QUOD NIHIL SCITUR

Com que roupa?



Noel Rosa… quem soubera bem dizê-lo nome, ao vivo, como um sambista, num pontinho de bebedeira entusiasta e saudosa, subido num palco. Imaginem o ritmo. E, porque não, o público cúmplice. Soa a música delicada, belíssima, não isenta de cálida travessura e morna decepção.

O bar tem madeira por toda a parte, e objetos diversos de reciclagem convertidos, à venda. A gente é guapa, moderna, atraente. Também é muito amável. O local é bonito e está numa boa hora. Mas a conversa do dono é o maior atrativo.
Entre palavra e palavra e enquanto atende outros clientes evoco no fundo do copo as minhas letras galegas, meio esfarrapadas. Equidistantes de toda a parte. Ou de nenhuma.

Três palavras, uma garrafa, uma mesa de mármore com manchas, luz escassa, e começa a rolar qualquer estória. Que letras as do carioca. Narrativa amarga do quotidiano observador; da vida do botequim e das gentes do bairro, com as suas tragédias discretas; essas que sempre nos implicam.

Quem pudera montar numa prosa ligeira e feita uns momentos para fazer rir. Encaixando, aos poucos, como quem bebe lento a tinta na progressão dos anos, as histórias arredor. Quem pudera dizer, com três ou quatro palavras a fio. E saber-se dono de um idioma.
Mas… eu pergunto com que roupa… com que roupa… eu vou?…

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

(Crunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; entre 2016 e 2019 foi Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • Isabel Rei Samartim

    Quase sempre a melhor roupa é a que se despe.