Alunado de filologia da UDC avalia 40 anos de oficialidade do galego



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Isaac Lourido

Neste ano 2021 há 40 anos que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um status legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisarmos este período, estamos a realizar umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom para o futuro.
Desta volta realizamos umha entrevista a um coletivo: o alunado da matéria Normalizaçom e Planificaçom da Língua Galega impartida polo professor Isaac Lourido na cadeira de opçom do 3º ano do Grau em Galego e Português: Estudos Linguísticos e Literários da Universidade da Corunha.

As respostas foram elaboradas de maneira colaborativa por Álvaro Bermúdez Vázquez, Lorena Castro Romero, Segio Couso Núñez, María Antonia Domínguez Montaña, María Geremías Taboada, Cintia Iglesias García, Anabel Mosteiro Sánchez, David Neira Sieira, Camila Rieiro Rivero, Julia Rodríguez Martínez, Rubén Sanjurjo Campello, Alexia Souto Castro e Marta Torrado Carollo, com coordenaçom de Isaac Lourido, como parte do processo de aprendizagem.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
[Estas respostas fôrom elaboradas em equipa e, no caso desta pergunta, isso imposibilitou a chegada a acordos unánimes, já que houvo múltiplas iniciativas que considerámos salientáveis. A continuaçom ficam refletidas aquelas que achamos merecedoras de mençom.]
A Lei de Normalización Lingüística do ano 1983 recolhe muitas das iniciativas mais positivas em relaçom à planificaçom do status da nossa língua. A introduçom do galego como língua de uso em ámbitos administrativos e educativos, e como matéria de estudo obrigatório, tivo um grande impacto na saúde da nossa língua, pois deu certa proteçom legal tanto à expansom dos seus usos como à sua regulamentaçom. Embora estarem consideradadas iniciativas próprias da planificaçom do corpus, também tivérom repercusons importantes no status o desenvolvimento dumha estandarizaçom e a mudança da toponímia autóctone, propriamente galega, já que ambos processos contribuírom para a legitimaçom da língua.
Além disso, a Lei Valentín Paz Andrade, aprovada no ano 2014, foi de grande releváncia para a planificaçom do status, pois favorecia entre outros aspetos a entrada do português no sistema educativo galego; em geral, a possível reaproximaçom entre a nossa língua e a língua portuguesa é de utilidade tanto para reivindicarmos a história do galego e legitimá-la como para resolvermos muitas das problemáticas habituais dentro da planificaçom do corpus.

Em geral, a possível reaproximaçom entre a nossa língua e a língua portuguesa é de utilidade tanto para reivindicarmos a história do galego e legitimá-la como para resolvermos muitas das problemáticas habituais dentro da planificaçom do corpus.

Tamém, a criaçom de médios de comunicaçom públicos em galego serviu como ferramenta de normalizaçom. A presença em plataformas como a televisom, a rádio, as redes sociais ou outros âmbitos digitais em que empregarmos e promulgarmos a língua é imprescindível para a sobrevivência de qualquer idioma; além disso, é também importante desenvolvermos e diversificarmos a cultura galega que podemos consumir por estes meios.
As iniciativas normalizadoras ativistas que procuram a defesa do galego tivérom e continuam a ter um papel central na planificaçom do status, pois é preciso sensibilizarmos a populaçom a respeito da situaçom da nossa língua além das instituiçons oficiais. Por último, achamos destacável o progressivo melhoramento no desenvolvimento de metodologias científicas e rigorosas – quantitativas e qualitativas – que permitem realizar diagnósticos sociolinguísticos confiáveis a partir dos quais podem ser elaboradas propostas de planificaçom.
Se bem que consideramos que todas as iniciativas agora mencionadas tivérom grande importáncia na melhora do status do galego, estas fôrom pouco desenvolvidas. Temos de ser críticas com a implantaçom da Lei de Normalización Lingüística e da Lei Paz Andrade, porque fôrom insuficientes, e tamém, por exemplo, com a CRTVG, que promove um modelo de língua de escassa qualidade e tem perdido espaços de uso nalguns programas tanto da televisom como da rádio.

