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AUGUSTO CASIMIRO, O POETA TAGOREANO DE AMARANTE

Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 126 da série geral, a um surpreendente poeta, memorialista, tradutor, jornalista e escritor nascido em 1889 na formosa localidade de Amarante, terra também de Teixeira de Pascoaes, que banha o rio Tâmega. E dizemos surpreendente porque sendo militar como foi, chegando à categoria de capitão do exército português, destacou como literato e mesmo foi um grande tagoreano. Com este depoimento, dedicado a Augusto Casimiro dos Santos, completo o número catorze da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

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Oficial do Exército, memorialista, cronista, poeta, ensaísta e tradutor, Augusto Casimiro dos Santos nasceu a 11 de maio de 1889 em Amarante, localidade onde fez os estudos primários e liceais. Aos 16 anos assentou praça no Regimento de Infantaria de Coimbra onde também frequentou os estudos universitários. Concluiu o Curso de Infantaria da Escola do Exército em 1909.

Estreou-se como poeta em 1906, com o livro Para a vida, iniciando pouco depois a sua colaboração regular na imprensa periódica (A Águia, Alma Nova, Amanhã, Atlântida, Azulejos, Boletim Geral das Colónias, Coimbra dos Poetas, Conímbriga, Cultura, O Diabo, Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Domingo, Gente Nova, Gente Nova, Ideia Livre, Ilustração Popular, A Manhã, Mocidade Africana, A Nossa Revista, Notícias da Madeira , Panorama, Portas do Sol, Portucale, Portugal em África, Província de Angola, A Rajada, A Revolta, República, Serões, Seara Nova, de que foi cofundador, em 1921, e diretor entre 1961 e 1967, Tempo, Tradição, Tríptico, A Vida, Vida Portuguesa e A Vitória.

A sua participação na Campanha da Flandres (1917-18), durante a Primeira Guerra Mundial, de que resultaram os livros Nas Trincheiras da Flandres (1919) e Calvários da Flandres (1920), valeu-lhe várias condecorações (Cruz de Guerra, fourragère da Torre e Espada, Ordem de Cristo, medalha de Ouro de Bons Serviços, Military Cross, Legião de Honra, Ordem de Avis e Ordem de Santiago).

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Foi professor no Colégio Militar, Governador do Distrito do Congo e Secretário Provincial e Governador interino de Angola (1923-1926). Escreveu várias obras, entre ficção e ensaio, sobre temática de carácter colonial, tendo mesmo sido por duas vezes galardoado com o Prémio de Literatura Colonial.

Republicano e opositor ao Estado Novo, envolveu-se na Revolta da Madeira (1931), esteve preso na Ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, regressando a Lisboa em 1936. Em 1937 foi reintegrado no Exército Português, na reserva. Fez parte do Movimento de Unidade Democrática (M.U.D.) em apoio à candidatura presidencial de Norton de Matos (1949) e, em 1958, foi membro da comissão central da candidatura de Arlindo Vicente à presidência da República.

Amigo de Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão (de quem era cunhado) e Raúl Proença, foi um poeta voltado para temas marítimos, patrióticos e amorosos, eivados de religiosidade, saudosismo, amor à vida e aos valores tradicionais. Usou o pseudónimo de Maria de Castro na primeira série de A Águia. Faleceu em Lisboa, à idade de 78 anos, em 23 de setembro de 1967.

Entre as suas mais importantes atividades temos que resenhar que fez parte do grupo que fundou a revista Renascença Portuguesa em 1912 e, dez anos mais tarde, fez parte do grupo que lançou a revista Seara Nova, que dirigiu entre 1961 e 1967, e ainda se continua a publicar hoje na cidade de Lisboa.

   

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. Sobre a intervenção de Augusto Casimiro em Flandres na 1ª Grande Guerra europeia.

     Duração: 5 minutos. TVU (2017).

     Ver aqui.

  1. Apresentação da revista Seara Nova por Levy Baptista.

     Duração: 7 minutos. Ano 2018.

     

  1. Apresentação da revista Seara Nova por Luís Crespo de Andrade.

     Duração: 41 minutos. Ano 2018.

     

  1. A lindíssima cidade de Amarante.

     Duração: 10 minutos. Ano 2018.

     

  1. Amarante-Portugal.

     Duração: 10 minutos. Ano 2018.

