Debatemos o LHC

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Por José Ramom Pichel Campos

No meio dos chás quando António e Marta combinavam em qual seria a sua próxima viagem, uma visita pola África de paralelo superior ao equador, isso mesmo parece que é outro mundo, ti já verás acredita, e meridiniamente Marcos acordava do sonho de sofá e menta, a digestão fora concorrente. O paralelismo dos estômagos, o suficiente eficaz para que as conversas subissem nas montanha russa de filhos e demais família, desde a crista elevada observasse tudo, baixar logo com grito adjunto de velocidade até os vales verdes da política e dos acontecimentos de sapatilhas de casa, as janelas já cheiram a inverno, o resto do quarto escutava anedotas das férias dos casais que sempre falam a duo.

E ti estás ali no meio de tudo isto tentando que os palitos deixem de fazer buracos na toalha de mesa, o vinho deixe de ser pintura, o microscópico é de tamanho natural. António e Marta descrevem seres e seres, a perda de bilhetes antes da subida ao avião, o calor do senhor Fahrenheit, as moscas na carne, fotos e mais fotos, os vídeos mergulham-se nas retinas.

Ninguém se decatou ao começo, um vento por debaixo da porta, lento, de mães apontando na diana da boca dos filhos, os colheres são armas cheias de calorias. As combinações de letras forom escorregando polo chão com olhada de futuro, como de mágoa, essa gentalha. Atendenderom á conversa de Marta e António, ou era António e Marta, com essa ordem de palavra preestabelecida. Contabilizava o número de interrupções que eles se davam, mas sem decatar-se do assunto continuavam na mesma de contar essa viagem que para nós já agora só alimentava os sonhos. Contei quantas parelhas, trios e quartetos, eram milhares e irremediavelmente avançavam cara um Waterloo imediato, de humanos habitantes metro e meio por acima das suas cabeças.

A parelha BC, que acompanhava à palíndroma CB, que por sua vez, falava nem sei que conto com a FTP, que já era trio, o quarteto de câmara DHCP, que sorria ao HTTP e recitava em voz alta o poema dos acrónimos lemmings que decidirom uma vez por frio afogar-se na taiga.

Um a um em fila índia começaram a voar acima das cabeças de António e Marta, de Marcos que acordava e de mim que já sem máscaras observava o céu. Observei que só um acrónimo ficava sozinho no chão, um tal LHC, que começava a mudar de cor até tornar preto preto. As conversas das férias dos casais por fim acabaram, conectou-se o novo acelerador de hadrões do CERN, e todos desaparecemos, com os nossos debates.


(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.