PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

As mentiras que nos contaram sobre o Reino de Galiza



É difícil imaginar uma tortura mais inumana que obrigar um rapaz de 12 anos a memorizar todos os reis da Espanha desde o último rei visigodo, Dom Rodrigo. Após ter sofrido aquela tortura na escola, lembro ter jurado não querer saber nada sobre esses reinos cheios de parricidas e psicopatas, prometim nunca mais ter que ler essa lista infinita de reis do período medieval, que se confunde hoje com os terroríficos nomes das versões beta do software de Linux.  Porém, este mês agosto quebrei a minha promessa e comecei a ler as novas interpretações históricas daquele período. Recomendo vivamente a leitura das obras do historiador Anselmo López Carreira, assim como as de Camilo Nogueira ao respeito da história da Galiza no período medieval. Uma delícia. Segundo estes e outros autores, a nossa história medieval foi silenciada e desprezada pola historiografia espanhola decimonónica, nomeadamente por Modesto Lafuente e Menéndez Pidal, cuja versão tendenciosa foi continuada por Claudio Sánchez Albornoz até chegar aos atuais livros de texto que estão a moldar o inconsciente coletivo de todas as que vivemos com naturalidade o revisionismo histórico do nacionalismo espanhol.

O nacionalismo espanhol pretendeu e pretende afundar as suas raízes na monarquia visigoda e nos simpáticos e valerosos astures, com Paio à cabeça, mas tivo que ocultar sem pudor que por ali estava também o reino suevo-galaico que derivou no único espaço político não controlado polos emires árabes de Córdova: o Reino da Galiza, no qual se inseriam os territórios dos reis e senhores astures que deram lugar ao mito de São Paio e da mal chamada Reconquista.

Fago um breve repasso histórico. No século III, os romanos atribuíram oficialmente o nome de Gallaecia à província que ocupava o noroeste da Península Ibérica. No ano 410, constitui-se sobre ela um Reino independente, o primeiro da Europa medieval, governado polos reis suevos, que foram os primeiros reis germânicos da Europa em se converterem ao catolicismo. Na segunda metade do século VI, o reino tivo contactos com os bizantinos e estendeu-se do Cantábrico até Lisboa. Vale a pena ler os conselhos de caráter senequista de Martinho de Dúmio, intelectual da época, para se dar conta que aquele reino não era uma banda de guerreiros e labregos incultos. A historiografia espanhola considerou que os visigodos eram mais cultos e mais católico-apostólicos que os suevos, pois a linhagem dos reis castelhanos provinha miticamente dos últimos reis visigodos. Não quigeram ver que os primeiros concílios da era pós-romana foram celebrados em Braga e Lugo, no reinado suevo. Isso não condizia bem com o relato mítico que estavam a construir. Os suevos e galaicos nunca tiveram qualquer tipo de protagonismo na história da Espanha. Sempre foram, são e serão periferia.

Anexado polos visigodos no 585, o reino suevo não perdeu a consciência de ser um Reino, e assim ficou como única entidade independente frente ao novo emirato islâmico que se criou em 711. Os mapas dos historiadores medievais, tanto árabes como carolíngios, revelam uma península dividida em duas entidades políticas: a Hispânia, baixo o emirato de Córdova (Al-Andalus) e o Reino da Galiza, herdeira da tradicional Gallaecia romana e do Galliciense Regnum suevo. Galiza é, portanto, a única realidade política cristã da península nessa altura. Leão e Astúrias eram daquela territórios da Gallaecia, embora a historiografia tradicional chamasse de jeito falaz Reino de Astúrias ou de Leão a essa entidade política.

A estrutura desta entidade política é, em termos matemáticos, algo semelhante a um grafo acíclico onde os arcos são relações de vassalagem (ou dependência) entre vértices que se correspondem com nobres, condes, reis, bispos, comerciantes, labregos, sendo o rei de Leão (antes de Oviedo) e o arcebispo de Santiago os vértices do grafo que recebem mais ligações de vassalagem, quer dizer, os vértices-raíz de que dependem o maior número de vértices. Trata-se portanto duma rede hierárquica, como muitas outras que se teceram no complexo universo da época medieval. Nesta rede de dependências de vassalagem, o rei de Leão não é o rei do Reino de Leão, como quijo fazer-nos crer a historiografia tradicional, mas o rei da Galiza com capital em Leão. De facto, a maioria dos reis, até o século XII, foram coroados em Compostela e mui provavelmente, todos falavam galego na Corte, nas dioceses e na intimidade. Do ponto de vista comercial, a Galiza sempre virou cara ao Atlântico, frente a outros contrapoderes peninsulares. A partir do XII, com a presença de Castela como nova entidade política emergente, começaram a marcar-se diferenças entre os diferente territórios do Galliciense Regnum: o condado portucalense independiza-se e a região oriental asturo-leonesa, arredor de Astorga e Leão, quebra muitas das suas dependências de vassalagem com a região ocidental (a atual Galiza) e começa a falar-se do Reino de Galiza e Leão, embora ainda seja uma única realidade política durante mais dous séculos.

