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Alexandre Ramos: «A AGAL deve ser o ‘núcleo irradiador’ para os setores socioculturais favoráveis ao reintegracionismo»

Alexandre Ramos (2)Militante desde muito jovem de diferentes organizações da esquerda independentista como a AMI e NÓS-UP, posteriormente focou o seu ativismo no associacionismo cultural, onde contribuiu para fazer do centro social A Esmorga da cidade das Burgas um projeto gerador de esperança e integrador, como responsável pela organização durante a época em que o novo local da Esmorga acabou por se converter no referente cultural da cidade em chave galego-portuguesa.

Colaborador do Novas da Galiza, nos últimos anos tem focado o seu interesse na aprendizagem de línguas (italiano e inglês, nomeadamente) além de adquirir novas perspetivas culturais nas suas estadias no estrangeiro.

Diplomado em Turismo e Graduado em Estudos Ingleses pela UNED, depois de levar a cabo um projeto EVS (Serviço de Voluntariado Europeu) na Sérvia, na atualidade dá aulas de inglês em dois centros de ensino da cidade de Ourense e estuda uma pós-graduação no âmbito da gestão de arquivos e bibliotecas públicas.

Antes de mais, gostávamos de conhecer como é que ocorreu o teu achegamento ao reintegracionismo.

Para dizer a verdade, quando entrei a militar no independentismo organizado há uns quinze anos, a prática reintegracionista estava plenamente normalizada, quer dizer, vinha no pacote ideológico. Ora bem, é certo que para mim não resultou num grande abalo ou shock. Embora seja o espanhol a minha língua materna, sempre senti uma grande simpatia por Portugal e aí foi que passava as minhas férias de verão desde que era criança. Suponho que, embora não ser consciente no seu momento, o facto de sentir sempre Portugal tão próximo foi um fator importante na hora de adquirir consciência e compromisso linguístico.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da   associação? Que podes tu achegar a ela?

Bom, a realidade sociolinguística galega deixa pouco lugar para o otimismo. É óbvio que o isolacionismo. que, durante mais de trinta anos, implementou as suas receitas para normalizar e estimular o uso do galego nos diferentes âmbitos sociais, fracassou com estrépito na sua estratégia. Acho que mesmo as elites que apoiaram esta corrente nas grandes lutas normativas dos anos 80 já deixaram de acreditar no seu credo. Os governos espanholistas não têm um poder tão absoluto como para anular um idioma se existir uma sociedade civil organizada com poder para conter e limitar o efeito de decretos agressivos.

Sendo isto assim, considero que o alargamento e popularização do reintegracionismo é fulcral para o futuro do idioma. Nos últimos anos, tenho percebido a implementação de novas dinâmicas na associação que considero certeiras para criar uma imagem moderna e atrativa do que significa ser reintegracionista na Galiza do século XXI.

Acho que a AGAL deve ter o papel de núcleo irradiador para todos aqueles setores socioculturais favoráveis a aceitarem o reintegracionismo como estratégia integral para o futuro do português da Galiza, sempre de um ponto de vista modernizador e transversal.

No que diz respeito ao meu envolvimento na associação, acho que a minha experiência prévia no campo do associacionismo cultural pode ser de interesse para a AGAL. Porém, tenho interesse em colaborar no PGL, na medida da minha disponibilidade, com a redação de artigos e notícias de temáticas do meu interesse, nas quais possa achegar o meu ponto de vista particular, sempre de um ponto de vista rigoroso.

Desde muito jovem tens contribuído para difundir o ideário reintegracionista quer via política quer via cultural…Como gostavas que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Do meu ponto de vista, a esquerda independentista fez um trabalho impagável na difusão e visualização nas ruas da proposta reintegracionista, de uma ótica essencialmente prática. Acho que isto contribuiu para tirar o aspeto de debate académico e ajudar a torná-lo numa luta social pelo reconhecimento de direitos linguísticos e culturais básicos. Infelizmente, vejo como o independentismo organizado já não tem a presença nas ruas que chegou a ter e, aliás, em muitos casos já não utiliza a norma reintegracionista ou não a considera um elemento fulcral do seu discurso.

