De mitos e lendas

Partilhar

Por Pablo Gamalho Otero

Todos conhecemos a famosa Lei física do ‘Linguista Maçador’: numa conversa de amigos, se está presente um linguista, a probabilidade de falar sobre a língua se achega a 1 a medida que decorre o tempo da conversa. Esta lei cumpriu-se este verão quando eu próprio (linguista) fui sentar à mesa dum banquete com engenheiros, médicos e jornalistas, todos eles franceses. Após um tempo indeterminado falando de diversos assuntos, fomos puxados pola força da Lei para cairmos inexoravelmente no tema das línguas. Um dos médicos, franco-argelino, expôs uma ideia que era um evidente mito linguístico, bem conhecido, que eu retruquei. Ele olhou para mim e acenou com expressão de ficar convicto pola minha resposta. Dei-me conta que conseguira desfazer um mito que formava parte das crenças de alguém. Foi uma surpresa. Acho que é a primeira vez na mina vida que consigo convencer alguém de algo durante uma conversa informal. Lembrei-me logo duma desmitificação que me aconteceu há 8 ou 9 anos lendo um magnífico livro de divulgação científica de Jorge Buescu da fantástica editora portuguesa Gradiva.

Eu acreditava no mito romântico em relação a Cristóvão Colombo. Este mito pinta uma imagem heroica do marinheiro genovês (ou de Poio?), que comparece perante os eruditos da Corte castelhana para defender a sua visão duma Terra esférica frente à ideia da Terra plana apoiada pola Igreja. Lembro que o meu analfabetismo histórico foi alimentado por, polo menos, um professor de História no Liceu que nos falava da ousadia de Colombo numa época pós-medieval, tingida polo escurantismo da Idade Média. Bom, tudo isto é completamente falso. Desde a época de Eratóstenes (240 a.C.), as elites científicas admitiam que a terra é curva e só uns poucos pseudo-científicos continuaram a defender que era plana. O próprio Eratóstenes, graças a trigonometria, calculou mesmo com muita precisão o perímetro terrestre, que tem por volta de 40.000 km. O que tentou demonstrar Colombo, baseando-se em estudos inovadores (embora errados) da época, é que a Terra só tinha 29.000 km de perímetro e que para chegar às Índias só era preciso percorrer apenas 4.800 km. A sua teimosia convenceu à Corte castelhana (não à portuguesa) e assim arranjou financiamento para a sua expedição. Os seus cálculos estavam totalmente errados, mas como já todos sabemos, teve a boa sorte de encontrar terra firme a 4.000 km., embora não fosse Ásia…

O mito romântico de Colombo foi alimentado no século XIX por historiadores cujo objetivo era fazer propaganda a favor da Ciência e em contra da ignorância dos padres da Igreja no eterno debate Ciência ‘versus’ Religião. Estes românticos foram negacionistas e revisionistas da Idade Média, criando o mito dum período escuro e retrógrado, onde a luz da Ciência foi apagada polos dogmas da Religião. O mito de Colombo forma parte, portanto, duma manipulação romântica da História, que é muito atrativa nomeadamente para aqueles que gostamos da Ciência e somos furibundamente ateus.

Devo reconhecer que, ao ler o que aconteceu realmente em relação a Colombo, senti que se desmoronava uma parte das crenças da mina base de conhecimentos. É o que se conhece como processo de desmitificação. Algo assim também deveu sentir o meu amigo franco-argelino quando desmitifiquei o seu preconceito linguístico.

O meu amigo nasceu na França e, embora fosse escolarizado em francês, a língua que falava na casa é o árabe argelino. Contou-nos que, quando vai de férias à Argélia visitar a sua família, não percebe bem a televisão e não consegue ler os jornais, pois a língua dos média é o árabe padrão moderno, derivado do árabe clássico. Como não foi escolarizado em árabe padrão, sente que a sua variedade oral fica muito distante da língua culta que escuta na televisão. Acabou por lamentar e maldizer a situação colocando a questão, bem conhecida, de ‘por que não falam como se fala na rua?’. O mito que sustenta o seu argumentário é-nos familiar: as elites tentam distanciar-se do povo inventando línguas artificiais que só conhecem bem eles. A sua proposta é também familiar: é preciso que a língua falada polo povo (a língua de seu) seja a base da língua culta. Todos e todas na mesa pareciam concordar com a sua posição. Lembrai que não havia linguistas ao meu redor. Eu contestei argumentando que o árabe padrão é o que permite manter a unidade linguística e cultural dos países árabes. Se se perde essa unidade, o árabe argelino deixaria de ser a mesma língua que, por exemplo, o árabe sírio, pois são duas variedades quase ininteligíveis. O árabe padrão não é um capricho elitista mas o principal instrumento de construção e coesão do que se conhece por Mundo Árabe, constituído por cerca de 300 milhões de falantes.

Como já disse ao princípio, ele acenou assentindo com a cabeça e percebi no seu olhar um leve brilho como símbolo externo do processo de desmitificação que estava, provavelmente, a sofrer. Imaginei que estava a viver uma pequena, mas talvez significativa, reestruturação da sua base de conhecimentos. Foi nessa altura que me lembrei de Cristóvão Colombo.