Recentemente, caiu nas minhas mãos um dos gigantescos tomos da História de Galicia, nomeadamente o tomo II da enciclopédia, focado na época medieval, e escrito há mais de duas décadas polos catedráticos da Universidade de Santiago, María del Carmen Pallares e Ermelindo Portela. Desde que lim os livros heterodoxos de López Carreira, já ouso mergulhar nos enfastiantes volumes da história medieval com outros olhos. Nesse volume, encontrei nas primeiras páginas erros e contradições provocados por seguir a esteira da historiográfica tradicional espanhola. Por exemplo, os autores afirmam primeiro que a “Galicia do 700 e das centurias seguintes […] seguía sendo herdeira da Gallaecia criada coa reorganización administrativa tardorromana de Diocleciano e da Gallaecia que ocuparon os Suevos”, mas duas páginas depois situam a monarquia astur fora da Galicia: “Pero á diferencia das terras situadas ó norte da Cordillera Cantábrica [o reino de Asturias] nas que se estaba formando o novo núcleo de poder, Galicia si experimentara en considerable medida a romanización”.

É claro que se Galiza é Gallaecia e Gallaecia contém as Astúrias, não pode haver um novo núcleo de poder alheio à Galiza. Esta escolástica contradição é a base do mito do rei Paio e da Reconquista, que permitiu ligar os reis castelhanos/espanhóis com os primeiros reis cristãos. Deste jeito, o relato revisionista permite explicar a criação da nação espanhola de jeito mui natural seguindo a linearidade seguinte: visigodos – astures – leoneses – castelhanos – espanhóis, povos irmãos que lutam como uma única nação frente ao malvado emirato/califado árabe. O reino da Galiza fica fora desta estirpe nacional, pois a Galiza é realmente o principal contrapoder a Castela no alto medievo, que quebra esse lindo alinhamento onde todos os (proto)-espanhóis lutam juntos contra os mouros. Em consequência, no relato revisionista, Galiza é rebaixada a um ente periférico dentro do inexistente Reino Asturo-Leonês. Um outro erro que encontrei no volume acima citado vai também nesta mesma direção. Nas páginas em que descrevem o reino suevo, os autores dizem que este povo se converte ao cristianismo no século V. Isto semelha ser falso. Os suevos, como os visigodos, eram arrianos e, portanto, cristãos. O que acontece nessa altura é que abraçam o catolicismo formando, como dixem anteriormente, o primeiro reino católico da Idade Média europeia. O sentido do erro é claro: os suevos era um povo pagão e bastante bruto que demorou um anaco em fazer-se cristão como dios manda. Os visigodos, esses sim, eram bem apostólicos desde o princípio, por isso foram situados no alicerce da nação espanhola. É bem triste que os nossos historiadores galegos mantenham o relato revisionista da historiografia nacionalista espanhola. Um sintoma evidente de que somos um povo domado e bem domesticado.

É hora, portanto, de reivindicar os nosso queridos psicopatas medievais, tão cruéis e assassinos como os castelhanos, mas que não merecem ficar na periferia mental do nosso inconsciente coletivo. Houvo uma nação no noroeste peninsular que lutou por ser uma entidade política e comercial de raízes atlânticas. Talvez algo fique daquela entidade nacional no espírito das marés galegas cidadãs que hoje emergem, viradas cara ao Atlântico e afirmando-se frente ao poder hegemónico dos reinos mediterrâneos contemporâneos.

 

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
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  • Ernesto V. Souza

    Não apenas, é hora de entender que os pérfidos Castelhanos, apenas somos nós… 😉

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Bom e útil resumo, caro.

  • Louredo

    Parece ser que a invasión musulmá desestruturou as terras cristiás e é onde xurde o poder de Oviedo, especialmente o eclesiástico, que estará en litixio moito tempo por terras de Lugo, mesmo até 1954 cando algunhas parroquias de leste de Lugo volven a el. Algunhas terras pasarás a ser definitivamente asturianas como o Eo-Navia.Un episodio interesante é a conquista do poder por parte de Ramiro I coa axuda de tropas galegas, pregúntome se iso non pode explicar moitas cousas e isto independentemente do que diga V. Esparza, periodista de Vocento, a COPE, o Grupo Intereconomía e que dirixiu La Gaceta,na súa novela “El Reino del Norte”

    • Paulo Gamalho

      Obrigado, Louredo. Segundo o que tenho lido, os musulmanos tomaram o poder de todo o reino visigodo, em mãos de Rodrigo, exceto da Gallaécia, que apoiou o rival visigodo de Rodrigo para herdar o poder: Vitiza. Os musulmanos tinham mais simpatia por este último e, portanto, eram dalgum jeito aliados dos galaicos. Esta pode ser uma das razoes para que a Gallaecia ficara fora do domínio do novo Emir de Córdova. Deste jeito, a península ficou dividida em duas unidades políticas: a Hispania musulmana e a Gallaécia cristã. Não houvo uma desustruturação da Gallaécia. Oviedo e depois Leão foram as capitais galegas do reino cristão. Anselmo L. Carreira enumera vários motivos que justificam a ubicação destes dous emplaçamentos fora dos lugares mais povoados e mais organizados, como eram as dióceses de Lugo, Braga, etc. Os motivos foram geo-políticos. O erro (interessado) da historiografia decimonónica espanholista foi situar arredor de Oviedo e Leão os reinos de Astúrias e Leão, inexistentes nessa altura. Só havia uma única unidade, herdada da província romana e do reino suevo: o reino da Galiza. Este reino, como todos os da idade média, vivia baixo a influência de duas forças: uma centrípeta, que buscava a união política das elites e das redes de poder que teciam o complexo organigrama do reino baixo o guarda-chuvas dum rei e dum poder eclessiástico (ao estilo do reino carolíngio), e uma outra força centrífuga, que se manifesta nas lutas internas polo poder, nas quais se buscavam alianças dentro e fora do reino: por exemplo, pactos puntuais com árabes para lutar contra um nobre ou bispo vizinho, ou mesmo contra o rei. Saúde

