Carmo Cozinha: “O problema básico está em que nos foi furtado o estatuto de língua veicular”



whatsapp-image-2022-03-01-at-21-54-091Em 2021 figerom-se 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua oficial na Galiza, passando a ter um status legal que lhe permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, estivemos a realizar ao longo de todo 2021 umha série de entrevistas a diferentes agentes. Agora, entrado 2022, queremos continuar reflexionando sobre isto, mas focando num ámbito em particular, de importância estratégica: o ensino.
Hoje entrevistamos a professora de galego no IES Monte Castelo de Burela, Carmo Cozinha.
Que avaliaçom fás dos resultados do ensino do galego após 40 anos como matéria troncal?
No sistema educativo a situaçom é de progressivo deterioro do idioma próprio do país: a competência de compreensom é aceitável, mas a leitura, a escrita e —nomeadamente— a expressom oral sofrem um claro retrocesso; cada curso que passa, desce a percentagem de alunado que usa o galego como língua veicular; pola contra, o espanhol aumenta paulatinamente os seus usos. O agravamento incrementou-se desde 2010 quando em nome dum suposto cosmopolitismo se deixou o nosso idioma em situaçom de subordinaçom absoluta. Aquelas crianças que  tinham 3 anos em setembro de 2010 entrárom no ensino secundário no curso 2018-19 e agora estám às portas de conseguirem o título de ESO.

E da presença do galego como língua veicular no ensino público?
Reitero o anterior: o galego nos centros educativos padece subordinaçom. É residual nas aulas de infantil em todos os âmbitos (nom só nos urbanos), minoritário nas etapas do ensino primário e secundário e testemunhal em muitos dos ciclos de FP, na docência e nos materiais. A realidade é esta: nom se cumpre a Lei de Normalizaçom porque o alunado nom finaliza a escolarizaçom obrigatória com o mesmo desenvolvimento em ambas as línguas. O mal chamado decreto do plurilinguismo —realmente decreto de monolinguismo, porque o alunado nom melhorou em nada a sua falta de domínio do inglês— serviu de coartada para reduzir a presença do galego nos recintos escolares de titularidade pública. Um decénio depois, o resultado está à vista: os relatórios do IGE e do Conselho de Europa recolhem objectivamente o que já sabíamos. As línguas normais som veiculares nos sistemas de ensino dos seus territórios.

Nom se cumpre a Lei de Normalizaçom porque o alunado nom finaliza a escolarizaçom obrigatória com o mesmo desenvolvimento em ambas as línguas.

Achas que esta presença guarda relaçom com a sua presença como língua ambiental nos centros educativos?
whatsapp-image-2022-03-01-at-21-54-092Na “realidade virtual” em que se move a populaçom adolescente, o galego está out. Certo é que carecemos de rádio-fórmulas, que os videojogos estám noutros idiomas ou que também padecemos subordinaçom no audiovisual —em plataformas como Netflix só se estreou até agora umha série—, mas a chave está em que as famílias de cultura galega mudam de língua para se dirigirem a crianças e adolescentes. Continuamos com a herança da ditadura. Como consequência disso, a mocidade do rural domina completamente as duas línguas e a de âmbito urbano tem muitas dificuldades para expressar-se em galego.

Pensas que deveria mudar algumha cousa no ensino da matéria de Lingua Galega e Literatura?
O problema nom está só na matéria de Língua Galega e Literatura —que, obviamente, deveria ser ensinada dum jeito mais comunicativo—; o problema básico está em que nos foi furtado o estatuto de  língua veicular e que o coletivo docente é incapaz de manter a estabilidade no seu uso mesmo em casos de normas básicas de educaçom como os saúdos e as despedidas. Em quantos centros escolares é habitual começar com o desejo de “bom dia” à primeira hora da manhã?

O problema básico está em que nos foi furtado o estatuto de  língua veicular e que o coletivo docente é incapaz de manter a estabilidade no seu uso mesmo em casos de normas básicas de educaçom como os saúdos e as despedidas.

Qual deve ser o papel do português no ensino? Ampliar a sua presença como segunda Língua Estrangeira? Ser lecionada dentro das aulas da matéria troncal de galego?
Na matéria de Lengua Castellana y Literatura estuda-se a unidade do idioma. Do primeiro ao último conteúdo do temário e da primeira à última linha do livro de texto. As referências à dialectologia som mínimas. Impera a universalidade nas explicaçons teóricas e nos textos selecionados para a leitura. Lê-se Rubén Darío e lem-se Borges e Cortázar… e a Crónica de una muerte anunciada é de leitura obrigatória e habitualmente tem que ser comentada nas provas de entrada à universidade. Porquê nom serve este modelo para o nosso caso? Porquê continuamos com esta incoerência depois de 40 anos de docência? Porquê estám fora de jogo Camões, Ferreira de Castro (o do Emigrantes), Eça de Queirós ou Paulo Coelho? Porquê nom temos umha leitura transversal do tipo O Alquimista ou Juntos temos poder ou Chegámos a Fisterra? O de segunda Língua Estrangeira é um mal menor… embora nom seja nem “segunda” nem “estrangeira”.

Pensas que implementar linhas educativas diferenciadas (umha com imersom linguística em galego) poderia ser útil para o galego voltar aos pátios?
Levo mais de 35 anos trabalhando no ensino público —trabalhei antes no privado e conheço-o desde dentro— e doe-me reconhecer que é um agente desgaleguizador. Se agora mesmo tivesse trinta anos menos e os meus filhos fossem pequenos, procuraria o modelo da Semente. Se nom houvesse umha Semente ao lado da casa, procuraria juntar energias de várias famílias para abrirmos umha na comarca. No momento de me reformar, estaria encantada de colaborar como voluntária.

Que papel atribuis ao modelo educativo inaugurado polas escolas Semente?
As Escolas Semente som a única esperança de sobrevivência da língua no primeiro tramo etário.


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