     

 

AUGUSTO CASIMIRO, UM GRANDE TAGOREANO

Nascido em Amarante, localidade que era a cidade natal do grande poeta Teixeira, fez os seus estudos primários e secundários na mesma. Fez depois estudos universitários em Coimbra, graduando-se também na mesma cidade em 1909 na carreira militar de infantaria do exército. Três anos antes já se revelara como cronista e como poeta. Em 1910, com a promulgação da República em Portugal, aderiu às ideias republicanas de imediato. Que sempre defendeu, opondo-se em 1926 à ditadura militar, pelo que foi expulso do exército e, entre 1933 e 1936, desterrado a Cabo Verde. Manteve sempre viva a oposição ao Estado Novo e, por isto, integrou-se no MUD, a que também pertenceu, como já dissemos, Caraça.

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Teve grande atividade literária, publicando em múltiplos jornais, destacando em especial as suas colaborações nas revistas A Águia e Seara Nova. A sua obra é vasta, incluindo poesia, prosa, ficção, ensaio histórico, memorialismo e estudos e artigos sociopolíticos. Foi grande amigo de Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão e Raul Proença. Admirador de Robindronath Tagore, especialmente da sua poesia, foi o tradutor de diversos poemas tagoreanos para o idioma português. Traduzido por ele já se publicou na revista Seara Nova de Lisboa no seu número 124 de 1929 um poema de Robindronath com o título de “Um soneto de Tagore”. Na mesma revista, dez anos mais tarde, em 1939, aparecem publicados, traduzidos por Casimiro, os poemas de Tagore titulados: “Farei tudo”, “Há muito que dura a viagem”, “Nauchini” e “Se fores o silêncio”. Estes e outros poemas tagoreanos foram publicados, com prefácio e tradução de Augusto Casimiro, com o título de Poesias: o músico e o poeta, em 1939, pela Seara Nova de Lisboa, num volume da série “Cadernos da Seara Nova-Estudos Literários”. Trata-se de uma antologia com poemas de A lua nova/Sissu, Gitanjali e O Jardineiro/The Gardener. Mais tarde, já em 1943, com introdução, seleção e tradução de A. Casimiro, é publicado pela editorial Confluência de Lisboa, uma antologia poética de Tagore com o título de Poesia, sendo o número 2 da coleção “Antologia de Autores Portugueses e Estrangeiros”. Esta antologia acolhe poemas de amor e da vida de O jardineiro (Le jardinier d´amour/Mali), de Gitanjali (L´Offrande Lyrique), poemas da infância de A lua crescente (La jeune lune/Sissu), outros poemas de A fugitiva (La fugitive/The fugitive), várias canções tagoreanas do livro Chansons de R. Tagore e alguns fragmentos do livro Cartas a um estrangeiro (Lettres a un ami), de correspondência entre Tagore e C. F. Andrews.

Com motivo do centenário do nascimento de Tagore, em 1961, Augusto Casimiro publica um interessantíssimo artigo, com o título de “Tagore e os poetas da Renascença Portuguesa”, na Colóquio-Revista de Artes e Letras nº 15 de outubro de 1961, páginas 57 a 59, editada em Lisboa pela Fundação Calouste Gulbenkian. No mesmo, este tagoreano, entre outros temas, comenta o apreço que tinham a Tagore e à sua obra literária, nomeadamente poética, os poetas e escritores que configuraram a “Renascença Portuguesa”, sociedade criada, após a instauração da República, no Porto, em 1911-12, com o objetivo de promover a cultura do povo português, e conseguir uma sociedade com valores democráticos, e uma política sem violência, por isso de Tagore sentiam-se atraídos pelo seu pacifismo, o seu internacionalismo e a sua ideia de autogoverno.

“De Tagore sentiam-se atraídos pelo seu pacifismo, o seu internacionalismo e a sua ideia de autogoverno”

Na sua etapa mais dinâmica, este grupo levou para a frente um projeto de promoção da cultura nacional, com publicações várias, fundação de universidades populares, realização de cursos e colóquios e constituição de bibliotecas para o fomento da leitura. Como órgão dos trabalhos e do seu ideário teve a revista A Águia, de literatura, filosofia, ciência e crítica social, publicada no Porto de 1910 a 1932. O principal mentor do movimento e da revista, até 1916, foi Teixeira de Pascoaes – aliás, também grande amigo de Vicente Risco, o tagoreano da Galiza – com a sua teoria do saudosismo. Leonardo Coimbra foi depois o continuador, e outra das figuras importantes tinha sido Jaime Cortesão. Outros destacados escritores do movimento foram Mário Beirão, Afonso Duarte, António Carneiro, Sant´Ana Dionísio, Hernâni Cidade, Casais Monteiro, Augusto Gil, Lopes Vieira, Raul Proença, António Sérgio, Correia de Oliveira, Sampaio Bruno, Manuel Laranjeira, Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa e o próprio Augusto Casimiro.