      • Ernesto V. Souza

        Há um livro muito interessante:

        LOS OTROS ESPAÑOLES: LOS MANUSCRITOS DE TOMBUCTU, ANDALUSIES EN E L NIGER (En papel) de MANUEL PIMENTEL SILES e ISMAEL DIADIE

        http://www.casadellibro.com/libro-los-otros-espanoles-los-manuscritos-de-tombuctu-andalusies-en-e-l-niger/9788427030091/942646

        Que conta a história da família Kati e do seu arquivo biblioteca, hispano-árabes de ascendência visigoda, para além da história familiar e do arquivo, desenha a hipótese de que a Invasão musulmana da Espanha nunca existiu, que foi apenas uma mudança progressiva nas elites que compartilhavam o norte de África e o sul peninsular… nesse sentido é um choque político e militar, e com a religião e a cultura árabe entre as elites nobiliárias no Sul.

        Considerando a existência de um território vasto entre o Douro e o Tejo sem grandes pupulações em disputa e um Norte Galaico…

        • Paulo Gamalho

          Essa mesma (ou semelhante) é a hipótese do meu caro Carreira: “non é sostible a idea de ningunha reconquista [ ] a preocupación da Monarquía centrábase na imposición da súa autoridade sobre espazos xa pertencentes a Galicia, cuxos límites políticos non experimentaron cambios ata o s. XII… [ ] A documentación presenta a nosa vista a intensidade dunhas relacións mutuas entre os mundos cristián e musulmán que forzosamente desorienta a quen a consulta co prexuízo incrustado polo paradigma reconquistador pois desmonta a ficción da fronteira relixiosa [ ] Os intereses das respectivas aristocracias condicionaban as relacións cos reinos veciños, sen apenas mediación das afinidades ou discrepancias relixiosas.”.

      • Louredo

        Mas desaparece a diocese de Bretonha e Oviedo ocupa os seus territórios no Návia, modificam-se os limites das diocese de Lugo (e segundo dizem alguns autores, pola perturbaçom e saqueos da invasom árabe) quer dizer algumha mudança tivo que haver. Nom desaparece o reino mas há mudanças internas. Suponho que também há um problema de transladar noçons actuais à vida “política” de há mais de mil anos. Polo que dizem alguns historiadores críticos asturianos no oeste de Astúrias houvo pouco control do Ocidente por parte dos senhores do centro e leste de Astúrias o que explicaria as ligaçons lingüísticas à Galiza (já que os senhores que havia no Ocidente asturiano controlavam também terras na Galiza). Polo que dizem era ao contrário, os senhores do leste e centro de Astúrias nom queriam proseguir a guerra contra o Islám. Ramiro I apoiado por um exército de galegos (acho que já vivia na Galiza) fai-se com o trono em Oviedo. Neste sentido, porque iam ir contra um rei que puxerom eles?

        • Paulo Gamalho

          As mudanças e liortas internas foram contínuas durante todo esse período. Uma das mais importantes foi a desarticulaçao da poderosa diócese de Braga, que passou a depender de Lugo e depois de Compostela (o marketing da peregrinaçao fez com que se centralizasse o poder eclessiástico em Santiago). A história ‘oficialista’ fala que Braga estivo baixo domínio árabe e por isso o bispo bracarense foi deslocado a Lugo e o de Dumio a Mondonhedo. Segundo Carreira, o controlo musulmano do território bracarense nom está documentado. As causas destas mudanças eram de natureza político-administrativa: a profunda crise dalgumas urbes controladas polo poder episcopal, a estratégia jacobea, etc. Mas bom, a minha fonte é sempre Anselmo L. Carreira 🙂

          • Louredo

            Si, mas é esse é outro episódio, as mudanças operadas no espaço galaico-asturiano coincidem temporalmente com as razzias árabes. Já no assunto de Braga é um lugar-comum que a competéncia entre Braga e Compostela foi umha das causas da separaçom galego-portuguesa. O que está perfeitamente documentado som as incursons árabes, com o fim de obter recursos ou vassalagem, nom parece que tivessem muito interesse em establecer-se nestas terras. Hoje nom há história oficialista, há historiadores mais ou menos sérios, com diferentes interpretaçons e depois o que há acho propaganda de carácter político ligado à história, mas isso acontece nom só no nacionalismo espanhol

          • Paulo Gamalho

            Sim, é certo o que dizes sobre a hitoriografia. Quanto ao ponto inicial desta discussão: houvo mudanças internas no espaço galaico após a chegada ao poder do emirato cordovês? Acho que as razzias, assim como as alianzas pontuais com elites árabes, formam parte das contínuas mudanças dentro da entidade galaica. A entidade foi evoluindo e mudando até quebrar: primeiro foi o condado portucalense e depois o território leonês. Mas isto teria acontecido provavelmente com ou sem poderes árabes no Sul da península. É uma evolução interna.

