Uma das cousas que mais bota em falta um emigrante é o contato, a proximidade e trato com gentes galegas. A saudade e o remorso de não estar são intensas e não soluciona muito a frenética agenda alcoólico-gastronómica de poucos dias nas férias. O que importa é o dia a dia, a confiança, o poder estar aí, com as amizades, o gastar um tempo improvisando ficando todos a vontade.
A gargalhada e o riso, a conversa pausada e medida mas rápida com outro natural do país volve-se um sonho para os que nos andamos fora. E se uma conversa com qualquer galego é como bálsamo na nossa língua e cérebro irritado; quando por acaso topamos “um dos nossos” é como uma festa.
Paulino Pedret Casado, deixou escrito um belo livro em homenagem aos amigos dos que mais aprendera. Intitulou Mis Maestros gratuítos (Santiago, 1957) e nele explicava que na vida tivera a fortuna de ir encontrando nas gentes mais diversas saberes, comentários, razões, conselhos, doutrina e livros. Considerava-se o sábio erudito um homem afortunado por ter encontrado tantos mestres que nunca nada lhe pediram a câmbio de tanto.
Ramón Otero Pedrayo, outra das grandes eminências e potências eruditas da Galiza, escreveu um emocionante livro, também dedicado aos amigos defuntos: “O libro dos amigos” (Buenos Aires : Ed. Galicia del Centro Gallego, [1953]). Nele em sucessão de décadas juntam-se amigos e mestres: as grandes figuras dizimadas do galeguismo, as gentes do rural de Trasalba, os tipos ourensãos, de Compostela e as gentes mais diversas do Madrid de estudantes pensionistas e Ateneu.
Eu tenho a imensa sorte também de ter ido topando gente galega pelo mundo, dessa da que tanto se aprende; com uns compartilhei no que me foi possível e as distâncias ideológicas ou políticas não afastaram, projetos, atividades culturais, reivindicações, conversas. A língua, a nação, a história, o progresso político, económico, social da Galiza ocuparam sempre as horas e se por vezes não podiam ser centrais foram marginais.
Entre 2012 e 13, anos duros para mim, teve a sorte de poder combinar, senão semanalmente sim a cada 15 dias com o Joám Paz. José Ramom Pichel e João Aveledo forneceram-me o seu contato e, cousas da vida, resultou morarmos quase no mesmo bairro, a quatro pequenas ruas de distância. Uma dele e três minhas e coincidíamos num café com um café decente, da Plaza Caño Argales.
Após os primeiros contatos, tomar café e conversar umas duas horas por sessão, e sempre que a sua saúde lho permitia, tornou-se um desses rituais que tanto se agradecem.
Conversa galega ininterrompida desde aquela, lenta na aproximação e rápida na respostas, socrática e medida, retranqueira, cética, ironista. História, cultura, política, ciência, economia e sociedade, estratégia e tática; um pontinho de anglofilia cosmopolita… Íamos repassando gentes e amizades comuns, projetos, anedotas, textos engraçados e polémicos; marcos, clãs, a história do reintegracionismo, os presentes e os futuros.
Baralhandos com os castelhanos era-nos comum o estupor com o funcionamento complexo da administração espanhola, na que os galegos nos movimentamo como criaturas anfíbias resolvendo casos, para depois esperpentizar na conversa.
A saudade era reinterpretada como qualquer outra doença, com o estoicismo familiar e a mente ágil e deslumbrante do militante comunista, do científico ateu e da pessoa generosa que não dava quartel aos poderes estabelecidos. Com poucas pessoas me senti eu mais a vontade. Risos, e comentários fulgurantes, profundas reflexões, bons conselhos, discrepâncias mínimas sempre condicionadas pelo pragmatismo, retranca e disputa de quem pagava cada ronda de cafés.
Acenos simples, breves gestos, palavras e palavras. Nada se deve, nem se deixa a dever, humildade exemplar do operário desconhecido que vai forjando uma pátria, códigos antigos de uso e trato, pensamento de revolucionários. O futuro sempre aí dos pessimistas.
– Até mais…
– Vemo-nos… se é possível.
Uma das minhas maiores tristuras de emigrante foi perdê-lo quando voltou para a sua querida terra ártabra, mas que grande alegria saber que ia passar os últimos anos com os seus, na Terra. Por amigos comuns, pelos correios ou pelos pequenos diálogos e polémicas no twitter, pelos protestos no PGL por publicarmos magia e rançadas, ia sabendo dele, cheio de energia combativa.
Surpreendeu-me o seu passamento, não por inesperado, mas pela dor intensa e pela ausência ferinte. Ironista até o final deslumbra o gesto da data. Vejo-o sorrir sarcástico, convocando-nos, e com os olhos a brilhar inteligentes. Mas desta vez sim foi adeus, definitivo.
Não cumprirei o ritual da visita devida em Ferrol. Mas tomarei café no largo, neste outono, e quando veja a fonte com que os galegos dotaram de agua Valhadolid, escapar-me-á qualquer sorriso turbo que ninguém no meu rádio arredor poderá interpretar.
Que a Nossa-Terra-que-não-e-nossa, alguma dia verdadeiramente Nossa como tu querias, che seja leve, camarada.

