Da subversão cultural como forma de ativismo nacional e protesto político social: a Irmandade da Fala da Crunha (1916–1923) (I)



jardin_de_mendez_nunez__pardo_bazan-webUm dos grandes prazeres e proveito como pesquisador é se empapar de uma época. Exige tempo atender ao contexto, cumpre dar um olho não apenas aos protagonistas e aos feitos que os estudos anteriores ou a tradição escolheu, quanto a todos os ambientes e atores de reparto. Fixarmos a atenção nos relacionamentos e grupos para além das pessoas das primeiras filas e mesmo para outras fotografias que não são as que sempre se reproduzem.

Cumpre ir, sempre que se possa, para além do evidente. E empregar o que poderíamos definir como a metodologia Chaplin ou a perspetiva Charlot. Sim, há risos, cenas de sublime ridiculismo, perseguições e golpes que convidam à gargalhada; mas a pouco que atendamos percebemos o classismo evidenciado, as fraturas e os dramas do quotidiano, da gente em contextos sociais hostis, os planos de fundo e a própria trama para além das sucessões de peripécia.

Nesse tempo dos filmes de Chaplin aparece a Irmandade da Fala da Crunha, num contexto de protesto social das classes trabalhadoras, dramaticamente afetadas pela suba de subsistências e produtos de primeira necessidade, na especulação e monopolização de uma Espanha neutral na que se podiam ganhar fortunas na exportação às nações beligerantes.

Não foi destacada a atuação de protesto, propaganda subversiva e atividade contrainstitucional do núcleo da Crunha entre a fundação da Irmandade da Fala e até a chegada da ditadura de Primo de Rivera

E num contexto também de bloqueio de participação democrática das classes médias e médias-baixas, progressistas e reformistas, excluídas sistematicamente pelo sistema de partidos turnantes e o seu braço armado caciquil. Alcaldias de Real ordem, Governos civis propensos à censura e à violência, funcionariado e administração supeditada ao poder político e a dinâmicas de prémio no escalafão e cesantias, circulação de elites entre a judicatura, as universidades, a administração, a política e para completar uma imprensa adscrita aos partidos-poderes da Restauração.

Contexto, de aparição de uma nova classe ascendente, de primeira geração urbana, de primeira ou segunda geração alfabetizada, vinculada ao mundo do pequeno comércio, da administração fabril, portuária, bancária, e pequeno industrial, que olha para Irlanda, Catalunha e Portugal.

Conhecemos como a IF da Crunha aparece como agrupação cultural para defensa e reivindicação da língua galega na sociedade, na administração e o ensino, a imitação do que acontecia na Catalunha; e como arredor dela emergiram as mais importantes iniciativas recuperadoras da língua e a literatura galega e também a consciência política que originaria o nacionalismo galego. O que talvez não sabemos, ou não reparamos, ou não foi destacado é na atuação de protesto, propaganda subversiva e atividade contra-institucional do núcleo da Crunha entre a Fundação da IF e até a chegada da ditadura de Primo de Rivera.

Se percorremos as páginas de ANT, as vozes posteriores de testemunhas, entrevistas, publicações e documentação arquivística variada podemos perceber uma constate de protesto e agitação em forma de artigos críticos, satíricos e de debate e notas e alusões a pintadas, reparto de folhetos, pitas em Maria Pita; e ações de propaganda, confronto e protesto social em atos culturais, societários e políticos.

A primeira ação da que temos notícia, e com a que podemos começar esta série, são os atos de contra-homenagem à estátua da Pardo Bazán. Sabemos pelas testemunhas que o instigador principal era Manuel Lugris Freire, e que, de tarde ou noite, depositavam um penico ante a estátua, e recitavam algum poema ou discurso satírico para a ocasião.

A primeira ação da que temos notícia são os atos de contrahomenagem à estátua da Pardo Bazán. Sabemos pelas testemunhas que o instigador principal era Manuel Lugris Freire, e que, de tarde ou noite, depositavam um penico ante a estátua, e recitavam algum poema ou discurso satírico para a ocasião

Manuel Casal, contava que o seu irmão, o famoso impressor e depois alcalde, e os amigos, entre eles Zamora e Ferreiro, chefiados por Lugris Freire, levaram um penico cascado uma noite pouco depois da inauguração. Nas lembranças de Elvira Varela Bao, era seu pai, Bernardino, quem participara nalguma das paródias, que se fizeram durante anos, e no penico iam flores.

A terceira testemunha, mais besta e acho não pouco deturpada, mas a única documentada por escrito que conheço, foi recolhida por Anton Patiño em Urbano Lugris (Viaxe ao corazón do Océano) de Edicións do Castro 2007, p. 104:

Unha anécdota semelhante (onde tamém aparece Manuel Lugrís Freire) íame chegar ao través da lembranza viva do meu pai Antón Patiño Regueira. Aínda recorda íl o segredo co que Lugrís lle ía contar un día, que seica tivera que ir en mais dunha ocasión (por severas ordes do seu pai) a colocar diante do monumento a Dona Emilia Pardo Bazán (que se tiña inaugrado daquela na Coruña paréceme que polos xardíns dos Cantóns) unha bacinilla ateigada de condóns, ao pé da estatua. Tem relación posibelmente cos datos que foron aparecendo recentemente da intensa vida erótica da escritora galega.

Esta última transforma a sátira antirregionalista e anti-autoridade numa pataqueirada machista, e resulta menos verossímil. Na altura a vida privada da condessa não era tópico; e os preservativos eram artículos caros, reusáveis e não muito conhecidos, não teria sentido nem o seu mal-gasto ou conservação, nem diriam nada para a maior parte da gente. Parece uma desfiguração baseada em feitos reais na que Urbano tomava o protagonismo, ou a memória de Patiño pai desfigurara para adaptar ao anedotário Lugris e para dar sabor à narrativa.

De qualquer modo a estátua fora inaugurada com pompa, banda municipal, discursos e solenidade da câmara municipal presidida por Manuel Casás, em 15 de outubro de 1916. Fora iniciativa de um grupo de industriais de Lugo e a Crunha, para homenagem em vida da famosa autora. A iniciativa fora entusiasticamente recebida pela imprensa e as autoridades; os atos tiveram grande repercussão na imprensa local e regional.

Portanto parece lógico pensar que pouco depois, alguns dos que nas décadas a seguir seriam destacados protagonistas do renascimento cultural e político galeguista, reagiram contra esta encenação da cultura espanhola regionalista, com um ato satírico e também simbólico que seguramente foi continuado em anos posteriores.

[Este artigo foi publicado originariamente no novas.gal]

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

(Crunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; entre 2016 e 2019 foi Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

Latest posts by Ernesto V. Souza (see all)


PUBLICIDADE

  • Elias Torres

    Parabéns para o Ernesto V. Souza, do melhor que conheço, aproveito o trem para deixá-lo escrito, na historiografia do galeguismo e não só. Espero que nos presenteie, com início neste artigo, com umha série sobre este e outros assuntos do seu conhecimento e reflexão.

    • ernestovazquezsouza

      ah… obrigadíssimo, meu…

      Mas é curioso… eu fiquei um algo desapontado estes escritos para o Novas… sinto-me enferrujado… a verdade é que já não tenho nada novo ou interessante a dizer.

      Aperta

      • https://pglingua.org/index.php abanhos

        Meu Deus, a que chama você interessante.

        Penso que somos muitos os que bebemos nos teus textos