Despois



fig_3_prologo-album-nos-768x952Uma das imagens mais presentes destes últimos meses, quente, por dizer, na retina é a do modelo reativo clássico espanhol para confrontar crises.

Para além da sensação continuada de chafalhada, improvisação, frivolidade e esperpento, destaca o que poderíamos salientar como verdadeiramente estrutural: a incapacidade para coordenar uma resposta e reorganizar os recursos com agilidade para atender uma mudança radical de cenários ou situação; a pouca definição ou reparto fixado de competências do modelo autonómico-centralista e o absurdo peso específico que ocupa Madrid, as suas particularidades e problemáticas concretas.

Poderíamos dizer que após quase 45 anos de desenvolvimento e ante uma grande crise global o sistema espanhol faz água justo por onde era evidente que ia fazer. Quem contava com que, na realidade, a organização territorial e de competências não estava bem definida, e era como tanta outra cousa, um esquema no papel interpretável que não estava verdadeira e completamente desenvolvido.

Quem ia pensar que o país pararia quando a Capital sobredimensionada e da que querem tudo fazer depender colapsasse. E era visto: fosse invasão estrangeira, peste, colapso económico, crise habitacional ou catástrofe natural, aquilo não dava. Tocou peste. Mais que advertidos estavam.

E quem ia pensar que a justiça, com os seus juízes e fiscais, mais ocupados nestes últimos anos em reprimir independentismos, separatismos, terrorismos imaginários, titeriteiros, trovadores e protestos contra a coroa que outra cousa, não ia poder dar soluções, por ausência de definição no corpus legal e jurisprudência, aos choques e interferências entre administrações e conflitos de competências.

E quem contava com que o modelo económico e social de concentração urbana mal planificada e especulação de tijolo, turismo, serviços, álcool barato e vida social arredor, combinado com os recortes educativos, sanitários, culturais, de transporte público e os efeitos da crise; o obrigado viver ao dia, aforro impossível, precarização e progressivo liquidamento de uma classe média que começava a aparecer, eram umas práticas de risco promovidas e uma imprudência coletiva potenciada.

E quem contava com que o modelo económico e social de concentração urbana mal planificada e especulação de tijolo, turismo, serviços, álcool barato e vida social arredor, combinado com os recortes educativos, sanitários, culturais, de transporte público e os efeitos da crise; o obrigado viver ao dia, aforro impossível, precarização e progressivo liquidamento de uma classe média que começava a aparecer, eram umas práticas de risco promovidas e uma imprudência coletiva potenciada.

Mas qual a novidade? apenas a urgência. As pressas nunca foram boas e o problema não é de hoje. Foi se amoreando por baixo do tapete. E quem não corre à pingueira, já sabemos que perde e chora a casa inteira.

As duas forças elementares e contrárias que chocam hoje estão ab ovo e – aqui permitam a ironia- às más já na redação da Constituição atual e gizam a proposta autonómica. Essas forças em conflito não permitiram que o modelo terminasse de se completar, senão apenas parcialmente, irregular e no passo do tempo definido pelas competências que cada território tem disputado e rabunhado do poder Central.

Diríamos que o modelo espanhol se define a contrário entre essas duas forças: como não federal (que é o que uma importante parte tem como meta e na cabeça), mas não completamente centralista (que é que pelo que a maioria jacobina trabalha, deseja e aspira como final).

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O triste é que isto tudo é mal velho. Resulta inconcebível como a partir da segunda década do século XIX Espanha arrasta um problema territorial e nacional crónico, em boa medida derivado de ter escolhido o modelo centralista, homogeneizador e jacobino dos perdedores de Waterloo e não o modelo descentralizado, consuetudinário, conservador e tributário dos vencedores, tanto na Península como nos campos da Europa.

O triste é que isto tudo é mal velho. Resulta inconcebível como a partir da segunda década do século XIX Espanha arrasta um problema territorial e nacional crónico, em boa medida derivado de ter escolhido o modelo centralista, homogeneizador e jacobino dos perdedores de Waterloo e não o modelo descentralizado, consuetudinário, conservador e tributário dos vencedores, tanto na Península como nos campos da Europa.

O peso do setor afrancesado entre os liberais e as tendências centralistas já presentes desde o Conde Duque de Olivares e reforçadas pelos Borbões, explicam bastante o modelo de Cádis até hoje.

Porém explicam também a oposição, resistências e levantamentos galegos. Cujos liberais e progressistas, mas também os conservadores e reacionários, de sempre, miram mais, desde o espelho sito na Torre de Hércules, às brumosas ilhas ao Norte. E por interesses portuários, comerciais e industrias, por organização territorial, negam-se a ser periferia e uma e outra vez protestam para que a Galiza se administre e governe, segundo as suas necessidades e tesouro e o fisco seja local e galego e não central.

Dos liberais massacrados no 13 e depois no 24, até os defensores do Estatuto galego de 1936, passando pelos Provincialistas (em destaque), pelos Regionalistas (de Murguia a Branhas) e claramente de novo nas Irmandades da Fala no seu famoso manifesto, existe um continuum de programa económico, político territorial, internacional, atlântico, central num espaço geoestratégico e comercial tão castelhano como português.

