Charo Lopes: “Ter a língua em comum nom significa que tenhamos que partilhar posiçons políticas”



charo-lopesCharo Lopes é a diretora do PGL. Nasceu em Boiro e recebeu a burla de umha professora por “tener una granja”. Na adolescência a calhar com o Prestige e a Guerra do Iraque, foi quando se instalou, de vez, na nossa língua. A passagem para o NH calhou com a sua militância em AMI. Julga um mérito do reintegracionismo procurar alianças sem perder o entusiasmo. Gostaria que o galego fosse língua veicular, de uso hegemónico na república galega.

Charo nasceu em Boiro, onde mora na atualidade. Que presença e atitudes marcavam o galego e o castelhano na tua casa?

A minha casa é galego-falante tradicional, mas quando éramos crianças, as pessoas adultas faziam um esforço para se dirigirem a nós em castelhano. Durante a infáncia interiorizei que o galego, e em geral “o nosso” -o rural, a classe obreira…-, era pior do que “o outro”, representado polo urbano, burguês, espanhol. Ainda lembro com carragem umha professora que tendo dito eu algo sobre as pitas da minha casa, comentou em alto para toda a aula e em tom de burla -ou assim o senti eu com 6 anos- “Charo tiene una granja”.

Na adolescência, essa época febril de mudanças, por vezes, decides instalar-te no galego. Como lembras esse processo? Que alianças tiveste? E que entraves?

A escola pública foi um espaço espanholizador mui humilhante, nom apenas no linguístico, mas em todo um quadro referencial alheio. E toda a vergonha e ressentimento que fui acumulando estourou na adolescência. Era o momento do afundamento do Prestige e a guerra no Iraque. No meu liceu houve mobilizaçons e aí organizei-me com duas companheiras mais, montamos umha assembleia local da AMI (Assembleia da Mocidade Independentista); conhecer a história e explicar a realidade social fez-me recuperar a autoestima e com 14 ou 15 anos deixei de falar espanhol, conscientemente.
Contodo, acho que nessa idade boa parte da rapazada em Boiro mudava para o galego, nom por umha questom ideológica, mas simplesmente por integraçom, ultrapassar esse castelhano que se usava para as crianças e falar já como a gente adulta.

Formada em jornalismo, és a diretora deste nosso Portal Galego da Língua e também dedicas energias ao Novas da Galiza. Em que medida a língua condiciona o jornalismo que se faz na Galiza? Públicos, conteúdos, perspetivas…

Fazer jornalismo em castelhano na Galiza é um evidente desrespeito à comunidade linguística originária deste país. Assim que é fácil que quem nom tem sensibilidade com isto, mantenha também umha prática desrespeitosa em geral para entender e informar sobre o que acontece.

Os meios de comunicaçom em galego -para além dos públicos- fazem equilibrismos entre a precariedade e a militáncia. O qual por umha parte garante profissionais independentes, que podam ter umha perspetiva mais autocentrada na realidade galega e mais crítica, mas com condiçons laborais bastante lamentáveis, muitas vezes.

Fazer jornalismo em castelhano na Galiza é um evidente desrespeito à comunidade linguística originária deste país. Assim que é fácil que quem nom tem sensibilidade com isto, mantenha também umha prática desrespeitosa em geral para entender e informar sobre o que acontece.

Umha outra faceta tua é a artística, quer na fotografia, quer na poesia. De facto, a tua obra Álbum ganhou o Prémio de poesia Cidade de Ourense, prémio que nom censurava o modelo de língua. Achas que no mundo literário galego está-se a perder rigidez quanto ao padrom de língua usado, focando mais o que se diz e menos a ortografia?

Nom tenho dados, mas penso que em geral no sistema literário galego nom há liberdade de escolha ortográfica se se quer aceder a determinadas posiçons. Outra cousa é que se estejam a fazer produtos mui interessantes em reintegrado -penso no catálogo da Através, por exemplo- e que nem o pánico ao nh poda ocultar isto.

Como foi a tua passagem para o lado escuro da norma? Foi à velocidade da luz ou mais vagarosa?

Foi a partir da militáncia independentista, de forma autodidata e vagarosa, durante o liceu. Na universidade, em Compostela, já a usava normalmente.

Por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente e quais as áreas mais importantes?

_r4a0350Pola planificaçom linguística: Ter estratégias a médio e longo prazo. Mas nom tenho refletido muito nisto… Acho umha virtude do reintegracionismo a capacidade de ampliar perspetiva e procurar alianças parciais -ter a língua em comum nom significa que tenhamos que partilhar posiçons políticas-, e nom abandonar a atitude militante e o entusiasmo, isso é o que vai fazer a diferença entre um movimento vivo e a burocracia.

Porque te embarcaste no navio agálico? O que esperas do trabalho da associaçom?
Para poder participar das assembleias! Nom podo esperar nada se eu nom figer nada.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?
O processo foi de normalizaçom do espanhol, acho que o meu círculo é umha borbulha, mas a realidade, em particular nas cidades, é catastrófica.
O pior: responsabiliza as falantes e nom as estratégias institucionais.
O melhor? A autoorganizaçom social que nom delegou: todos os projetos coletivos que se levárom adiante sem estar à espera de subsídios nem reconhecimentos.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050 em Boiro e na Galiza?
Em trinta anos podem passar muitas cousas… Gostaria que o galego fosse língua veicular, de uso hegemónico na república galega. Que haja centros de estudo de línguas em todas as vilas, que no ensino se aprendam duas ou três línguas mais, chinês e árabe, por exemplo.

Conhecendo Charo Lopes

Um sítio web: caleidoscopica.gal

Um invento: a agricultura

umha música: Acabou chorare, de Novos Baianos

Um livro: Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici

Um facto histórico: As Revoltas Irmandinhas

Um prato na mesa: Depende da estaçom do ano, agora no inverno, estufado de garavanço com espinafres

Um desporto:  Remo de banco fixo: trainheiras

Um filme: Los Lobos, de Samuel Kishi (2019)

umha maravilha: A solidariedade

Além de galego/a: feminista de esquerdas

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Ernesto Vazquez Souza

    Fantástica entrevista. Sorte termos pessoal assim no PGL.

    Pois é…

    “Ter a língua em comum nom significa que tenhamos que partilhar posiçons políticas”

    (nem outras)…

    Saúde

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Parabéns pola entrevista e polo trabalho desenvolvido. E pola poesia (até diria que sobretudo). Transversalidade ou barbárie.

  • Arturo Novo

    “Feminista de esquerdas”. Suponho que técnicamente será possível, mas ainda me falta por conhecer a primeira feminista de direitas.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Adorei a entrevista.
    Ferrenha moça tangue este pgl com mestria .
    Psrabéns e avante toda