Diego Sande: “Escrever em galego produção científica é uma tarefa quase utópica”



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Fotografia: Jose A. Morandeira

Diego Sande é neofalante e tem saudades da sua estadia no Porto (não admira!). Professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da USC descreve um uso marginal da nossa língua entre as turmas. No IGADI é membro do conselho editorial da revista Tempo Exterior e futuro membro da direção. Julga ser preciso tirar sinergias com a língua portuguesa.

Diego é neo-falante, essa maravilhosa raça de pessoas que rasgam o guião. Como foi o processo? E as alianças e as resistências?
Bom dia. No meu caso o processo de mudança teve lugar há cerca de quinze anos e foi uma evolução natural ligada à maturidade pessoal. A consciência da realidade da situação do galego como língua minoritária levou à necessidade de tomar uma posição, uma vez que a neutralidade favoreceria o estatuto de linguagem minoritária do galego. Além disso, com o passar dos anos descobri que o galego era a língua das minhas emoções na esfera pessoal e familiar.

Mas neste processo houve resistência externa, uma vez que se nota como, surpreendentemente, para algumas pessoas a percepção social, económica e até intelectual que têm do falante em galego é diferente (para pior) do que a do falante de espanhol.

Dado que achavas existir uma ligação entre galego e português, estudaste um ano em Portugal. Que lembras dessa estadia? Em que medida foi importante na forma de veres e viveres o galego?
Sempre pensei que a Galiza e o Norte de Portugal têm uma relação muito especial e estreita que não tem sido devidamente explorada ao longo do tempo.

O facto de viver numa realidade linguística irmã permitiu-me tomar consciência da minha própria realidade galega, ao mesmo tempo que me permitiu ver que há muitas mais coisas que nos unem com Portugal do que aquelas que nos separam. Além disso, os amigos que fiz ali foram um presente para toda a vida.

Recomendo a experiência a qualquer pessoa que esteja interessada.

Por vezes tenho saudades!

Partindo da base de não haver soluções mágicas, que mudança de perspectiva deveria haver para mudar o estado de cousas?
Na minha opinião a mudança de perspectiva deve ser baseada em, pelo menos, dois eixos:

– Por um lado, do ponto de vista normativo. Neste sentido, a recente aprovação da Lei de Acción Exterior e da iniciativa Paz Andrade seria um ponto de partida para o aprofundamento das relações com a Lusofonia. No entanto, os textos jurídicos sem desenvolvimento regulamentar subsequente e sem a utilização de recursos financeiros tendem a permanecer meras declarações de intenções. Creio que é necessário permanecer atento às acções pendentes, uma tarefa que, entre outras, levamos a cabo no IGADI (Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional).

-Por outro lado, creio que é necessário promover a mudança a nível social no que respeita à percepção e implicações positivas de laços mais estreitos com os nossos vizinhos. Isto implica necessariamente o desenvolvimento de políticas de educação e comunicação social que tenham um impacto sobre estes aspectos, a fim de tomar medidas na direcção desejada.

Os textos jurídicos sem desenvolvimento regulamentar subsequente e sem a utilização de recursos financeiros tendem a permanecer meras declarações de intenções.

Diego é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da USC. Qual a fotografia linguística das tuas turmas? Quais as atitudes?
A minha experiência é que a presença de galego continua a ser quase episódica em alguns níveis e áreas educacionais, tanto no ensino secundário (ESO, bacharelato e formação profissional média,…) como no ensino superior (formação profissional superior, universidade…). A este respeito, acredito que os dados são muitas vezes mal utilizados a nível educacional para tentar justificar a existência de uma igualdade que não existe.

Para além disso, os estudos mostram que a utilização do galego é ainda mais fraca em contextos urbanos, com maior acessibilidade a outros meios, comunicação e informação (EOI, espectáculos, etc.).

Quanto à presença do português na educação, esta é uma tarefa que historicamente tem estado inacabada. É uma pena que se tenham perdido décadas a este respeito….

A atitude mais comum é que, excepto para algumas pessoas conscienciosas, a maioria não demonstra um grande interesse nos aspectos linguísticos, o que é realmente significativo de que algo não esta a ser feito correctamente, bem como sobre a desvalorização dos indivíduos da sua própria língua.

Diego faz parte de organizações culturais, como o IGADI ou Desconcierto Cultural (no campo musical) e escreve em vários meios galegos. Há quem pense que escrever na Galiza, em galego, é uma tarefa ciclópica. É o teu caso?
Escrever em galego acaba por ser uma tarefa titânica e corajosa, e no caso da produção científica, acaba por ser quase utópica. Os mercados são menos amplos, a quantidade de editores e meios de comunicação disponíveis é também mais pequeno, e o impacto das obras acaba por ser muito menor (o que não significa que a sua qualidade não seja boa).

Escrever em galego acaba por ser uma tarefa titânica e corajosa, e no caso da produção científica, acaba por ser quase utópica.

Além disso, os dados dizem-nos que as pessoas mal lêem galego, o que é extremamente grave para o desenvolvimento cultural. Por outras palavras, na situação actual o reconhecimento por escrever em galego é quase nulo, e em alguns casos limita as oportunidades profissionais. Um drama, na verdade. Mesmo assim, recomendo a todos aqueles que ainda não o fizeram, que corram o risco de escrever em galego.

Porque te tornaste sócio da Agal e que esperas do trabalho da associação?
No contexto descrito, penso que organizações como a AGAL são necessárias. Por isso, espero contribuir para tomar as medidas necessárias para começar a inverter a situação actual da língua galega. Em suma, espero poder acrescentar o meu grão de areia neste processo.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?
Felizmente, o oficialismo trouxe melhorias à situação anteriormente existente. A aprovação do Estatuto de Autonomia marcou um ponto de viragem na normalização da língua galega. A Lei Paz Andrare poderia ser mais um passo em frente em termos de relações externas da língua. Teremos de ver como se desenvolve…

No entanto, um período de 40 anos é suficientemente longo para levar a cabo uma revisão minuciosa das realizações e aspectos a alcançar. E embora seja verdade que algumas conquistas foram alcançadas, é necessário tomar outras medidas para consolidar a língua.

E embora seja verdade que algumas conquistas foram alcançadas, é necessário tomar outras medidas para consolidar a língua.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?
Com uma presença mais consolidada e normalizada do galego em zonas e áreas onde ainda não está presente. Além disso, seriam certamente necessárias reformas regulamentares (no sistema educativo, etc.) neste sentido.

E, claro, tirando partido das sinergias com a língua portuguesa, tão esquecidas nas últimas décadas…

Conhecendo Diego Sande:

Um sítio web: O da Agal, claro!

Um invento: O tradutor online, lol!

Uma música: Todas! Em galego Quen puidera namorala por Amancio Prada. Em português de Portugal Nasce Selvagem dos Resisténcia, e em português do Brasil qualquer uma de Caetano Veloso

Um livro: Há tantos bons…gosto da ironia e da inteligência de Eça de Queiroz. A ilustre casa de Ramires, por exemplo.

Um facto histórico: A melhor parte da história é a que ainda tem de ser escrita

Um prato na mesa: O bacalhau à moda da casa que fazem no A-Ver-o Mar da Vila do Conde

Um desporto: Basquetebol

Um filme: So um? O que arde de Olivier Laxe. Mais agora tenho vontade de ver Jacinto de Javi Camino

Uma maravilha: O amor

Além de galego/a: Cidadão do mundo

Valentim Fagim


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