A reivindicação da hora galega, dos portos francos e da centralidade da Galiza no sistema das grandes autovias marítimas, da propriedade e da terra, das comunicações (grandes vias e ferro-carris) com Portugal e com a costa cantábrica, reorganização do agro, exploração florestal, da organização do território em esquemas administrativos de província única e poder para as paróquias, organizadas em comarcas. Junte-se a isso, soberania estética com competências urbanísticas e patrimoniais, um modelo de sociedade progressista e igualitário e soberania para a organização da função pública e da educação.

A reivindicação da hora galega, dos portos francos e da centralidade da Galiza no sistema das grandes autovias marítimas, da propriedade e da terra, das comunicações (grandes vias e ferro-carris) com Portugal e com a costa cantábrica, reorganização do agro, exploração florestal, da organização do território em esquemas administrativos de província única e poder para as paróquias, organizadas em comarcas. Junte-se a isso, soberania estética com competências urbanísticas e patrimoniais, um modelo de sociedade progressista e igualitário e soberania para a organização da função pública e da educação.

Não está de mais uma vista de olhos na documentação, bandos e contrabandos arredor da Junta soberana de 1808-a1813, das Proclamas e propostas da Junta revolucionária de 1846, da agitada imprensa arredor de 1856 e 1868, do projeto de Constituição para o futuro estado galego de 1883, dos manifestos e discursos solidários de 1907, do Manifesto de Lugo de 1918, e dos diversos textos e manifestos de propaganda que resumiam os principais pontos do Estatuto de 1936.

Retirando alguns poucos elementos anacrónicos e retóricos podemos encontrar um programa de propostas, administrativas, territoriais, económicas e reivindicações políticas, de relacionamento entre iguais com Castela e com Portugal, não apenas perfeitamente vigentes quanto que mui claramente formuladas e até com palavras de ordem perfeitamente atuais.

***

Despois que este andaço passar, o mais provável é que nos metamos numa dinâmica repetida de loucos anos 20. Numa explosão de festa, vida, relações, fantasia, projetos, iniciativas, apostas fortes e reativação económica. Será um momento, bem logo, se nada mudar, os problemas estruturais e os perigos continuarão aí. Por igual que continuará, a cada vez mais acessível, todo o corpus de textos antes ditos que definem um continuum, não apenas de protesto e lamentação quanto de alternativa e direito não prescrito.

Como na primeira lâmina do Álbum Nós de Castelao. Essa é a imagem presente de dança macabra e de proposta de vida. Constatação de morte e de caminhos fechados, mas também um prólogo de esperança germinal e levantada para um outro modelo alternativo. O ronsel está aí para consultarmos, estudarmos, definirmos, desenharmos e organizarmos um Estado Galego.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

(Crunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; entre 2016 e 2019 foi Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • Joám Lopes Facal

    Eloquente discurso regeneracionista, Ernesto; haverá inteligência e coragem política suficientes para articular a ampla mobilizaçom social necessária?
    Em todo o caso, o frágil filho da morte acabará marcando o seu roteiro próprio por caminhos ainda imprevisíveis. A nós toca-nos a ansiedade.

    • Ernesto Vazquez Souza

      É o típico reintegracionismo de samhaim, trick or treat, bom para acompanharmos com castanhas, vinho novo, lambetadas, histórias e gargalhadas de lareira.

      Cousas que nos vêm à cabeça depois de andarmos pelos mundos feéricos fazendo as viagens que a data marca… Repara que essa criança, por seguir no esquema de leixa-pren e piadas de defuntos com morte e ressurreição que se trazem os devanceiros nomeadamente o Castelao, Otero e o Diaz Valinho, sempre medra… e por mais que a matem depois…

      Saúde 😉

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      • Joám Lopes Facal

        As Nornas do mundo feérico, que assomam no Anel de Wagner, tecem e destecem a teia da vida. Há arquétipos dominantes que gostam de revelar-se na arte simbolista que impregnou os nossos artistas de entre-dous-séculos, ou nas enigmáticas mandalas…arte e consciência colectiva…

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    adorei o artigo e cada uma das suas partes.

    Na primeira, faz uma exata analise de qual é a situação do estado que nos submete, das suas classes dominantes, e como isso é tudo trapalhada, mas tem da sua parte os imperativos categóricos que dizia Parsons, ou traduzido a nossa linguagem a força e a violência, assomada ou descarnada.

    Na segunda, aparece a vontade emancipadora da Galiza, sempre limitada nas balizas que coloca o estado, mas nessas balizas tem uma continuidade nas receitas imprescindíveis de sobrevivência (e como não se alcançam…) que se alargam no tempo; e entre 1808 e hoje estamos a reclamar o mesmo, a esse frontom que é Casteça/espanha.

    E na terceira há uma explosão de otimismo, da que ainda estou pasmando,,,