  • Paul

    Existem actualmente 2 “estados sucessores” do Reino dos Suevos: a República de Portugal e a Comunidade Autónoma da Galiza, embora na página da Wikipédia sobre os predecessores dos actuais estados europeus, o Reino dos Suevos apareça apenas na entrada sobre Portugal.

    https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_predecessors_of_sovereign_states_in_Europe

    Embora em Portugal ainda esteja muito presente o mito da Lusitânia como origem de Portugal (graças à indoutrinação pelo Estado), começam a aparecer cada vez mais vozes a desmontar este mito. Nessas vozes incluiu-se recentemente uma muito importante – a Ordem dos Engenheiros de Portugal – que num artigo publicado na sua revista oficial, destruiu o mito da Lusitânia e indicou o Reino Suevo como a entidade política que deu origem a Portugal. O artigo em questão foi transcrito para a seguinte página:

    http://despertadoteusono.blogspot.com.es/2015/04/portugal-e-o-reino-dos-suevos-409-545-ad.html

    Isto tem implicações fortíssimas, principalmente para a LUSOfonia, cujo nome em si parece destinado a afastar Portugal e Galiza como se fossem dois estranhos sem o mesmo ADN. Acredito que apenas o conhecimento pleno da história real das nossas origens, escondida e manipulada tanto pelo Estado Português como pelo Estado Espanhol, poderá reverter o afastamento programado que se observa actualmente e a destruição da língua na Comunidade Autónoma da Galiza.

    Apenas quando os portugueses souberem e se orgulharem de ser aquilo que realmente são – galegos livres e independentes do mini-império castelhano – e quando os galegos perderem os preconceitos e tiques de supremacia espanhola, é que as coisas podem mudar.

    http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2011/02/suevos.jpg

    • Louredo

      O reino dos Suevos nom deixou sucessores, foi conquistado polos Visigodos. Se o que se quer dizer que houvo um reino suevo na Galiza, também o houvo em Leon. Suponho que é a partir da conquista árabe quando podemos ver já algo definida à Galiza actual. O reino suevo foi outro elemento histórico mais, mas duvido que seja importante para explicar a Galiza actual

      • Paulo Gamalho

        Antes de nada, obrigado de novo por todas as vossas achegas. A unidade político-administrativa da Gallaecia nasce provavelmente na época romana, pois era uma das Províncias da península. O reino Suevo mantém e estende um chisco esta entidade, que abrange Galiza (atual), norte de Portugal e boa parte de Castela-Leão. Quando os Visigodos tomam o poder em toda a península é possível que se mantenha certa autonomia nesta entidade político-territorial reconhecida como Gallaecia. Duas provas: as elites galaicas apoiam a Vitiza, o rival visigodo de Rodrigo, e toda a Gallaecia fica fora do reinado/emirato musulmano quando este poder substitui ao poder visigodo no 711. Em resumo, a Gallaecia, como entidade político-territorial, mantém a sua coesão interna e a sua extensão territorial inalterada durante 1000 anos (desde século II até o XII).

        • Louredo

          A Gallaecia, como província romana.é de aparecimento tardio. Que umhas elites apoiem a um visigodo nom prova muita cousa, nom? Galiza fica fora do emirado como ficam as áreas montanhosas de todo o norte, som inacesíveis, complicadas de gerir, pobres e com clima mau, do ponto de vista árabe, ainda assi foram saqueadas várias cidades da Galiza em diversas ocasions. A história explica umha identidade, que é partilhada por todo esse espaço do noroeste ibérico, mas acho que as ánsias de autodeterminaçom nom deveriam justificar-se na curta história do Reino da Galiza. Se nom tivesse existido este Reino, quase sempre ligado a Leom a às Astúrias, alguém duvidaria do feito nacional galego? Os límites da Gallaecia nom eram os mesmos dos que a Galiza medieval ou a actual, Galiza fica no núcleo, mas na periferia surgírom outras identidades. Deveria falar-se das naçons da Gallaecia, e hoje em dia, umha dessas naçons galaicas é Espanha, representada em Leom, salvo que, com efeito queiramos falsificar a história e a realidade actual

          • Paul

            Não concordo com a sua análise. A Gallaecia e a Lusitânia foram entidades geográficas dentro da estrutura romana na Hispania, necessárias à administração eficaz da mesma. Não foram entidades com carácter de estado, logo não são predecessoras de nada.

            O espaço geográfico correspondente à Lusitânia recebeu esse nome por causa da tribo mais poderosa e que mais luta deu ao império romano nessa zona. Haviam no entanto numerosas tribos que nela habitavam e que poderiam ser aliados ou não dos Lusitanos.

            O mesmo é verdade da Gallaecia, cujo nome provém de uma tribo cujo povoamento (Cale) se localizava no que hoje é a cidade do Porto. Esse nome serviu depois para região romana do resto do noroeste peninsular.

            http://www.academia.edu/10819665/Origem_e_significado_dos_nomes_de_Portugal_e_da_Galiza

            Mas em termos políticos, o que hoje conhecemos como Portugal e Galiza têm origem na entidade com carácter de estado designado por Reino dos Suevos ou Reino da Galiza, nascido no período de decadência do império romano, que tinha capital em Braga e o seu núcleo central ficava entre o Douro e o Minho. Isto é visível na extensa toponínia germânica da região norte de Portugal (a maior concentração em toda a península ibérica). Esse reino expandiu-se para norte (actual Galiza) e sul (actual centro de Portugal), formando uma área de influência enorme e chegando a ocupar um terço ou mais da península, sendo a sua principal área de influência o noroeste peninsular.

            Esse reino foi depois obrigado a retroceder aos seus limites originais pelos Visigodos, tornando-se vassalo mas não desaparecendo completamente.

