Em agosto deste ano era notícia a morte do “índio do buraco”, possivelmente o indígena mais afamado da Amazónia brasileira. Contra o tópico jornalístico, parece difícil qualificá-lo como último representante dum “povo não contactado”. Se o “índio do buraco” se mantinha isolado, era precisamente por causa dum contacto excessivo e letal: especula-se que a maior parte da sua tribo fora massacrada por fazendeiras na década de ‘70 e que o resto morreu num ataque de mineiras ilegais em 1995. Vivendo só desde aquela, continuou a sofrer tentativas de assassinato, a última conhecida em 2009.
A Fundação Nacional do Índio monitorizava a sua atividade desde 1996 com o objetivo, entre outros, de protegê-lo. Mas a política de respeito às comunidades não contactadas (estabelecida pelo Brasil em ‘80 e em perigo hoje em dia) e a sua resposta agressiva a qualquer tipo de aproximação limitaram os intercâmbios ao oferecimento de comida e a alguns sinais desde o longe. Nestes mais de 25 anos, o “índio do buraco” não falou com ninguém. É por isso que desconhecemos o seu nome, a sua etnia ou o idioma que falava. Com a sua morte, desaparecem definitivamente as palavras que passaram um quarto de século caladas.
Nestes mais de 25 anos, o “índio do buraco” não falou com ninguém. É por isso que desconhecemos o seu nome, a sua etnia ou o idioma que falava. Com a sua morte, desaparecem definitivamente as palavras que passaram um quarto de século caladas.
Como em todo o desconhecido, existe algo atraente nas línguas dos povos não contactados pela sociedade dominante. Parece incrível que na era da informação continuem a existir idiomas dos que ignoramos praticamente tudo, além da sua existência. Do sentinelês, o único que sabemos, trás a escassa comunicação com o povo que o fala na Sentinela do Norte, é que não é intercompreensível com o jarawa nem com o onge, as línguas das ilhas próximas. Supõe-se que deve pertencer à mesma família que aquelas, mas não há nada que o confirme. E a perseverança das sentinelesas em continuarem isoladas parece que vai evitar que esse mistério se resolva.

Amiúde qualifica-se a diversidade linguística como património de toda a humanidade. Mas, afeitas como estamos a sentir que ocidente é o centro do universo, cumpre não perder a perspetiva. É o que as mapuches nos lembravam em 2006, ao criticar a Microsoft por traduzir Windows ao mapudungun sem contar com a comunidade: as línguas não são elementos isolados, senão que veiculam a vida dos povos, as culturas e os indivíduos que as usam. Documentar falas ameaçadas do mundo pode ser útil para afundarmos no conhecimento, mas se as comunidades que se servem delas desaparecem, a riqueza linguística do planeta só pode diminuir.
O facto de não sabermos nada delas desde esta parte do mundo é o único que têm em comum as variedades linguísticas da Sentinela do Norte e do “índio do buraco”. Esta última podemos considerá-la morta desde há décadas, quando o derradeiro falante decidiu optar pelo silêncio ante o extermínio do seu povo. Mas o sentinelês não está sequer em retrocesso. Bem ao contrário: até onde sabemos, parece ser a língua veicular de toda a atividade da comunidade da ilha. E nós, que o desconhecemos todo dela, devemos estar orgulhosas de seguir tendo esse património.
[Este artigo foi publicado originariamente no Novas da Galiza]
