Em mais um fevereiro, numa sala hiper lotada de público, no hotel Axis-Vermar da Póvoa de Varzim, espaço que junto com o Teatro Almeida Garrett, constitui o epicentro das reunions e das apresentaçons de livros do encontro anual de escritores de expressom ibérica, as Correntes d’escritas, Carlos Quiroga conversou com Sabela Fernández e Daniel Amarelo com motivo do lançamento do seu novo livro de ensaio, publicado em Através Editora: Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa Galego.
O título posto parece sugerir que o tronco da imensa árvore pessoana finca as suas raízes na Galiza… Casualidade? Ou entom, o Fernando Pessoa era galego-português?
Pessoa é e será, quase enjoativamente, do mundo. Quanto às raízes, sim, se entendidas em primeira instância genealógicas, tem sentido chamar de galego-portuguesas, pois na ascendência familiar hai sangue galego. Algo que por outra parte acontece com outros escritores portugueses. O título da publicaçom que isso documenta, como se poderá suspeitar, nom tem nada de casual. O autor teria preferido dar à luz em Portugal, dada a natureza do assunto, e aí para evitar suscetibilidades chauvinistas, inerentes a este tipo de abordagens, o título e a capa seriam mais cautos. Mas acabando por sair antes na Galiza, e sendo essa leitura inevitável, nom tenho pudor e assumir o chauvinismo pareceu-me o coerente.
Todos sabemos que o Fernando Pessoa nom gostava nada de viajar e deixava apenas em raras ocasións a sua Lisboa natal; contudo, o teu livro sobre ele faz-nos viajar trepidantemente no tempo e espaço por causa das tuas pesquisas sobre as origens e a vida do Pessoa e lembra-nos, se calhar, que, subterraneamente, neste ensaio se esconde uma interessante matéria prima para um romance histórico-policial com figura de detetive e caso para desentranhar…
As intençons romanescas motivaram esta aproximaçom, confesso. Depois achei tam fantástica a peripécia do Caetano antepassado galego do Pessoa que tentei fazer um artigo, porque num relato os tugas nom iam acreditar na veracidade e estava interessado em recordar-lhes (porque os dados gerais já tiveram diante durante anos, o próprio Pessoa tinha dito) como a Galiza está na foto. No livro em que isto deu havia maiores marcas desse olhar que apontas, estava em primeira pessoa e contavam-se mais historietas de trabalheiras da pesquisa, em tom de investigaçom realmente policial. O José António Souto, quando me ajudou nas transcriçons paleográficas e viu o texto, advertiu-me que nunca tinha visto isso num livro sério. Entom passei à primeira pessoa do plural e apaguei boa parte das ditas marcas. Nom sei se foi o melhor, mas já está feito e desde logo que ganhou certa gravidade o livro –espero que nom de tijolo…!
Além da procura genealógica das raízes familiares do Fernando Pessoa na Galiza, o livro é um valiosíssimo documento sobre a intrahistória dos heterônimos do Fernando Pessoa: o Álvaro de Campos e o Alberto Caeiro…
Pois tamém acho. Nom é que todo o relativo a essa parte seja absolutamente novo, mas apontar um Caeiro galego como referente real é novo e ousado –um Caeiro cónego da catedral publicamente bem conhecido, especialmente pelas vésperas e posteriores faustos do ano Santo Compostelano, e até parodiado por outros artistas como Asorey em escultura. Tamém é novo e ousado, ainda que mais relativamente porque já fora insinuado, defender que Pessoa publicou na Galiza um texto da campanha do Orpheu, traduzido por Enrique Dieste. Quanto ao resto, como a galeguidade, tanto de Caeiro como de Álvaro de Campos em origem, os dados estavam à vista, mas atenuados quando nom encostados. Reconstruir as relaçons com Guisado e acompanhar o processo de intermediaçom deste talvez resulta algo cansativo na leitura, mas era necessário para pôr em valor e fundamentar bem essa intrahistória galega.