A vida, obra e pensamento do grande Tagore, como já comentámos, respondia muito bem aos interesses culturais e à sensibilidade humana de todos os citados. Por pequenas divergências, e por querer estar mais em consonância com os tempos e com as correntes modernas do pensamento europeu naquela altura, Sérgio, Cortesão e Proença abandonam o grupo para criar, agora em Lisboa, a revista Seara Nova em 1921. Aos quais se vão agregar também, entre outros, Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, Faria de Vasconcelos, e também o tagoreano Augusto Casimiro, de quem falamos nesta secção do nosso estudo. E que, no seu momento, expressou a sua reverência para os pensadores indianos Vivekananda, Aurobindo Ghosh, Gandhi, Ramakrishna e, em especial, Tagore. Aos quais chegou a comparar com Romain Rolland e Tolstoi.

DEPOIMENTO DE AUGUSTO CASIMIRO DEDICADO A TAGORE

   

“TAGORE E OS POETAS DA RENASCENÇA PORTUGUESA”

Por Augusto CASIMIRO

(Colóquio-Revista de Artes e Letras nº 15, Outubro-1961)

 

 No Centenário de Rabindranath Tagore.

Celebrando-se este ano o centenário de Rabindranath Tagore, quisemos arquivar nestas colunas com o depoimento de um escritor que durante largo tempo viveu na Índia, o de um dos poetas que mais ilustraram o movimento da Renascença Portuguesa, que ao grande génio hindu prestou um culto em que alguma coisa estremeceu de fraternal, no idealismo religioso, nacional e humano.

Vejo, em fotografia que tenho presente, o Poeta do Gitanjali ao meio de dois Homens: Gandhi e R. Rolland. No segundo plano, três grandes e puríssimas figuras: – Ramakrishna, Vivekananda e Aurobindo Ghose. Sobre estes, no céu da Índia, uma Aurora rompendo…

Ramakrishna e Vivekananda são os pioneiros e os semeadores, os Homens da Missão. Esta vem de longe. Eles retomaram nas puras mãos o facho milenário. Tagore e Gandhi toma-lo-ão nas suas. Todos Irmãos no Amor da Índia e da Humanidade, Gandhi porém, das mãos de Ramakrishna, recebera a espada invencível da Não-Violência. Será o Arcanjo invencível.

Agosto de 1905. Bengala revolta-se. – Bandès Mataran! – Salvé, Pátria-Mãe! Na primeira linha do combate, coroando, sublimando o espírito dos seus cantos transfigurados em actos de resgate, Poeta, Orador e Político, está Rabindranath Tagore. Quando, porém, a violência avulta, o Poeta não deserta, retira-se. O seu refúgio é Santiniketan. Entretanto Kali, a Deusa e Mãe encarnou – é a Índia-Mãe. Tagore e Aurobindo estão próximos. Conhecem a cultura do Ocidente, comungam os princípios que são a herança, o Evangelho-Maior de Vivekananda e Ramakrishna. Aurobindo proclama: “-O despertar do verdadeiro Eu duma Nação é a condição essencial da sua verdadeira grandeza.

A ideia suprema indiana da unidade de todos os homens em Deus, a realização desta ideia, fora e dentro da Nação, nas relações sociais e na estrutura da sociedade, estão destinadas a governar o género humano. – A Índia, se o quiser, pode guiar o mundo”.

E Gandhi? Gandhi deu-se à tarefa primeira e necessária, à libertação da Índia, para que se realizasse o seu alto Destino. Mobilizaria um exército. Dar-lhe-ia uma arma: – a Não-Resistência. – Quem lho ensinara? Cristo, por intermédio de Leão Tolstoi?

Tagore e Romain Rolland querem ficar au-dessus de la melée, aquele na sua Índia, este no mundo conturbado e sangrento de 1914-1918. Quando chegar a sua hora, Gandhi ganhará a sua batalha. E a Índia será livre para realiza5r o seu destino melhor.

Romain Rolland e Tagore, a sua política de aproximação e entendimento facilitaram a independência da Índia; não a apressaram, porém.

Tagore foi um permanente suscitador de optimismo e enternecida solidariedade entre os homens, entre as Nações. Dame Sybil Thorndike falou-nos há pouco da sua amorável comunicabilidade. Em qualquer ponto em que se encontrasse, como a sua Arte, a sua pessoa irradiava uma influência catalizadora ou confirmadora dos méritos influenciados.

