbitos comunicacionais mais alargados. Por caso, eu defendo, em termos linguísticos, um investimento forte na recuperação e posta em valor de todo o nosso galego genuíno, como possibilidade e oferta dentro do mundo de língua portuguesa, que é a sua garantia de sobrevivência. E, quando aqueles âmbitos demandarem usos linguísticos determinados polos objetivos de comunicação, haverá fórmulas. Eu não falo praticamente nenhuma das línguas que há no mundo e, no entanto, aspiro a comunicar-me de algum modo com os seus utentes. Por tradução, sinais ou estudo. Mas, à partida, cante cada qual na sua língua, que já tentaremos apanhar a comunicação e a beleza pelos meios que à mão tivermos.

[Esta entrevista foi realizada por Leonídio Paulo Ferreira e publicada no Diário de Notícias]


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