Em dezembro apareceu em vários jornais a notícia de que uma lei aprovada pela Duma proibia o uso de palavras estrangeiras na língua russa. A iniciativa para estabelecer um corpus léxico autóctone no uso administrativo era explicada, num exercício de retórica belicista, como um exemplo mais do isolacionismo russo e do ódio ao Ocidente. Porém, medidas semelhantes não são estranhas dentro da própria União Europeia.
Ainda que estejamos habituadas a que sejam sociedades mais ou menos privadas (as autodenominadas academias) quem se reservam o direito de sancionar uma ou outra palavra, há países onde isto se realiza com instrumentos legislativos. Os neologismos autorizados pela Comissão de Enriquecimento da Língua Francesa publicam-se no jornal oficial, e na Islândia mesmo os nomes próprios das crianças têm que se ajustar a uma lista do Comité de Onomástica.
Do mesmo modo que o essencialismo étnico, o linguístico baseia-se na ideia de uma pureza que nunca existiu, tratando os idiomas como uma coisa a conservar inalterável, e não como a realidade em constante mudança que são. Sem as achegas germânicas, árabes ou francesas, não teríamos nem gado, nem aldeias, nem paisagem, nem outros termos que usamos com frequência para definir a Galiza da maneira mais tópica. Para mostrar como seria o inglês sem empréstimos romances, Poul Anderson escreveu Uncleftish Beholding (‘Teoria atómica’) em 1989. Incompreensível sem um glossário, o texto não conseguiu sequer o seu propósito: algumas das suas palavras procedem do normando.
Do mesmo modo que o essencialismo étnico, o linguístico baseia-se na ideia de uma pureza que nunca existiu, tratando os idiomas como uma coisa a conservar inalterável, e não como a realidade em constante mudança que são.
Outra caraterística comum das aduanas linguísticas e territoriais é a exclusão. Escolher uma palavra como “correta” significa condenar as utentes das alternativas à categoria de quem “falam mal”. Uma coisa tão arbitrária para as linguistas como definir uma pessoa como “ilegal”. O corpus de um dicionário reflete, ademais, os interesses do poder do momento: se o Dictionnaire de l’Académie Française de antes da Revolução recolhia muitos termos heráldicos e mui poucos de ofícios, o reacionário Gabriel Feydel queixava-se uns anos depois da inclusão de “frases que só têm lugar na boca de um operário”.
O corpus de um dicionário reflete, ademais, os interesses do poder do momento: se o Dictionnaire de l’Académie Française de antes da Revolução recolhia muitos termos heráldicos e mui poucos de ofícios, o reacionário Gabriel Feydel queixava-se uns anos depois da inclusão de “frases que só têm lugar na boca de um operário”.
Evidentemente, nem todos os purismos são iguais. Resulta compreensível que um idioma menorizado se defenda da influência da língua dominante, para evitar ficar diluído nesta. Mas cumpre refletirmos: Qual é o limite entre a defesa legítima e o purismo excludente? Não se encontra a prática totalidade dos idiomas sob a influência de algum colonialismo linguístico, quando menos o do inglês? Quiçá a solução venha de pensarmos outro modo de proteger o acervo léxico autóctone. Um que não parta dos esquemas prefixados das elites, mas da participação das falantes.
Evidentemente, nem todos os purismos são iguais. Resulta compreensível que um idioma menorizado se defenda da influência da língua dominante, para evitar ficar diluído nesta. Mas cumpre refletirmos: Qual é o limite entre a defesa legítima e o purismo excludente?
Porque, ao final, são elas quem decidem. As falantes de galegoportuguês da costa galega, que limpam com o brus ou bebem guarisnais, ou as da Portugal Avenue de Newark, que ringam à porta e compram no mol. As que demonstram cada dia que esta é uma língua viva e com as fronteiras abertas.
[Este artigo foi publicado originariamente no Novas da Galiza]
