Por Ernesto Vázquez Souza
E tal como o vinho deve se conservar num odre, eis que a Torah deve estar contida numa veste externa. A veste é feita dos contos e histórias; mas nós devemos penetrar além da tona. Gershom Scholem, Zohar.
É curioso, para não dizer outra cousa, que a justa distância entre uma descrição positiva e no fundo admirativa (como a de Aznar) e um uso pejorativo e insultante (como o de Rosa Díez) da mesma condição para descrever um próximo seja nenhuma. Ou talvez e simplesmente toda: a que carga a condição de alheio e se contêm na condição de “outridade”.
Ser galego, sendo cidadão de um Estado como o espanhol onde não chega “ter” passaporte seica para o “ser”, tem o seu aquele. Não podes ser chamado de estrangeiro (com o alívio mental que isso significa para o que nos interpreta) e também se torna difícil reagir (se botando de fora) quando os principais do país levam calcando, pagando, sangrando e levantando talvez mais que ninguém a mesma terra desde a noite dos tempos e antes que nenhuma outra nação, condição, povo ou forma de estado existir.
Mas é cousa que por aí longe, também os galegos sofrem de erros de etiquetagem por causa desse passaporte espanhol. Eles e as novas gerações diluem-se matizados pela cultura, educação e sociedade adotiva, mas é o ser familiar galego e herdo (o que os ajuda a sobreviver e se adaptar) o mesmo que os caracteriza e referencia persistindo portanto essa forçada e impossível identificação com o passaporte e olé.
Quando a construção de um Estado não se foca no funcionamento de uma estrutura para serviço dos seus cidadãos e não referencia a condição pelo simples passaporte, mas sim no difuso produto de uma máquina ideológica de unificação – gerida parece pela Inquisição – termina a realidade inteira por se converter num Campo de concentração onde os marcados como aptos familiares cuidam e vigiam os marcados como não aptos.
E a questão com os galegos é que são dos difíceis de submeter porque sendo como somos um povo esperto, muito experiente, subtil e diplomático, treinado para ouvir e falar pensando no interlocutor, sabemos que a identidade, no fundo são os outros e temos claro que o dominador, ao contrário do que nós, mais efetivos nisso de chegar a acordos proveitosos, não tenta convencer-nos, apenas de exterminar tudo (o que acha outro) para vencer.
E portanto e dado o nosso cepticismo, e que não nos vão convencer, está provado que é melhor que achem que nos convencem, que quando menos deste jeito evitamos que entendam que perdem o tempo e se mais sulfurem o mais normal é praticar o dissimulo e uma prática abstenção; e entanto se aguarda por que escampe, por uma tornavolta da vida ou da história.
Porque por muito que pareça que tão afeitos estão os galegos que apagaram toda a ideia de liberdade ou de projeto coletivo, no interior e quanto mais desassistido e longe do Estado vampírico e das suas instituições parasitas, por muito que se debilitem e engrunhem, habita sempre uma força (uma semente de vida e ressurreição que diria Otero Pedrayo) individual, cousa do herdo celta
Certo que o prioritário é sobreviver ao Campo de extermínio e nisso cada quem tem a sua estratégia ou acaso. E tirando os que se evadiram do Ruedo ibérico, e por muito que haja que baixar a cabeça a quem manda, há quem resista, quem conspire, quem se refugie no saber e ditos dos seus maiores, quem passe a vida num choro, quem reze, quem cultive uma intensa vida interior, quem faça poesia, quem fale para os seus netos, quem se limite a ir morrendo entanto se levanta cada manhã, quem se torne zumbi, quem se anule em drogas, quem vai passando e quem vai murchando. Mesmo há quem consiga fazer negócio e ainda os que adoitam dar a razão e mesmo se disfarçarem com todos os requerimentos e emblemas dos aptos, seja nos gabinetes revisado as estatísticas ou confirmando as legalidades, seja a pé de obra com a mão na moca malhando ou na válvula do gás.