Se pudessem recuar no tempo, que mudariam para que a situação na atualidade fosse melhor?
[Para abordar esta pergunta dividimos as nossas ideias em três partes, relacionadas respetivamente com as planificaçons do corpus, do status e da aprendizagem.]
A respeito da primeira, consideramos que para a situaçom do galego ser melhor, a normativa ortográfica escolhida polas nossas autoridades linguísticas devia ter sido outra, umha que se aproximasse dum modelo comum ou semelhante ao do português, ou que tomasse como referência o chamado reintegracionismo de mínimos. Neste mesmo plano do corpus, consideramos historicamente negativos para a situaçom do galego outros aspetos, como o facto de o Instituto da Lingua Galega ter menoscabado a autonomia da Real Academia Galega já desde a década de 1970 ou a existência de soluçons “duplas” nos padrons ortográficos promovidos institucionalmente.

Consideramos que para a situaçom do galego ser melhor, a normativa ortográfica escolhida polas nossas autoridades linguísticas devia ter sido outra, umha que se aproximasse dum modelo comum ou semelhante ao do português, ou que tomasse como referência o chamado reintegracionismo de mínimos. Neste mesmo plano do corpus, consideramos historicamente negativos para a situaçom do galego outros aspetos, como o facto de o Instituto da Lingua Galega ter menoscabado a autonomia da Real Academia Galega já desde a década de 1970 ou a existência de soluçons “duplas” nos padrons ortográficos promovidos institucionalmente.

Quanto ao status, pensamos que é umha questom axial analisarmos a posiçom do galego nos diferentes sistemas que regem a nossa vida, com especial importáncia do sistema educativo. Nele, o trabalho deveria ter sido mais intenso contra os preconceitos, teria de haver umha maior sensibilizaçom a respeito da nossa situaçom sociolinguística e também umha melhor formaçom do professorado, que provocasse que a qualidade da nossa língua se visse revalorizada. Em geral, deveria ter existido umha maior presença do galego em todos os ámbitos educativos: diversidade de matérias, trabalhos de gestom e administraçom, melhor funcionamento das equipas de normalizaçom etc.
Num segundo nível de importância, achamos que teria sido necessário um trabalho mais intenso de planificaçom linguística por parte da Junta da Galiza e dos concelhos, que fosse levado a cabo de maneira conjunta, decidida e coordenada, dado que a falta de coordenaçom institucional foi um dos fatores que lastrárom a planificaçom do galego nas últimas décadas. Para além disso, também deveria ser requerido um maior compromisso aos partidos políticos com a nossa língua e, no ámbito económico, o estabelecimento de medidas que implicassem um maior uso por parte das empresas.
Finalmente, no tocante à planificaçom da aprendizagem, devia ter sido ativado e disponibilizado um maior número de conteúdos para conhecer e aprender o galego, ademais de ser incentivada como língua de acolhimento para as pessoas procedentes quer doutras partes do Estado quer doutras partes do mundo. Trata-se de converter o galego num elemento positivo e fundamental para a integração na nossa sociedade.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Nas últimas décadas, as pessoas que falam habitualmente castelhano, mas que conhecem e entendem o galego, convertérom-se numha potencial fonte de utentes da nossa língua. Portanto, sem desvincularmo-nos da necessária transmissom intergeracional e da transmissom social do galego (através dos espaços de jogo, do desporto, da cultura, dos meios de comunicaçom etc.), cumpriria focarmo-nos tamém naqueles possíveis falantes “latentes” que só precisam querer dar o passo. Umha iniciativa que facilita essa transiçom e que está a ser levada a cabo nos últimos anos é a criaçom de espaços de segurança para neofalantes, em que estas pessoas podem praticar ou habituar-se ao galego sem se sentirem julgadas. Com este fim, também achamos fundamental combater os preconceitos que aparecérom a respeitos destes novos falantes, ligados à sua “falta” de competências linguísticas ou a supostas motivaçons ideológicas.
Outras formas de incentivarmos a transiçom cara ao galego que encontramos fundamentais som, por exemplo, as campanhas de sensibilizaçom sobre a situaçom da língua, se bem que estas nom devem cair no estigmatizaçom ou na culpabilizaçom de quem (ainda) nom fala galego, nom o fala em todos os contextos ou deixou de falá-lo. Do mesmo modo, pondo o foco sobretudo nas novas geraçons, pensamos que a CRTVG deveria impulsar a criaçom de conteúdos audiovisuais em galego, assim como atualizar o procedente doutros países. Neste sentido, um modelo que se poderia seguir é o da Catalunha, cuja televisom pública conta com canais informativos, infantis ou desportivos. Finalmente, outra forma de estimularmos o uso geral da nossa língua passa por mostrarmos a sua utilidade e potencialidade dentro do espaço lusófono, bem como incrementar o número de referentes positivos linguísticos e cultural dentro do nosso país e valorizá-los devidamente.

