Duplos ponteiros

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Por José Ramom Pichel Campos

Nas linguagens de programação, essas linguagens perto dos humanos que servem para dizer-lhe aos computadores o que queremos que fagam, existem em muitos casos o que se chama tipos de dados.

Imaginemos a memória dum computador como uma série de caixas de sapatos em fila que cada uma guarda um tipo diferente de sapatos. A tipologia de sapatos será em função de cores, de tamanhos, de homem ou de mulher, do número, de se são para o frio ou o calor, de se são para ir à praia ou para ir à montanha, de se valem para os passeios ou para correr.

O mesmo ocorre com os computadores e a sua memória. Existem celas-caixas-de-sapato que mantêm diferentes tipos de dados que podem ser números inteiros, números reais, também caracteres, até conjuntos de caracteres também conhecidos como cadeias de carateres, dados lógicos (verdadeiros ou falsos) e depois já mais tipos de dados complexos como são os arranjos ou vetores, as matrizes de dados, árvores, grafos, ou um dos tipos de dados mais complexos, fascinantes e ao mesmo tempo potentes: os ponteiros.

Os ponteiros são dados que não armazenam dado nenhum, mas endereços de memória, daí o seu nome, apontam a outro lugar. Continuemos com o símil da caixa de sapatos. Se em vez de termos um sapato dentro dela tivéssemos um número que representa uma outra caixa onde estão o sapato, isso é um ponteiro. Isto podemos fazê-lo tão complexo como queiramos ou precisemos. Por exemplo se temos uma caixa que quando a abrimos contém o número 8 e vamos para a caixa 8 e de novo encontramos não um sapato dentro mas outro número como o 3, e vamos à caixa 3 e lá sim que encontramos um sapato, isso é o que se chama um ponteiro duplo.

Isto é o que acontece um bocado com os pensamentos. Desde meninhos estamos afeitos a escutar na nossa cabeça as nossas vozes que aprovam ou rechaçam todas as situações da vida nas que estamos, têm tanto poder que até acreditamos que realmente isso somos nós, ou seja que os nossos pensamentos são o que nos governam. Mas nós somos outra cousa. Isto comprovámo-lo quando vemos o mar e ficamos extasiados com ele, estamos muito atentos, temos calma e os pensamentos nem rechaçam nem aprovam, simplesmente estamos ali.

Os pensamentos apontam a outros e assim sucessivamente, desaparecem às vezes, outra vez demoram e geram sentimentos, e assim vai o nosso andar e a nossa vida, com ponteiros na memória. Só deixando que fluam e sem acreditar demasiado neles, sem que ordenem muito, é que tudo fai sentido.


(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.