Contra a normalidade

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Por José Ramom Pichel Campos

Pensar que o mundo deveria ser, é alimentar a máquina das frustrações. Nada deveria ser, mas é.

Não lembro agora qual o filósofo que dizia: “o fácil aborrece, o difícil atrai, o complicado seduz e o possível acontece”. Ao melhor é que o li no facebook.

Isto é assim, a normalidade só existe nas distribuições normais da Estatística, e isso nos vale para entender certos processos que nos acontecem, mais é um modelo, e por tanto não é a realidade. Um modelo que nos ajuda a entender mediante uma curva que existe uma probabilidade muito alta de muitos fenómenos aleatórios de encontrar-se no centro da curva e probabilidades mais baixas de encontrar-se nos extremos.

Nunca poderíamos dizer que a programação na linguagem C é normal no mundo, e que todo lugar no que os seus habitantes que programem computadores não o usem estes estejam a incumprir a normalidade.

Nem ao contrário, aqueles que usem esta linguagem de programação, jamais poderíamos dizer que são normais.

Também poderíamos aplicar isto aos sistemas operativos. Não poderíamos dizer que porque os fabricantes de computadores instalem por defeito um determinado sistema operativo estejam atentando ao que deveria ser normal, que frequentemente é, segundo os denunciantes, outro sistema. E ninguém fala de que isso não pudera ser o mais lógico, mas como dizia Mark Twain “se tudo o que acontece no mundo fosse lógico, nada aconteceria”.

Com o passo do tempo, com a idade chegamos a aceitar que nem sempre o mais lógico é o que acontece, que exatamente o contrário, que o único que acontece é o possível, que nem é lógico, nem racional, nem prático, nem justo.

A história do mundo está cheio desta engrenagem, mas também da lógica, só que não é na maior parte das vezes predizivel. Um sarilho, por tanto. Um belo sarilho por descobrir.

Todos os que falam com frequência desde o lado da negação “isto não são medidas normais”, “isto não é um país normal”, todos estes enunciados não fazem mais do que enfrentar-se à realidade desde um ângulo que não nos posiciona para a mudança. Só nos posiciona na frustração e a raiva.

Nada é normal, pois tudo é normal porque acontece. Proponho dizer que “isto não são medidas de melhora”, “isto não é o pais do que gostaria” que é diferente. As novas gerações galegas não querem escutar mais lamechismo, mais derrotas. Vivemos num lugar do mundo dinâmico e que funciona bem quando se auto-organiza (lembremos tudo o que nasceu do Prestige). Parem já com a normalidade.

 


(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.