“Aquiles” e as tartarugas

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Por Ernesto Vasques Souza

We lived like men that watch a painted stage.
What matter for the scene, the scene once gone:
It had not touched our lives. But popular rage,
Hysterica passio dragged this quarry down.
None shared our guilt; nor did we play a part
Upon a painted stage when we devoured his heart.

“Parnell’s Funeral” by W. B. Yeats

A cousa é que há associações paveras. Momentos que me fazem rir a cachão. Ter ido por anos abandonando pequenas bibliotecas por várias casas e pelo costume de deixar em livros como marcas ou lembranças notas, recortes velhos de imprensa, fotocópias, entradas de cinema, bilhetes de avião, metro, comboio, cartas, tickets… faz com que (como se do senhor golpe com os seus despojos para inverno se tratar) tope surpresas encantadoras enquanto fracasso na procura de livros e dados concretos.

Saibam os deuses a causa, mas no meio de um, amarelado pela humidade herculina, ferrinesco Amor de Artur topo um recorte de data imprecisa de fins de 80, primeiros 90, daquele maravilhoso Diario de Galicia, do que muitos recortes tenho e até o número final, onde se lamentava, do mesmo jeito premonitório e cíclico, a desaparição de um meio crítico, moderno, colorido e pensado para o País.

Mas não é o caso. Tudo o mais receios, uma falta de perspectiva compensada com uma mania acumuladora, estética do livro e a imprensa da época pré-digital que já foi e a pertinência de ter em aviso o olho de vidro preparado para ler mais adiante, quando já estivermos na cova, um responsinho pela defuntinha Imprensa galega.

Suponho que o recorte entrou aí porque o tamanho coincidia com o formato do livro e o livro com o espaço livre para fechar a caixa. O texto era artigo de Ricardo Carvalho Calero em que desenhava o paradoxo teórico de Zenão de Eleia “Aquiles e a Tartaruga” para dar uma volta, alegórico, no lingüístico sobre o necessário de pôr motor a tartaruga galega para esta poder competir com castelhano dos pés ligeiros.

Vão perdoar, ó leitor amigo e imigo, meter baralhados a sombra órfica de dom Ricardo, a presença sombria de Ferrín e mesmo o mal gosto de mentar a soga na casa e tempo de tanta imprensa enforcada, mas e que (e ainda pensando paradoxal nas nossas teimas célticas de ciclos agrários numa Galiza que é um imóvel de eternidade e saudades) não acha o leitor que nos repetimos os intelectuais galegos e que damos voltas e voltas a cavalo das mesmas tartarugas e o castelhano continua nas suas corridas par perto e longe sem reparar pataco em nós?

Digo por que botando um olho à mesma caixa topo com livros do Castro, publicações oitenteiras de filologia da USC, ensaios pagos pelas Caixas e Deputações, cousas do Consello da Cultura, Galaxiadas, livros da Xerais e Sotelo Branco dos anos 90, velhas cousas da AGAL e leio: “aquiles” , “istes”, “intres” e a mão que pariu tão polémicos os perenes diferencialismos, as escolhas e a normalização.

E escaralho-me. Penso nas “tartarugas ninjas mutantes” contemporâneas a esses textos e concluo feroz e divertido, já imparável empapado no brilhante esperpento de amarelo humidade do papel, em que os mais dos livros, quitando os dados concretos de sucessos, encontros, vidas e momentos apenas pairam em duas questões obsessivas: a diferencialização de um modelo nacional (“ser diferente, ser diferente, é ser existente”) e a manifestação da reivindicação como objetivo do uso da língua (normalização e conflito).

Bem, a língua já foi estabelecida como diferente e portanto como certificado do nacional e existente. Nacional e diferente das duas variedades que inicialmente lhes eram com ela una: castelhano e português. E a reivindicação, o uso como marca do nacional, tornou-se já equivalente do uso culto da língua

E pronto. A conclusão parece ser a mesma da das eleições: a situação está mal, porém ganhamos (e que morram os raros!). Em conseqüência, e com permissão do Mário Herrero: ganharam as tartarugas (ou ainda as lesmas e os que mais: os mofos que anunciam vermes).

Fecho a caixa farto do bolorento cheiro. Talvez noutra caixa, noutro tobo, ache cousas que me façam pensar em qualidade de língua e me alimentem a crescente fame de estilo, a fame de língua fresca.

Máis de Ernesto V. Souza