Pede-nos Hernâni Cidade lembremos a presença espiritual e a influência do Poeta entre os poetas nossos companheiros da Águia, e na Seara Nova das primeiras séries. Da Águia, órgão da Renascença Portuguesa, separam-nos quase cinquenta anos. Leonardo Coimbra e Jaime deixaram-nos. Somos vivos poucos. Mário Beirão é um deles e dos maiores. Éramos diferentes e iguais no amor a Portugal e à Humanidade. Da influência porventura exercida, depois de Tolstoi, sobre alguns de nós, podemos citar a de Tagore, que começamos a conhecer então. Sem ela mesmo, o lirismo de Cortesão, o grande Poeta da Glória Humilde, o poder humano de enternecida, profunda comunhão universal em Leonardo, podiam preceder essa influência. Pascoais era um universo em criação e descobrimento permanente. Trazia em si o poder bruxo, misterioso, que o punha sempre à altura dos maiores.

As dádivas que estes lhe faziam confirmavam apenas os seus pressentimentos ou as suas certezas.

Não posso fixar uma data ao nosso encontro com Tagore. Logo a seguir à morte de Tolstoi? O mais largo e íntimo foi logo depois da primeira Grande Guerra, cinco anos depois daquela “Hora de Nun´Álvares”, a que chamámos do Desencanto de Galaaz.

A esperança traída renascia. Através de Romain Rolland encontrávamo-nos com Ramakrishna, Vivekananda, Aurobindo Ghose, Tagore e Gandhi.

Eles foram, depois dos Calvários da primeira Grande Guerra, e para os melhores obreiros da Seara Nova, continuadora num mais alto plano político do pensamento da Renascença, o que o Mestre da Justiça ou o Nazareno dos Evangelhos foram para os seus discípulos. Confirmavam e fortaleciam, iluminavam a nossa Fé nos Destinos do Mundo.

Traduzimos poemas de Tagore. Publicámos e prefaciámos duas pequenas Antologias Tagoreanas.

Rabindranath Tagore servia de Homem Universal. Era contra os Nacionalismos que mal servem as Pátrias, ofendem o humano e atraiçoam o destino histórico das Nações.

Tagore ama a Índia-Mãe. Seu pai, Debendranath Tagore, colaborara na luta pelo renascimento da literatura bengali, reagira contra o propósito de imporem à Índia a língua inglesa e contra a deformação ou mutilação do espírito original bengali. Fora, com Mohan Roy, um dos paladinos daquele renascimento. Aderira ao Bramo-Samaj, movimento que visava a maior unidade entre os povos hindus.

Mas Rabindranath não tem apenas diante de si o caminho que lhe abriu o Pai. O carinho materno ajeita-lhe, excita a sua alma de Poeta e embala, e enriquece o milagroso património milenário.

Dia a dia, cada vez mais amorável e religiosamente, a Natureza prende-o pelos seus mistérios, e à criança, preparando o Homem sem desmenti-la, deixa-a suspeitar, saber o que a transcende, revelando ao menino bem-embalado a harmoniosa unidade da vida que, no adolescente, no Homem, será consciência atuante, fonte viva de música e poesia.

“Das minhas longínquas recordações, – escrevia Tagore lembrando -, sei que amava apaixonadamente a Natureza. Ah! Sentia-me louco de alegria ao ver subir, cada vez mais alto as nuvens uma a uma, no céu! Adivinhava à minha roda, desde os mais tenros anos, uma presença, uma companhia, intensa, viva e íntima, que não sabia como nomear…Um amor pela Natureza que ainda hoje não tenho palavras para definir. Ela era-me uma companheira, sempre comigo e, a cada dia, revelando-me uma nova beleza”.

Tinha doze ou treze anos, quando, sob a influência de Chandas e Vidyapati, escreveu os primeiros versos…Tudo é para ele uma revelação. Estudante em Calcutá, na Free School Lane, ouve a música das coisas. “Todas as coisas eram para mim luminosas”, – escrevia a um amigo. Dissipava-se o véu que lhe encobria a verdadeira realidade…“…Todos, mesmo os que me aborreciam, parecia terem-se emancipado da barreira exterior da própria personalidade…Sentia-me cheio de alegria, de amor por todos, por todas as coisas, até as mais pequeninas…”

Aquela manhã foi mais que o momento mais alto da sua Estrada de Damasco…Na Free School Lane, em Calcutá…Nascia o Sol…

“O mundo pareceu-me envolto numa inexprimível glória, em que ondas de alegria e beleza se abriam caminho por todos os lados. O pesado sudário de dor que envolvia o meu coração foi trespassado dum lado ao outro pela Luz do Universo. Parecia-me, na integralidade da minha visão, ver os movimentos da massa humana, sentir a cadência musical, o ritmo duma canção mística…”

