Chegar a casa



serie-chegar-a-casaSempre me foi dito que há que dar muita atenção aos títulos. Eles são a primeira referência para interpretarmos algo. Este artigo foi intitulado Chegar a Casa e para iniciarmos a sua leitura podemos fazer uma primeira reflexão sobre o conceito Casa.

Oikos era o nome grego para a unidade básica de uma sociedade. Por vezes traduzimos isto como Casa, Família ou Lugar habitado. É curioso porque a palavra que chegou a nós do latim para isto mesmo foi Casa e não Domum. Entre estas duas, a nossa tradição preservou aquela que etimologicamente tinha um significado mais modesto. Nesta sociedade a casa é o lugar seguro, o espaço que melhor conhecemos e onde passamos tempo com pessoas que amamos. É uma construção para o abrigo, o convívio e a partilha.

A RTP e a TVG levam uns tempos a iniciar um tímido relacionamento de partilha. Isto é traduzido em coproduções como Auga Seca, Vidago Palace e mais recentemente Chegar a Casa. Esta última série, infelizmente, ainda não chegou à TVG. Quem tem o hábito de ver a tv portuguesa sabe que há maneiras para poder ver conteúdos na app ou web da RTP. Quem diz maneiras, diz astúcias, porque apesar de termos a promessa da chegada das rádios e tvs portuguesas à Galiza, isto ainda não foi concretizado. Em tempos da minha avó metíamos um palito entre os botões da tv e conseguíamos ver algum programa do país vizinho com um pouco de sorte, mas naquela altura não havia uma lei.

Recordemos que há mais de um lustro foi aprovada a Paz Andrade e no seu artigo 4º era prometida reciprocidade de emissões. A respeito disto, os avanços foram tão pouco visíveis que dá vontade de voltar a experimentar a técnica do palito.

Em tempos da minha avó metíamos um palito entre os botões da tv e conseguíamos ver algum programa do país vizinho com um pouco de sorte, mas naquela altura não havia uma lei. Recordemos que há mais de um lustro foi aprovada a Paz Andrade e no seu artigo 4º era prometida reciprocidade de emissões. A respeito disto, os avanços foram tão pouco visíveis que dá vontade de voltar a experimentar a técnica do palito.

Na web da RTP vi a promoção de Chegar a casa com uma imagem da catedral de Santiago de fundo e interessei-me. O enredo conta a crise sentimental de um casal transfronteiriço. A Marta (Joana Seixas) regressa à sua terra natal, Arcos de Valdevez, depois de quinze anos. O motivo é o final do casamento com o Cayetano, com quem trabalhava e tinha dois filhos em Santiago de Compostela.

Do lado galego temos o Cayetano (Miguel Ángel Blanco) e a Lola (Sara Casasnovas), a sua nova namorada. Eles permanecem em Compostela, enquanto a protagonista e os filhos, Filipe e Xavier, redescobrem uma vida nos Arcos. O mapa linguístico que se mostra da Galiza é a da prática monolíngue em espanhol, com a ressalva de o Cayetano tentar falar português com a família ou cantar uma canção galega num momento de bebedeira. Por outras palavras, todas as pessoas que se movem no cenário compostelano falam espanhol entre si e também nas suas viagens a Portugal. Entre os diálogos podemos ouvir: “hablan muy deprisa, yo no los entiendo”, “Se dice Parabéns, ¿no?”. Se para a maioria da população galega o galego é uma chave para a comunicação em Portugal, é quase impossível vermos esta estratégia na série.

O mapa linguístico que se mostra da Galiza é a da prática monolíngue em espanhol, com a ressalva de o Cayetano tentar falar português com a família ou cantar uma canção galega num momento de bebedeira. Por outras palavras, todas as pessoas que se movem no cenário compostelano falam espanhol entre si e também nas suas viagens a Portugal. Entre os diálogos podemos ouvir: “hablan muy deprisa, yo no los entiendo”, “Se dice Parabéns, ¿no?”.

Os usos linguísticos do Filipe e do Xavier são oscilantes, dependem da língua dos pais e nem tanto da língua dominante em que se deduz que foram socializados. O espanhol que falam tem até traços insólitos como o de chamarem Papito ao pai. Mas é curioso que tendo sido criados em Compostela se desenvolvam muito melhor em português.

As personagens coadjuvantes galegas são representadas por atores portugueses, com a exceção do Cristian (Christian Escuredo). O resultado linguístico em consequência causa muito estranhamento. Na outra face da moeda temos as personagens secundárias portuguesas como a Lurdes, que fazem um uso cómico do portunhol ou necessitam gritar para “os espanhóis” entenderem melhor. Como sou uma rapariga de Letras, deixem-me voltar aos assuntos etimológicos. Falei antes da ligação profissional da RTP e a TVG, da partilha. Partilha é uma troca entre as partes, é assim etimologicamente, porque vem da palavra Particula, um diminutivo de parte. Damos e recebemos. O que dá a Galiza à série Chegar a casa? Não posso afirmar que a troca seja em equidade. Está na hora de termos muitos mais conteúdos acessíveis e oportunidades de chegarmos a um intercâmbio real, porque a nossa língua deve ser um espaço de convívio para todas as pessoas. Ela é a nossa casa e tem que ser o espaço que melhor conheçamos.

[Este artigo foi publicado originariamente no nosdiario.gal]

Carme Saborido

Carme Saborido

Carme Saborido é uma ativista sociocultural e professora. Nasceu em Padrom em 1982 e licenciou-se em Filologia Galega na USC. Atualmente frequenta o grau de Língua e Literaturas Modernas na mesma universidade.

O seu blogue, Lusopatia , quer ser uma janela aberta ao mundo que permita ver os vastos horizontes e dinamismo da nossa comunidade linguística.
Carme Saborido

Latest posts by Carme Saborido (see all)


PUBLICIDADE

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Esta mulher é ouro, e todo o que faz vale muito. Se não fosse polas mulheres aviados estamos como país…

    magnífico artigo

  • Paulo Fernandes Mirás

    Boa razão levas, mundo este… quando sentiremos que estamos em casa? Eu cada dia me sinto mais estrangeiro.