Um local mítico de Lisboa que agora nom existe mas que foi emblemático na vida cultural do Pessoa e o grupo Orpheu, o restaurante Irmãos Unidos gerido por galegos e no qual esteve exposto durante muito tempo o famoso quadro do Almada Negreiros onde se mostra ao Pessoa à mesa com um exemplar do número dois de Orpheu, tem também muito a ver no que diz respeito ao conteúdo do teu livro…
Tem. O Irmãos Unidos, restaurante dos pais do Guisado, era o ponto de encontro central do Grupo Orpheu em Lisboa, e aí nasceu a revista. O Guisado assim o confirma em fontes escritas e até assim se entende na entrevista televisiva de 1973 transcrita no livro. Quando o conflito com o jornal A Capital, os indignados correligionários do chefe do Partido Democrático, ofendidos pola carta de Campos-Pessoa, alusiva ao caso de Afonso Costa e o elétrico, foi o local para onde se encaminharam com intençom de linchamento.
Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa galego nom deixa de se entroncar também com o teu anterior ensaio, A imagem de Portugal na Galiza…
Certamente. O papel de Guisado e a precoz mençom de Pessoa e do Grupo Orpheu em 1914 em Vida Gallega, antes que se editasse a revista, já aparece nesse livro. Os dados já os tinha, o Pessoa galego nom é mais do que a amplificaçom extrema de detalhes aludidos no livro anterior, polo menos na segunda parte. Aquele era mais divulgativo, breve e condensador de séculos de relacionamento galego-português. Este é umha levitaçom budista à volta de umha fava chamada Fernando Pessoa, e já se sabe que os budistas som capazes de ver paisagens inteiras numha fava…!
Até que ponto estamos perante um certo projeto de escrita onde textos, temas e até personagens transitam intertextualmente como acontece também por exemplo com o Peixe Babel, o teu último romance do 2016 onde ressuscitavas ao narrador de Inxalá, o teu romance do 2003 e Prémio Carvalho Calero de narrativa no 2003?
Ahh ressurreiçom nada. Os livros demoram a sair e os seus tempos de gestaçom ficam só aparentemente distanciados. Peixe Babel é quase por completo produzido originalmente na mesma altura de Inxalá, e ainda está na gaveta outro romance que encerra o mesmo projeto. O Pessoa galego está num caso parecido, tem anos de trabalho por trás. Afinal é como indicas, um certo projeto de escrita cria-se de modo complexo e em casos como o meu os temas e textos e personagens passam aos olhos públicos quando e como podem, nom obedecem a necessidades carreirísticas de manter a atençom de um público que agora nom tenho. Nesse sentido as dificuldades de publicaçom ou visibilidade tornam-se certa forma de liberdade.
Levas participando mais de dez anos nas Correntes d’Escritas, um importante espaço de intersecçom e inflexom todos estes anos na escrita da cena ibérica. Como definirias a experiência? Achas que estes lugares som mais que necessários para a literatura galega inserida na Lusofonia?
Imprescindíveis, diria. Devia ser um imperativo sistémico para a literatura galega estar aqui. Ora nom é querer estar, é poder estar e ser convidado a estar que condiciona a presença. Publicar livros em Portugal abriu-me a mim essa porta a partir de 2003, e sinto certa obrigaçom em continuar acatando os convites, apesar do desgaste e até de certo cansaço, porque eu nem podo nem quero arcar com tal representatividade. Espero que a literatura galega se mova no sentido de possibilitar a presença numerosa e mais continuada doutras e doutros representantes. Eu nom som ninguém na Galiza e abruma-me estar jogando em primeira divisom nas Correntes, participar nos júris do seu prémio, até por três vezes, moderar ou participar em mesas, ir às escolas portuguesas, quando deste lado do Minho nada disso tivem nem terei nunca. Nesse sentido é umha experiência estimulante, mas paradoxal a e desconcertante, porque eu som mais retraído do que estes eventos me obrigam a ser. Estar nisto, como os da Através teredes fugaz oportunidade de catar, só pode causar certo deslumbramento lógico, superior em alguém que recebe aqui o afeto e normalidade no campo literário que a sua terra nom dá.
Nesse sentido, qual está sendo o feed-back da tua apresentaçom do Raízes de Pessoa na Galiza. O Pessoa Galego durante esta semana intensa e efervescente de cultura das Correntes d’escrita?