            A Reconquista tem início no que sempre foi a área de influência desse reino, pois Astúrias e Leão faziam parte daquilo que os árabes designavam de Jalikia (Gallaecia). Não há aqui enganos em relação a isto. O nacionalismo espanhol é que sempre tentou apagar esse Reino da Galiza (Reino dos Suevo) da história.

            https://scontent-lhr3-1.xx.fbcdn.net/hphotos-xft1/v/t1.0-9/s720x720/11402985_933904276669071_2608798384512060159_n.jpg?oh=7181acaf3e647b83fac4de01a1281fb4&oe=565F0AA9

            O início da Reconquista acaba por “libertar” os territórios desse reino, tanto as áreas de influência como o núcleo central (região entre o Douro e o Minho) restabelecendo o Reino da Galiza, estendendo-se quase até Lisboa (pertencente à antiga zona de influência do Reino Suevo).

            Depois vêm as intrigas e lutas feudais, e quando tiram de Braga (capital original do Reino dos Suevos) as relíquias cristãs e as levam para Compostela, os bispos “portugueses” fazem com que independência do centro e sul do Reino da Galiza (actual norte e centro de Portugal) se torne inevitável como retaliação.

            E o resto é a história que já conhecemos. O Reino do Suevos (Reino da Galiza) parte-se numa Galiza independente a sul (Portugal), e outra a norte dominada e castrada por Castela com os resultados que estão à vista (incluindo a existência deste portal na internet e a actual discussão em torno da língua Galega!).

            http://despertadoteusono.blogspot.com.es/2015/03/carlos-peregrin-otero-e-o-paradigma.html

          • Galician

            “A Gallaecia e a Lusitânia foram entidades geográficas dentro da estrutura romana na Hispania, necessárias à administração eficaz da mesma. Não foram entidades com carácter de estado, logo não são predecessoras de nada.”

            Entidade apenas geográfica era Hispania, Gallaecia e Lusitania eram entidades politico-administrativas. Homem, Estado, Estado, não sei se naquela altura existia algum Estado (conceito do S. XIX) na Europa ou no mundo. Acho que não.

          • Galician

            A Independencia de Portugal do Reino da Galiza dá-se no 1139. Mas estamos a falar do Reino Medieval da Galiza, nao do Reino Suevo, que é muito mais antigo…

          • Paul

            O que quis dizer é que Gallaecia e Lusitânia eram simplesmente unidades administrativas, dentro do Império Romano, esse sim era o “Estado”. Muitos países actuais podem ser considerados sucessores desse império, mas não tanto como identidade nacional (talvez os Italianos). Tanto a Bélgica como a Albânia fizeram parte do império romano mas pouco têm em comum nas suas identidades nacionais.

            É verdade que existiram dois reinos na Gallaecia com o mesmo nome, pois o dos Suevos também era conhecido como Reino da Gallaecia. E é verdade que passou muito tempo entre os dois. A questão é que são o mesmo reino, mas com a derrota para os Visigodos e a ocupação muçulmana pelo meio, que acabaram por alterar a ordem existente durante muito tempo.

            O ponto que quis frisar é que o “núcleo central” desse reino germânico esteve sempre na região entre o Douro e o Minho, com particular atenção à capital Braga. Mesmo com a derrota para os Visogodos e consequente vassalagem, e a ocupação muçulmana, o fio identitário nunca desapareceu da região, continuando a população ligada por LÍNGUA, religião, tradições e costumes. Língua essa que entre Portugal e Galiza só se partiu no séc. XIV, bastante depois da independência de Portugal, segundo Peregrin Otero. (O leonês e o castelhano já se tinham afastado no séc. VII)

            Com a Reconquista feita na direcção que foi, de norte para sul, ganham relevância outras regiões (Astúrias, Leão) que até ali tinham feito parte da zona de influência do Reino Suevo mas com pouco poder. Este desequilíbrio causou mal-estar junto do clero, nobres e população do “núcleo central”, que se sentiam roubados da importância e poder que consideravam ser legitimamente seus, sendo que a retirada de autoridade religiosa a Braga para a transferir para Compostela juntamente com as ditas relíquias foi a gota de água.

            O Reino da Galiza medieval (sucessor na sua identidade, língua e costumes do Reino Suevo) parte-se em dois, continuando um deles com o nome, ficando o “núcleo central” e a parte sul (Coimbra) com o nome de Portugal.

            Esses dois sucessores têm depois sortes muito diferentes, como já todos conhecemos. A Galiza ainda chegou a proclamar como rei a Fernando I de Portugal mas foi sol de pouca dura.

          • Heitor Rodal

            Os romanos não inventavam sobre o nada.

          • Galician

            Concordo, se os Romanos delimitaram a Gallaecia do jeito que delimitaram é porque havia um sustrato étnico, cultural, de ocupação do território (os castros por exemplo) previo mais ou menos homogéneo… As cousas nunca são por acaso.

          • Galician

            Sim, mas no caso galego há uma característica fundamental a ter em conta que não se deu noutros países europeus. Da província romana até a actualidade manteve o mesmo nome, isso tem um valor simbólico enorme. E sim, Braga foi a praza central no Galliciense Regnum Suevo.

          • Heitor Rodal

            Sobre a “invenção” da Gallaecia polos romanos (nesta Terra seica tudo tenha que vir inventado de fora..) era bom consultarmos fontes muito anteriores, como a epigrafia sul lusitana, muito anterior à aparição de qualquer romano por estas terras: https://en.wikipedia.org/wiki/Nerii

            Saúdos.