Um modelo que se poderia seguir é o da Catalunha, cuja televisom pública conta com canais informativos, infantis ou desportivos. Finalmente, outra forma de estimularmos o uso geral da nossa língua passa por mostrarmos a sua utilidade e potencialidade dentro do espaço lusófono, bem como incrementar o número de referentes positivos linguísticos e cultural dentro do nosso país e valorizá-los devidamente.

Achais que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
O binormativismo poderia ser umha possível soluçom ao conflito ortográfico da língua galega, alternativa que já foi implementada nos casos do luxemburguês, em que o padrom alemám convive com umha forma local luxemburguesa, e do norueguês, com as normas bokmål (próxima do dinamarquês) e nynorsk (baseada nos dialetos ocidentais do país).
O reconhecimento das normas ortográficas defendidas polo reintegracionismo e a sua equiparaçom à atual norma oficializada poderia acarretar umha série de consequências muito desejáveis para a nossa língua, tais como acabar com a discriminaçom das pessoas reintegracionistas – cujos perfis, em muitas ocasions, tem sido desviados da oportunidade de se candidatar a certos postos de trabalho ou excluídos do acesso a determinados reconhecimentos unicamente por causa da sua escolha ortográfica–, ou a possibilidade de que cada falante empregue a norma que quiger. Além disso, o binormativismo provalvemente também facilitaria o processo de normalizaçom do galego, ajudando a melhorar a sua qualidade linguística e a fornecer tanto um maior conhecimento da língua aos seus utentes quanto umha maior sensibilizaçom sobre o conflito linguístico, o que, por sua vez, poderia contribuir para reduzir as interferências do espanhol. Assim sendo, através desta via teríamos a possibilidade de reforçar o status do galego, bem como o reconhecimento da Galiza no espaço da lusofonia, posto que esta proposta permitiria tornar o nosso idioma numha língua mais útil e de projeçom internacional que reforçasse a comunicaçom cultural, institucional e económica com o resto dos países de fala portuguesa.

O binormativismo acabaria com a discriminaçom das pessoas reintegracionistas, facilitaria o processo de normalizaçom do galego, ajudando a melhorar a sua qualidade linguística, e, através desta via, teríamos a possibilidade de reforçar o status do galego, bem como o reconhecimento da Galiza no espaço da lusofonia.

Contudo, se levarmos em conta a realidade sociopolítica na Galiza, achamos que o binormativismo nom é umha proposta concretizável em curto ou em médio prazo, devido fundamentalmente à falta de vontade e de compromisso por parte tanto da Junta da Galiza e dos partidos políticos quanto das autoridades linguísticas oficialmente reconhecidas (Real Academia Galega e Instituto da Lingua Galega). Aliás, essa suposta igualdade legal nom implicaria necessariamente umha igualdade real de usos e de prestígio de ambas as normas, senom que provavelmente continuaria a marginalizaçom e a escassa aceitaçom social do modelo reintegracionista em todos os ámbitos; nesse sentido, também seria preciso que a AGAL fosse reconhecida polo governo como autoridade linguística oficial, ao mesmo nível que a RAG e o ILG.

Porém, o binormativismo nom implicaria necessariamente umha igualdade real de usos e de prestígio de ambas as normas, senom que provavelmente continuaria a marginalizaçom e a escassa aceitaçom social do modelo reintegracionista em todos os ámbitos; nesse sentido, também seria preciso que a AGAL fosse reconhecida polo governo como autoridade linguística oficial, ao mesmo nível que a RAG e o ILG.

Porém, mesmo que estes inconvenientes fossem superados, o binormativismo poderia trazer consigo alguns aspetos negativos, como, por exemplo, a dificuldade de o implantar de maneira sistemática no ensino ou o fortalecimento de preconceitos já existentes acerca das mudanças e da instabilidade na normativa da língua galega. Inclusive, parece existir umha certa falta de definiçom na própria proposta binormativista, na qual teriam de ser preenchidas algumhas lacunas importantes, nomeadamente no que respeita à questom sobre qual dos diferentes modelos convergentes com o português seria privilegiado afinal pola AGAL.


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