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Concha Rousia: “As luitas pola melhora individual e pola melhora colectiva nom som discordantes, mas confluentes”

Natural da Límia, residente em Briom e dedicada à Psicologia, Concha Rousia diz-nos que “cultiva a terra, a mente e a palavra”, pois compagina a assistência clínica com o trabalho na horta, a dedicaçom literária e o compromisso reintegracionista. Com ela falamos dos padecimentos mentais da nossa sociedade, da singularidade psicológica galega, e das respostas individuais ou colectivas à dor em ascenso.

Na conversa da rua, nos meios de comunicaçom, e também nos movimentos populares, tem virado num lugar comum afirmar que piora mais e mais a saúde mental. Que há de certo nisso?

Eu diria que é certo. As comunidades desmantelárom-se, esvaecêrom-se os mundos mais comunitários, e as pessoas estamos mais frágeis por isto. Por outra parte, há umha maior consciência do padecimento, que antes quiçá passava mais inadvertido. Ao confluirem ambos os factores, dá-se um momento álgido de demanda de consultas.

Quais som as patologias ou mal-estares mais frequentes com que te encontras na tua consulta?

Nomeadamente, com a ansiedade, muito acentuada na populaçom adolescente. Adoita relacionar-se com o estrês académico e com problemas de relacionamento. Seguem a isto os problemas de casais, ou de parelhas, que parecem aumentar. Em síntese, diria que há dous grandes problemas vinculados, o da ansiedade massiva, e o das dificuldades para manter relaçons.

À vez que se derrubou o tabu da doença mental, certas vozes apontam que desceu tanto o limiar do sofrimento, que qualquer moléstia que antes se sobrelevava hoje se patologiza ou acaba na clínica. Que opinas desta perspectiva?

Para mim o fim do tabu é muito positivo, porque significa que existe maior consciência do nosso bem estar. Quanto ao assunto da dor, nom entendo que tenhamos que aprender a tolerá-la, mas fundamentalmente a superá-la. Deste ponto de vista, nom imos a terápia para tolerar a dor, mas para adquirir ferramentas para deixá-la atrás.

Existia entom menor padecimento quando vivíamos em comunidade?

O que existiam eram vidas menos isoladas que nos davam umha margem de relacionamentos muito amplos, podemos dizer que os nossos afectos se repartiam. Hoje, o modelo apoia-se em substituir tudo isto por um par, umha parelha, um casal. E como consequência disto, exigimos ao nosso par que cumpra tantos roles, que satisfaça tantas demandas, que isto vira impossível. Muito estrês para umha só pessoa; logo ao nom existir pressom social polas aparências neste sentido, toleramos muito menos situaçons que antes se toleravam, e as relaçons racham. Mas no fundo, como eu digo, o que acontece é que estamos despovoados e despovoadas de afectos.

Que relaçom há entre os padecimentos que citas e a classe social?

Encontro-me com problemas que som transversais às classes. O que si tenhem é umha marca de género ou, para melhor dizer, muitos tenhem a sua origem na opressom de género. Trabalhei muito com pessoas que padecêrom violência machista, quer mulheres, quer crianças. E aí si observo perfis muito claros. Sem dar palavras técnicas, diria que algumhas destas pessoas ficam presas a modelos de defesas agressivas, porque vivêrom num meio hostil, ou mais exactamente sobrevivírom, e  respostam  de forma automática a estas coordenadas; sobretodo se se trata de pessoas com um carácter mais activo ou com potencial agressivo, que tendem ao irascível. Logo, em pessoas mais passivas, com menos capacidade de resposta, vejo que isso se exprime em somatizaçons como psoríase, diabete, doenças articulares ou reumáticas, em gente bastante jovem que nom teria por que padecer. O que acontece é que o nosso corpo é ciente ao seu modo do padecimento, e reventa por onde pode.

Ainda hoje, nas chaves dumha sociedade moderna, pensas que se pode falar dumha singularidade psicológica galega?

Sem dúvida. Para começar deveríamos recordar de onde partimos, onde estávamos em tempos muito recentes. Eu, como tantas outras pessoas do nosso país, medrei numha sociedade tradicional total que mais se parecia ao Neolítico do que à sociedade moderna: onde perviviam trabalhos comunitários, onde fazíamos em colectivo a lenha, a malha, onde usávamos em comum o forno, onde existia um concelho aberto (meu pai de facto era o pedáneo); e onde, segundo recordo, as decisons se tinham que tomar por unanimidade. Pouco antes de eu nascer, ainda se debateu na minha aldeia a introduçom do telefone, e por oposiçom de um vizinho, nom se puido fazer. Eu digo que nunca se sabe de onde vem a sabedoria, quando chegavam os primeiros avions, diziam os velhos…aí vem o fim do mundo. E com efeito, era o fim do seu mundo, o que levou os seus filhos para longe. Olha o que é a intuiçom.