          • Galician

            Aí fala dos Nerii, mas não dos Galaicos nem da Gallaecia…

          • Heitor Rodal

            ‘invoking the Lugoues of the Neri people, for a nobleman of the Celtae/Galtai: he rests still within; invoking every hero, the grave of Tasiioonos has received him.’ – Fica claro que os Nerii estavam inseridos numa entidade superior chamada Celtae/Galtai.

          • Paulo Gamalho

            Pode ser que as áreas montanhosas do norte fossem inacessíveis e pobres, mas os territórios de Astorga ou de Braga nom eram pobres nem inacessíveis, e nom som terras tam frias como as de Teruel 🙂 . Para explicar por que toda a Gallaécia ficou fora do Emirado, Carreira e outros argumentam que se trata dum território mais ou menos coesionado, que mantém a mesma organizaçom interna que tinha quando era província Romana e reino suevo, e que se aliou com os Árabes para acabar com o reinado de Rodrigo (entre outras cousas). Frente a esta explicaçom, pode-se arguir que o noroeste era frio, inacessível e pobre, e portanto de pouco interesse para os Árabes. Este segundo argumento funciona se só estívessemos a falar do extremo norte, mas nom é o caso. Quanto à questom da identidade nacional, eu nunca (acho) introduzim este tema, que desconheço. É um conceito decimonónico que eu, pessoalmente, nom percebo mui bem. É demasiado abstracto para mim e costumo nom utilizar nunca nas minhas argumentaçons.

          • Louredo

            Mas é que Terual é muito mais parecido aos planaltos de Marrocos do que a qualquer outra coisa. Além disso estava entre duas áreas muito valoradas polo potencial agrícola, Zaragoça e Valência. O Noroeste nom tinha importáncia estratégica. É difícil imaginar o inacessíveis que seriam zonas da montanha galega naquele tempo. Sobre a identidade, a verdade o comum é encontrar estelas com fulano de tal: Límico. ou de outro povo na actual Galiza

          • Galician

            Gallaecia aparece entre o 284-305 d.C. (na vida de emperador de Diocleciano) e manteve o nome até hoje. 1700 anos é ter historia curta??? PS: Isso de Leao e Asturias é mais que mito, na cartografia medieva l nunca aparecem, Galiza a toda hora…

          • Louredo

            Si., bom tamén nós chamamos esquimós aos inuit e os argentinos gallegos a todos os espanhóis. É umha crónica de um fulano árabe, o que deve interessar é como se chamavam a si mesmos os cristáns. Se Galicia era o reino que pervivia mais ou estava mais organizado pois nom é raro isso, mas a história nom é a crónica de um fulano, é a análise de diferentes fontes constrastadas

          • Galician

            A história é a crónica de um o vários fulanos assim como o máximo de fontes que possamos obter entre as quais estão claro as crónicas…

            Fontes árabes, por exemplo, referido-se a Galiza como toda a parte cristiã da Península há mais de um, dous ou três “fulanos”. Poderias começar com este livrinho introdutorio de 251p: http://iacobus.usc.es/record=b2057224~S1*gag

            Mas se queres cousas de mais impacto visual tens ainda a cartografia medieval europeia a localizar a Galiza bem situada nos Mapas-Mundi da época. Onde merda aparece Leão e Astúrias nesses mapas?

            https://www.flickr.com/photos/[email protected]/20105677741/

            https://www.flickr.com/photos/[email protected]/15373377058/in/photostream/

            https://www.flickr.com/photos/[email protected]/15208362409/in/photostream/

            https://www.flickr.com/photos/[email protected]/14955547410/

      • Heitor Rodal

        Fica claro: o Reino Suevo não deixou sucessores; o Reino Visigodo ou a Hispânia romana, sim. E a Galiza, -perdón, Galicia- inventarom-na há menos de quarenta anos com o Estatuto de Autonomía . Tudo bem.

        • Ernesto V. Souza

          é-che o que há e o demais fabulações apenas boas para quitar entre amigos e tomando umas cuncas com algo que preste… XD XD

          • Louredo

            A questom é que estades comparando realidades que nom som comparáveis. O Reino Visigodo desapareceu, os reinos que nacérom depois som outra cousa. Claro que todo o moderno tem relaçom com o passado mas o que queria dizer é que o conceito da Gallaecia romana é diferente da Galiza actual. A seguir com os vossos argumentos, Leom é umha cidade galega e o castelhano ou o leonês línguas próprias da Galiza. A Gallaecia que é umha divisom administrativa bastante tardia e que incluia povos com certeza com diferentes línguas e culturas é antecesora da Galiza, mas também de amplas áreas de Espanha. É na conjugaçom de muitos passados que se conforma umha identidade, mas para a identidade galega é muito mais definidora 800 anos de ligaçom a Leom, e alguns menos de ligaçom ao reino de Castela, e depois a Espanha. É mais do que evidente

          • Ernesto V. Souza

            que vá falar com a sua puta mãe… ou não me entende que não converso com desconhecidos?

          • Louredo

            Achava que era mais educado, mas pelos visto era tudo aparência

          • Ernesto V. Souza

            Deixe de fazer o idiota e a gente será mais correta.

          • Louredo

            Quando falham os argumentos ou se sentem ameaçados os preconceitos a resposta é um insulto.Um clássico

          • Ernesto V. Souza

            Pois nada… Tenho bastante respeito pelo Paulo e pelo PGL como para continuar esta absurda conversa. Aceite as minhas desculpas pelos insultos e procure entender que algumas pessoas estamos mais que fartos, por estas margens de fantasmas, trolls, anónimos e pseudônimos. Pela minha parte é impossível tomar a sério, fazer caso ou debater questões históricas ou filológicas com uma máscara. Lamento a minha limitação e desconfiança. Que tenha bom dia e argumente bem. Saúde.

