Por Ernesto Vasques Souza
Fonte do cartaz: Wikipédia
A maior parte dos pais não se decatariam se os filhos nascessem com asas, ou se estas lhes fossem abrolhando súpetas ou agomando aos poucos. Como com o resto das características físicas e mentais das crianças, o pessoal espera-se que os meninos sejam bem-feitos e conforme os padrões da sociedade em que se mora, referidos à pigmentação, género, tamanho da cabeça, número de extremidades, situação dos órgãos, funcionamento geral adequado destes, etc. que a lista do conforme examinável é longa e varia ao sabor de modas e razões políticas, sociais e económicas de peso.
De modo que, pai ou mãe, a gente opta geralmente por imaginar que tudo decorre bem, e passa a vida a olhar para os filhos com as boas lentes da progenitura. E, em caso de detalhinho a contrário, no máximo adotam a política pragmática de olhar para outro lado, não sendo que a originalidade a carão, fosse tão que provoque a crítica, o escárnio, ou o pior: o comentário direito, bisbilhante e obsessivo dos alheios vizinhos.
Sendo assim, notório o notório, e após fundo desgosto e aprofundamento, vem de longe a prática social consertada e sábia, dos pais advertirem e obrigarem a qualquer dissimulação por meio de escamoteio, roupa sobreposta ou ainda a qualquer medida cirúrgica e corretora.
Eu nasci com asas, mas afortunadamente na minha família e nos amigos arredor todos tinham e têm asas, umas asas absurdas e divertidas, mas muito úteis na hora de tomar perspetiva e de andar para longe. E, na realidade, muita gente nasceu com asas, umas pessoas com asas redondas e colorido borboleta, outros membranosas e ósseas vermelho e cinzento que se abrem vibrantes, outras tamanhonas e plenas de penas das grandes voadoras.
Porque, sim, é mais frequente terem tentáculos e dentes carnívoros, mas algumas pessoas podem ter asas; e atualmente, e após não pouca pedagogia e se irem sentar as senhoras idosas, teimudas e amáveis, com as suas escamas verde-castanhas e raras qual poetas nos bancos de transportes públicos que não lhes eram destinados, quase se considera decente; ainda que persista a teima popular de as asas serem algo regressivo e incómodo.
O problema foi o corno e o rabo, porque ninguém também não tinha cornos e rabos em público, ou quando menos não tão tamanhos de chamarem a atenção. Mas eu tinha cornos e rabo que medraram seródios e inconfundíveis, também muito engraçados, mas também arredor havia gente interessante com cornos e rabo.
E outros vão vivendo ou passam dissimulações e até cirurgias com os pequenos cornos de natural mas só os lusistas, e outras criaturas imaginárias de conhecida abjeção e perversidade, tinham cornos e rabos.