Conheceu a Inglaterra. Por duas vezes, a primeira aos dezassete anos, aos dezanove depois. Casou aos vinte e três. Regressa com seu mundo à sua terra. Vive, oficia no altar mais próximo do seu Amor, – Shileida,- nas margens do Ganges. Mas a sua Catedral vai da Índia ao Mundo. Lança raízes na terra materna. Conhece e padece no seu coração os Calvários da Índia, o valor e a dor das vastas multidões humilhadas e ignoradas “que formam a massa da Vida, sustentam todas as Civilizações e suportam todos os fardos…”

Canta, reza, luta por elas. A massa dos homens que sofrem, que lutam, é grande no seu patético, no seu estado latente de infinito poder. Sabe que à sua função de Poeta cabe o dever sagrado de acordar nos homens a consciência do sentido divino da existência, o poder maravilhoso, libertador do Amor…Porque o Homem é divino e é através do Homem e das suas obras que se realiza e afirma Deus… …Que é na personalidade humana que Deus toma consciência de Si? “ – A Consciência recria o Mundo…”

Em Tagore o Homem, o esposo e o Pai sofrem uma nova orfandade. Viúvo, vê morrer duas filhas. A dor, por maior, para os Grandes nunca é o caminho do desespero, dirá um Poeta…Tem quarenta anos. Fizera um retiro religioso em Shantiniketan, no convento fundado por seu Pai e junto do qual funciona uma Universidade em que convivem Homens do Ocidente e do Oriente. Sofre? A dor exalta-o. Mais alto! Mais além! Escreve o Gitanjali. A Índia – Mãe divina – o Mundo, a Nação e a Humanidade não limitam, sublimam a plenitude da Vida. Renascera para uma fé mais forte e para um novo combate. Para ele o verdadeiro objetivo humano “deve ser a Liberdade que nos dá a Verdade através da Paz atingida pela conquista e domínio do Eu, na bondade e no Amor que é a Unidade com o Todo e com Deus…” “O Homem só no perfeito Amor descobre a Liberdade do seu próprio ser…”

Mais tarde dirá a Einstein: “-A Beleza está no ideal da perfeita harmonia com o Ser Universal!…O Homem atingindo a Beleza e a Bondade atinge a perfeita libertação…”

“O seu amor à Índia, – escreveu Jean Hebert – não é, porém, um agressivo e cioso patriotismo. Mergulha as suas raízes numa consciente e clara compreensão de tudo quanto a Índia deu de riqueza profunda à Humanidade”. Tagore deseja, perante o Ocidente perturbado e esquecido dos valores da Alma, “que os raios do Ideal que brotam do Oriente e do Ocidente se misturem”, enriquecendo o Mundo.

À Índia, pensavam alguns entre os seus melhores filhos, impunha-se, porém, em prévio passo imediato: – o da sua independência política. Gandhi foi o Homem da luta necessária. E a não-violência foi mais forte do que a violência da guerra.

Concluamos, revertendo à interrogação amiga de Hernâni Cidade sobre a influência de Tagore em alguns dos colaboradores da Águia e da Seara Nova. Os que conheciam e admiravam o Poeta do Gitanjali robusteceram, sublimaram o seu humanismo, seguindo o grande exemplo. O nosso patriotismo, fiel, atento ao das mais altas horas portuguesas, vivia, tinha um sentido de Universalidade. Servia a divisa: – Ao Serviço de Portugal e do Mundo. O amor a Portugal, neles, integrava-se, exaltando-se, no amor a todos os povos da Terra. Conciliaram, na sua ideologia e nos seus actos, a lição de Tagore e a lição de Gandhi. Não aceitaram inteiramente, alguns, a de Romain Rolland…Estiveram em corpo e alma, ao serviço de Portugal e do mundo, e sem pecado, na mêlée, acima dela, combatendo pela Pátria e pelo Futuro.

(Artigo em Colóquio-Revista de Artes e Letras nº 15-Outubro de 1961. Pp. 57-59. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Editor: António Da Costa Isidoro).

 

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Augusto Casimiro dos Santos, importante literato de Portugal. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que participem estudantes e docentes. Antes escolhemos para a sua leitura alguns dos livros publicados por Augusto Casimiro, que foram muitos. Pode ser interessante, pela sua atualidade, o intitulado À Catalunha, que publicou pela primeira vez em 1914. Mas também A evocação da vida (1912), Oração Lusíada, Os portugueses e o mundo, A educação popular e a poesia (1922), A vida continua (1942), Portugal na História (1950), Angola e o futuro: alguns problemas fundamentais, e, especialmente, Obra Poética de Augusto Casimiro, com prefácio de José Carlos Seara Pereira, publicada em Lisboa em 2001 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

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