          • Heitor Rodal

            Claro, ho: tudo vem dalgures, mas nunca é o mesmo.
            P. ex., a Euskal Herria atual não é com certeza a Euskal Herria de há 1500 anos. Nem a Catalunha de hoje é a mesma que a Catalunha do ano 1000. Mesmo a Espanha atual não é a mesma de há 500, nem 400, nem 200, nem sequer 100 anos (e senão, que o perguntem aos guinéu-equatorianos e mais aos saarauis). Mas aí não faz mal.

            E só a Galiza que não tem qualquer profundidade histórica. Brainwashing.

            E como ia ser diferente se a nossa “lingüiña” inventamo-la há apenas três décadas?

            Saúde.

          • Louredo

            Devo explicar-me mal. Com certeza a Galiza tem “profundidade histórica” qualquer que seja o significado disso. O que tento dizer é que a Gallaecia é tam “episódio fundacional” da Galiza como de Leom (e portanto da Espanha actual). Ou é que nom é evidente. É uma construçom prática romana, com funçons administrativas incluia povos provavelmente diversos, desde os grupos astures romanizando-se, até os galaicos, etc. Provavelmente esta administraçom deu certa unidade ao território. Nem sequer hoje zonas de fala galega da Gallaecia se consideram galegas, por ex. o Eo-Návia, onde o sentimento como parte da Galiza é inexistente na prática

          • Heitor Rodal

            Respondo por partes:

            1.- “a Gallaecia é tam “episódio fundacional” da Galiza como de Leom”

            Resposta: e quem disse o contrário?

            2.- “[A Gallaecia] É uma construçom prática romana, com funçons administrativas incluia povos provavelmente diversos, desde os grupos astures romanizando-se, até os galaicos, etc. Provavelmente esta administraçom deu certa unidade ao território.”

            Resposta: e de onde tirou todas essas certezas?

            3.- “Nem sequer hoje zonas de fala galega da Gallaecia se consideram galegas, por ex. o Eo-Návia, onde o sentimento como parte da Galiza é inexistente na prática.”

            Resposta: e daí? Há aragoneses que falam catalão [ou melhor “chapurriau”, segundo eles próprios] e querem continuar sendo aragoneses… mutatis mutandi, deveremos coligir a inexistência histórica – e mesmo talvez atual – da Catalunha (!!).

            4.- “A construçom de Galiza como naçom diferenciada só pode começar com a separaçom de Portugal, e aparece realmente com mais definiçom no sec. XIX”

            Resposta: a que é que se refere aqui com “nação”? Uma entidade estatal diferenciada? Uma entidade legal? Uma entidade cultural diferenciada?

            5.- “Esta construçom além disso está ligada com efeito à Galiza administrativamente espanhola pois é inexistente socialmente na antiga Galiza portuguesa, que aderiu à ideia da naçom portuguesa (sendo núcleo fundacional dessa naçom)”

            Resposta: irrelevante para a questão e absolutamente habitual por toda parte: Navarra é o núcleo original de Euskal Herria e a sua população atual não adere à ideia de se unificar com os outros territórios bascos [ reconhece-o a própria Uxue Barkos, presidenta basquista de Navarra ], a Ucrânia é o núcleo primigénio da Rússia e agora querem ser independentes, etc… E daí?

          • Heitor Rodal

            Sobre o que seja a “profundidade histórica”, velaqui um vídeo muito bom sobre a memória histórica e cultural:

            https://www.youtube.com/watch?v=0__d2TBFX6E

            As cousas, afinal, não vêm do nada.

          • Louredo

            Nom o, mas Galiza nom é o mesmo do que a Gallaecia. Muitos anos passárom, é só umha parte da nossa construçom. Como povo, como psicologia grupal e cultura quotidiana, muito mais relevante é a dominaçom espanhola , ou castelá. Da Gallaecia ven a língua,mas nom nos diferencia muito da Gallaecia leonesa. O que é diferente na lingua vem depois. Gallaecia é tam percursora da naçom galega como da espanhola

          • Heitor Rodal

            Sobre o de que a Galiza não seja o mesmo que a Gallaecia, já foi respondido.

            Sobre o de que a Gallaecia seja ou possa ser tão precursora da nação galega quanto da espanhola, também foi respondido e ninguém disse nada a contrário disso (já logo, cada quem escolhe os referentes que quer utilizar e os espanhóis, polo que for, tomam outros que precisamente o que fão é ocultar a Gallaecia. Lá eles!).

            Sobre a importância da dominação ou pertença castelhana ou espanhola da Galiza inserida na Espanha, não serei eu quem a negue. O que é certo é que sem a existência dos galaicos e da Gallaecia pré-romana, romana e sueva não estaríamos a falar da Galiza, mas doutra cousa: o último sempre vai depois do primeiro e sem o primeiro não há último.

