Da Galiza ao Brasil com o taliàn



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município de Serafina Correia em Rio Grande do Sul (Brasil)

Muitas das falantes de português da Galiza despedem-se com uma palavra numa das línguas romances menos conhecidas: a łéngoa vèneta. A interjeição chau chegou ao galego não há muito, da mão do italiano, mas a sua origem última está no termo véneto sciao, ‘escravo’. “Sciao vostro!diriam ao se separar as habitantes de Pádua, com uma construção que lembra o nosso obrigado.

O véneto não está protegido pola principal norma sobre as línguas menorizadas da Itália, a Lei nº 482 de 1999, preocupada só polas variedades com um estândar mais elaborado, como o albanês, o catalão, o ladino, o ocitano ou o sardo. Mas a diglossia com o toscano que impugera a questione della lingua conservou o seu uso no âmbito familiar, e quase 70% das habitantes do Véneto asseguravam falá-lo ainda em 2007.

Outrora, o véneto gozou de maior prestígio. A que parece ser a primeira mostra escrita em romance da península Itálica, a “Adivinha de Verona”, apresenta características desta língua, e véneta foi boa parte da base da coiné em que se escreviam as variedades do norte ao longo do século xiii. Carlo Goldoni e Giacomo Casanova, entre outras, usárom-na para a literatura, e na República de Veneza as funcionárias faziam-na servir a par do latim e do toscano.

Aliás, cumpre salientar que nem todo o Véneto fala esta língua. Também se escuitam ali o lombardo, o emiliano, o friulano ou o bávaro, sem contarmos o italiano oficial e as línguas trazidas polas migrantes. Por outro lado, o véneto estendeu-se além das fronteiras da região, especialmente com o domínio marítimo da república: ademais de no Friul e no Trentino, ficam falantes de véneto na Eslovénia e na Croácia e houvo-os no passado em zonas da Grécia e da Albânia. Com os barcos vénetos viajavam palavras que ainda ecoam no arromeno ou no turco.

Nas grandes migrações italianas de finais do XIX e de princípios do XX, as vénetas subírom de novo aos barcos e levárom a sua língua a outros países como Argentina, Brasil, México ou Romênia. Nas cidades mexicanas de Chipilo e Colonia Manuel González ou nos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná, netas e bisnetas de migrantes ainda conservam a fala véneta.

Nas grandes migrações italianas de finais do XIX e de princípios do XX, as vénetas subírom de novo aos barcos e levárom a sua língua a outros países como Argentina, Brasil, México ou Romênia. Nas cidades mexicanas de Chipilo e Colonia Manuel González ou nos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná, netas e bisnetas de migrantes ainda conservam a fala véneta.

Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, o véneto, que ali chamam taliàn, foi qualificado de património linguístico, alcançando um status similar ao que tem na sua região de origem e que na prática fomenta a promoção cultural da língua. Apesar da queda do uso em favor do português, o véneto está hoje presente em programas de rádio e de televisão, em obras de teatro ou em artigos nos jornais. Em novembro de 2009, o município de Serafina Correia declarou oficial o taliàn junto com o português, uma medida que seria imitada por outras localidades brasileiras. Ainda que não se corresponda exatamente com o que nós entendemos por oficialidade, esta declaração permite ensinar o véneto nas escolas, usá-lo na documentação pública ou atender nesta variedade nos serviços básicos. A língua que diz sciao continua a sua navegação assim do outro lado do oceano.

[Este artigo foi publicado originariamente no novas.gal]

Iván Cuevas

Iván Cuevas

Nasceu em Xixón (Astúrias) em 1982. Fai as vezes de poeta e filólogo em asturo-leonês, de jornalista e programador em galego-português, e de tradutor em ambas as duas línguas. É membro do Cineclube de Compostela e de El Teixu, Rede pal Estudiu y Defensa de la Llingua Asturllionesa.
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  • Gabo

    Ola Iván, moitisimas grazas polo artigo! Eu son véneto e pareceme fundamental que polo menos se fale da existencia da miña lingua, que está moi en perigo de sobrevivir as proximas xeracións. Somos moi poucos os que intentan preservala. E por sorte están facendo algo máis os nosos irmáns no Brasil. Grazas de novo!