Por José Ramom Pichel Campos
E tudo aparentemente mudou de repente, como gostamos de derrotas ou vitórias adjacentes. A questão central é a procura de focos, flashes, cabeçalhos de imprensa, com os dentes brancos, com esse aparente e vazio sorriso de assumir que tudo o que lá a partir da boca, essa mentira reconhecida por todos. Jornalistas que perguntam de metralhadora já prevista, os candidatos descansaram o dia antes cada um no seu lugar de origem, como se isso nos importara. Os políticos acreditam que nos interessam, e isso é acreditar muito, mais do que uma religião a fins de contas.
Parece que já podemos prever um dia antes do reconto final dos votos, qual as reacções, parece um laço continuo, eleição trás eleição, de champanha, de reuniões em hotel, de televisão, de analistas que sabem de tudo, tanto tem falar de física teórica, que de cozinha.
Quando nascerom os primeiros computadores esses enormes como ENIAC, começarom a ser programados polos cartões perfurados, uns cartões parecidos a votos de urna, tinham determinados buracos em determinados lugares, que não eram mais do que por um lado marcar quais eram as instruções que devia executar o computador, e por outro lado que dados (números, caracteres, etc) devia usar.
Por exemplo uma soma de dous elementos poderia ser três buracos, um que correspondia à instrução, outro ao primeiro elemento a somar, e o último o segundo elemento.
E ainda que isto não tenha relação com políticos, eleições, é mesmo possível que isto não deixa de ser uma ocorrência de domingo, acho que efectivamente há uma intuição, um sentimento.
Nas eleições galegas do passado domingo, na mesma que se decidia entre palavras de ordem estupendas, de grandes debates de ideias, de grandes fotos mesmo, pois nesse lugar, a quarta força em número de votos forom os votos em branco. E isto poderia ser uma anedota, mas provavelmente não. Ou seja, fagamos composição de lugar, um domingo de Março um número de mais de vinte mil pessoas forom conscientemente votar, com um cartão em branco como melodia.
É como se a máquina eleitoral for um grande computador que acredita que tudo o controla, calculando e calculando. Só que desta volta muitos galegos e galegas decidirom que sobre ele queriam fazer uma operação de resta, que por aí não se vai. Galiza é um país mais saudável do que contam as crónicas. Um lugar do mundo no que a metade da população quer desprogramar a um governo, com um simples cartão perfurado, em branco, desde logo.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