Logo, há umha singularidade nossa, que eu acho é celta, ou mesmo pré-celta, mas em qualquer caso ancestral. Apresenta-se como umha patologia, mas para mim nom o é, simplesmente é um traço. Somos ainda muito comunitários, precisamos da gente e da cooperaçom, mas ao mesmo tempo somos enormemente individuais, queremos marcar a nossa singularidade, parece que o necessitáramos; e para isso recorremos à comparaçom, ao litígio, ao conflito. Claro, isso fai muitas vezes difícil erguermos dinámicas coletivas fortes.

Como encaixa esta singularidade num mundo tam diferente como é o de hoje?

Os modelos tradicionais chocárom e chocam enormemente com a direçom que toma o mundo. Na sociedade tradicional, ainda que havia controlo, deixava-se muito soltas às crianças, quer nas cidades, quer nas aldeias. Agora há um controlo total, porque com efeito, nom vivemos estritamente em sociedade, mas isolados, e existe umha consciência grande do perigo. Aí nasce esse viver mais encerrado, mais alheio ao grupo. Logo, nom esqueçamos tampouco que somos umha sociedade que viveu esse investimento cultural contínuo da cultura castelhana, que nos produziu um sofrimento constante. Noto-o no meu dia a dia. Na consulta, é frequente dar com galegofalantes que se sentem inseguras por se exprimir na sua língua, o que dá lugar a umha vulnerabilidade maior.  Aliás do sofrimento psicológico que traem, incluem este outro. Pensemos que quando se dá um encontro psicológico entre duas pessoas, dá-se também um encontro cultural, concordante ou discordante. E a pessoa galega, em geral, nesta troca sente-se em inferioridade, sente que nom a vam tratar bem.

Pensemos que quando se dá um encontro psicológico entre duas pessoas, dá-se também um encontro cultural, concordante ou discordante. E a pessoa galega, em geral, nesta troca sente-se em inferioridade, sente que nom a vam tratar bem.

Esta grande mudança nas chaves de comportamento intensifica-se pola tecnologia. Pensas que esta permite novas comunidades, mais livres e com menor controlo, ou venhem para intensificar o isolamento?

O da liberdade ponho-o em causa. Na realidade, neste novo mundo há mais controlo do que houvo nunca, desde que estamos a ser espiados o tempo tudo, agora polo sector tecnológico, por pessoas interessadas em nos explorarem como se fôssemos animais da sua granja. Logo, as nossas vidas som mais solitárias, e ao mesmo tempo mais dependentes no económico, porque nom é doado ganhar a independência na sociedade das crises.

Ora, a tecnologia de seu nom é má. Com efeito, ajuda a contactar, e a estabelecer relacionamentos distantes. O problema é quando passamos a idealizar tais relacionamentos, porque ao nom conhecermos as pessoas fisicamente, estabelecemos relaçons sesgadas. Entom eu penso que a tecnologia deve ser utilizada para contactar, nom para se conhecer. Porque até as pessoas se encontrarem, nom há tal conhecimento.

Umha parte da esquerda tem minusvalorado a psicologia ou a psiquiatria, entendendo que individualizam problemas que som sociais, e que levam a nom abordarmos a sério a grande mudança, que é a mudança colectiva. Como julgas esta posiçom?

Eu entendo que o problema do padecimento que vivemos nom é exatamente estrutural, mas é total. Eu utilizo este termo, um problema total. Entom, quando agimos a nível individual, agimos ao mesmo tempo também na estrutura; quando trabalhas por umha pessoa, trabalhas pola humanidade inteira. Por isso eu acho que cumprem todos os níveis, o individual e o coletivo. Há que trabalhar logo para superar os sofrimentos individuais, e aliás cumpre procurar formas colectivas para melhorar as cousas. Nom som vias discordantes, mas confluentes.

Desde a tua posiçom, quer profissional, como psicóloga, quer pessoal, como pessoa comprometida com o colectivo, que poder de transformaçom  vês aos movimentos?

Certamente estamos num tempo em que resulta difícil conseguir objetivos, e nas luitas que andamos, perseguimos cousas que nom sabemos se vam ser acadadas. Porque, como dizia o poeta, temos o poder da palavra, mas nom a palavra do poder. Entom, os movimentos tenhem a funçom, acho eu, de ajudar a viver num mundo que machuca os nossos direitos, e isto de por si dá-nos força para ir para a frente e nom virar todos loucos. Aliás disso, há sempre umha necessidade importante de nos narrarmos a nós mesmos quem somos. Porque…se nom houvesse esse associativismo de base pola língua, polo território, se nom houvesse isto…quem seríamos? Todas as terras em perigo de serem usurpadas precisam umha narrativa de seu. Isto pode-se fazer individualmente, e é necessário, tipo atividade erudita, mas nom chega. Cumprem as pessoas, as populaçons, e aí devem confluir as duas forças, aí nasce o discurso que tem que penetrar socialmente. Como se fossem as cadeias do DNA, duplas, por umha parte os conhecimentos individuais, e por outra a luita e os saberes coletivos das pessoas.

[Esta entrevista foi publicada originariamente no galizalivre.com]

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