          • Louredo

            Entom se estamos de acordo nom sei porquê e de quê discutimos. A minha crítica vai para aqueles que procuram qualquer facto diferencial galego em tempos tam recuadoss. O facto diferencial ou nacional galego esta-se a construír todos os dias ( elementos folclóricos, traje, gaita etc, parecem ser nom tam antigos, muitas palavras da norma AGAL aparecem na Galiza nos últimos 20 anos, muitas das tradiçóns cristás galegas som medievais, outras festas som do sec. XX. os pinheiros, símbolo de Coaliçom Galega e de Pondal -com a pinha- nom levam, de jeito tam dominante, nem 300 anos na paisagem galega, os mexilhons só se cultivam desde o sec. XX, muitas lendas som comuns ao resto das naçons atlánticas, mas mediterráneas.E o nacionalismo galego nace no sec. XX. O que devemos à Galleacia é boa parte da língua, nom toda, mas boa parte, e provavelmente a unidade de um território, provavelmente desagregado em grupos étnicos e línguas diferentes

          • Heitor Rodal

            Devo dizer que concordamos nalgumas cousas, mas noutras não: em toda tradição cultural há elementos antigos, elementos reinterpretados e elementos novos. Porque se não fosse assim, essa cultura seria simplesmente uma entidade morta e é precisamente nesse equilibrío entre velho, novo e renovado que as culturas se desenvolvem e acham continuidade. Não entendo portanto por que se devam negar os primeiros.

            Porque o que acontece amiúde na Galiza, mesmo entre sectores pretensamente ‘galeguistas’ por se não chegasse já com o labor do espanholismo mais furibundo, é a denegrição e até a negação de qualquer elemento cultural – tradicional, reinterpretado ou novo – que não tenha sido promovido por essas pessoas ou não encaixe nas suas lérias ideológicas particulares. Aliás, para isso importa pouco a evidência etnográfica que possa haver sobre a questão:

            http://antonioribeironoticias.blogspot.com.es/2012/03/mendes-ferrim-arremete-contra.html

            Assim, realmente, não se vai nengures.

            Já sobre o resto: há pouca dúvida de a Navarra ter sido foco primigénio do vasconço (“lingua navarrorum”) e dos bascos. Digo eu que ambas cousas terão alguma importância na conformação da Euskal Herria atual, ou?

            E também continua vc. a teimar na ‘probabilidade’ de a Gallaecia ter sido “um território, provavelmente desagregado em grupos étnicos e línguas diferentes” sem achegar qualquer evidência ou dados que sustenham porque essa probabilidade deveria ser maior que a contrária.

            Saúdos.

          • Louredo

            Dou-lhe a razom nalgunhas cousas a Ferrín. O do Samaín, é unha invençom recente (é algo mais do que furar cabaças e pôr candeas, que também é cousa mexicana) e pode ser criticável desde umha actitude cultural purista.Deve ser o equivalente ao nosso magusto. Sobre o Apalpador a verdade soa um pouco repetitivo com o Pai Natal, mas já é totalmente crível, por existir mais algumha figura similar no norte ibérico. É questom de gostos e a sua extensom ao resto do território galego depende da vontade dos citadáns (desculpas pola palavra). Pode ser considerada até entom umha tradiçom local (nom me parece um elemento cultural nuclear em qualquer caso, a sua concidência com um costume alheo que parece ser o mesmo cria problemas de difusom). No caso do Samaín nom tivo este problema porque é algo diferente à nossa tradiçom e muitos estám dispostos a crer qualquer cousa se vem com a etiqueta de celta, que é fixe ainda hoje (recomenda-se música dos Chief tes tein acompanhante)

          • Heitor Rodal

            Mas, como já foi dito, todas as culturas são invenção e reinvenção. A alternativa a isso é a morte.

            Saúde.

          • Louredo

            Já, mas nom devia confundir-se a imaginaçom com a história moderna e os seus métodos científicos. Se conto um conto é un conto, se dou dados históricos, som dados (certo é que a história sempre tem um filtro ideológico, mas outra cousa é que a Corunha fosse fundada por unicórnios ou por Breogám, que tanto dá, e outra cousa é obter dados arqueológicos e conclusons), Se no dia de manhá descobrimos que foi fundada por fenícios, isso nom os fai menos galegos. Acho sem sentido pretender buscar a identidade galega na Galiza romana, onde havia grupos diferentes, en Valdeorras eram astures por exemplo, e em partes da Gallaecia ou da área cantábrica a povoaçom foi provavelmente massacrada ou deportada, se fazemos casos às crónicas romanas (que nom digo que hjaa que fazer de todo)

          • Heitor Rodal

            Pois não: uma cousa são os dados e outra cousa é a História, isto é: o relato que se constrói a partir desses dados. Por isso, falar em “história científica” é como falar em “poesia científica”.

            Quer dizer, a História é basicamente a interpretação dos dados conhecidos e presumidos – e amiúde também dos desconhecidos – que se fai num determinado momento e lugar.

            E falando nos dados desconhecidos, teima você em insistir na existência de “grupos diferentes” na Gallaecia romana, sem especificar exatamente a que é que se refere com “grupos diferentes” (étnias, povos, gens, tribos, etc. diferentes?), nem achegar as fontes em que baseia tal suposição.

            Falando nos astures, há autores que através de diversos métodos de pesquisa (linguística, etnográfica, etc.) defendem que os astures eram simplesmente os galaicos do Leste, igual que os havia do Sul (gróvios) e do Norte (ártabros).

            Sobre interpretações e análises a partir de dados poderemos discutir sobre a veracidade ou verosimilhança do relato histórico. Sobre simples opiniões, não, por muito que as repitamos ad infinitum. Por tanto, recomendo-lhe ler p. ex. ‘As Tribos Calaicas. Proto-História da Galiza à Luz dos Dados Linguísticos’, do prof. Higino Martins Esteves:

            http://www.adigal.org.ar/TRIBOSUNIFICADOparaREDE.pdf

            Saúde.