Só se fala noutra cousa nas Correntes…! Essa a frase de um amigo músico brasileiro. Em sério, será prematuro dizer. Digerir tanta novidade de vários continentes demora e este livro ainda nom se leu ou avaliou com calma. A amizade e a cumplicidade dá primeiros retornos de brincadeira e obviamente positivos, mas é evidente que nom contam. Receio do natural chauvinismo que talvez coloque algumas reservas em Portugal, mas de princípio a curiosidade de intelectuais e da mídia nom se inibiu, ao contrário, mostraram interesse e simpatia.
A palestra que moderaste este ano no teatro Almeida Garrett da Póvoa para as Correntes d’Escritas contava com a participaçom do Miguel Real, Abraão Vicente, Alberto S. Santos, Hugo Mezena e Isabel Rio Novo e levava como título “Escrever é um acaso de circunstâncias”. Ali exercias como mestre de cerimônias e ouvimos os outros falarem das suas circunstâncias de escrita… Quais som propriamente as tuas, Carlos?
O círculo próximo, do que a Através e quem vai ler isto fai parte, mais ou menos sabe ou intui. Dá-me de comer um trabalho com a literatura do lado professoral, que apesar de mudanças bolonhesas e escasso pessoal com talento interessado me continua a moderadamente encantar. E ao mesmo tempo sinto desde sempre que a tarefa universitária tem um lado esterilizante, de maneira que por fora disso tenho umha causa, que tem a ver com língua e país, e acompanhando tudo e desde que me lembro escrevo. Por necessidade, por inadaptaçom, por vontade mais bem íntima de entendimento e partilha. Algo que tem pouco que ver com o mercado e a Literatura tal e como hoje é, ultrapassados romantismos acerca de como ela funciona e que eu conheço perfeitamente. Que acabe por ser editado e lido por outros por fora do círculo íntimo é diferente, e tem bastante a ver com tal causa, e cada vez menos (na madurez em que me acho) com a remota necessidade adolescente de um carente se afirmar. Já escrevo menos, já me desescrevo mais. Ainda que algo carente sempre me vou sentir.
Desde o teu primeiro poemário, G.O.N.G. – mais de vinte poemas globais e um prefácio esperançado, publicado pola AGAL no ano 1999, qual dirias que é, agora mesmo, o posfácio esperançado do Carlos Quiroga após quase vinte anos de escrita global lusófona?
O ‘posfácio esperançado’ do G.O.N.G. (por certo, em Artábria) tinha algo de frikada futurista, afinal algo lúcida em prever que determinado partido político atingiria poder e fracassaria em determinado propósito, parábola da falência geral em mudar o mundo. Um prefácio atual seria igual de esperançado… na ironia: os poderes de sempre acabam hoje de reconhecer a doença, sobre o uso da nossa língua neste espaço já nom cabe outra opiniom que a apocalíptica. Mas em contrapartida a proposta histórica das Irmandades da Fala que recolhe o reintegracionismo nunca tiveram saúde nem vigor maior. Vamos ficar só nós, o mar (tempestuoso), o barco (a naufragar), e nós (a marinhar e apontar o único porto de abrigo). Estruturas legais como a Lei Paz Andrade seriam potentes e imprevistos instrumento de navegaçom vinte anos atrás, mas andam aí ainda demasiados grumetes a querer esconder a sua ambiçom de lucro e capitaneio preferindo que o barco naufrague e abafe os seus erros e pecados. Vós distribuídes livros em Portugal, a troca e a vida cultural conjunta nunca foi maior e melhor, nada devemos a essa gente para quem a história irá atribuir os versos duros de Pondal. Aquilo de ignorantes, férridos e duros, imbecis e escuros. Ao contrário, temos sido bons e generosos e ainda queremos que se salvem no mesmo barco. Mas, por favor, fora as suas sujas maos do leme. O posfácio esperançado (e irónico) é que nós continuamos a ter razom, é um grito, mas as vias de água som enormes e essa tropa filibusteira ainda se pode redimir, pode deixar de assediar e estorvar, mas até pode tamém ajudar.