Uma das legendas mais difundidas do reintegracionismo tem sido a de “monolinguísmo social na Galiza”. Sei que provavelmente vou ser polémico, mas acho que esta afirmação já não faz sentido na Galiza de 2016 e, ainda, não é nem tão sequer desejável.

Com certeza, o monolinguísmo social é bandeira da marca España, e por efeito da colonização mental, com frequência mesmo quem diz combater a ideologia espanholista cai em decalques do que supostamente diz combater: se na Espanha tudo se traduz para o espanhol, na Galiza temos de fazer o mesmo; se na Espanha tudo o material audiovisual é dobrado, nós devemos fazer o mesmo com o galego; se na Espanha há um ambiente hostil perante a aprendizagem de línguas estrangeiras, na Galiza temos de ser iguais…O único que muda é o fator língua (espanhol no primeiro dos casos / galego-português no segundo) mas a filosofia e o discurso é o mesmo. Como é óbvio, o projeto nacional espanhol tem a força suficiente para espalhar este ideário, mas no caso da comunidade nacional galega estas forças são tão fracas que mesmo podemos encontrar efeitos prejudiciais de rejeitamento entre camadas sociais que, de início, não deviam ser hostis à normalização do nosso idioma.

O nacionalismo banal, como conceituou o cientista social britânico Michael Billig, é a forma difusa do nacionalismo nos Estados-nação consolidados, tornando-se num mecanismo omnipresente que orienta as percepões e define uma identificação natural entre uma língua, uma cultura, um território e uma comunidade política. “Banal” deve ser entendido no sentido de “natural”, “comum”, “quotidiano” e “omnipresente”. Estou convicto de que o conhecimento de línguas e da diversidade cultural planetária, além da difusão de produtos culturais noutros idiomas, são fulcrais para rachar com a estreiteza de pontos de vista que define ao/à galego/a convencional. Este/a galego/a convencional do ano de 2016, formado/a no sistema educativo do Reino da Espanha, é produto estrela deste nacionalismo banal, muitas vezes invisível e que não costuma ser visto como tal pelas pessoas às quais se dirige, mas extremadamente efetivo até ao ponto que, nas últimas décadas, está a conseguir na Galiza o que 40 anos de repressão franquista não foram quem de atingir.

Quanto maior conhecimento de elementos multiculturais, maior poderá ser a consciência sobre a realidade de que o galego não é mais do que um dialeto do que internacionalmente é conhecido como português. Acho que não temos que ter medo de chamar as coisas pelo seu nome já que é provável que chamar português da Galiza ao nosso idioma cause mais receio em essencialistas do que em galegos/as com uma visão aberturista no que diz respeito à diversidade cultural.

Um dos mantras do nacionalismo galego tem sido identificar língua com nação. Achas vigente esta visão da língua nas circunstâncias atuais? Do teu ponto de vista, como deviam ser as nossas relações linguístico-culturais com Portugal?

Alexandre Ramos (3)Bom, no que diz respeito a esta questão, acho que no seio do nacionalismo galego já se começou a mudar esta mentalidade, embora seja óbvio que de jeito insuficiente. Historicamente, o nacionalismo galego nasceu como uma força modernizadora e progressista, que bebeu e introduziu no nosso país ideias e planeamentos vanguardistas para a sua época, e em que Portugal teve um papel fulcral como referente no seu imaginário coletivo. O grande desastre que significou a Guerra Civil espanhola e a posterior ditadura franquista, fez com que os nexos e vínculos desde o interior com os núcleos deste nacionalismo que se refugiu no exterior quase sumiram. Do meu ponto de vista, o novo nacionalismo surgido em torno do grupo Brais Pinto em 1963 rompe com toda a tradição anterior e aposta por uma conceção nacional baseada em princípios e paradigmas estalinistas e cingida a quatro meras províncias do noroeste peninsular. As relações com Portugal e qualquer referência aos vínculos galegos com a realidade nacional lusa são apagadas de jeito sistemático, dado que este novo nacionalismo está decidido a implementar a ideia nacional nascida de Estaline que identifica uma nação com uma história, uma língua e umas tradições supostamente originais e diferenciadas de qualquer outra realidade nacional. A nação tem um passado imemorial e umas origens remotas e não se concebe como um projeto coletivo a construir. Enquanto bascos e catalães modernizam e atualizam o seu discurso e prática, o nacionalismo galego fica paralisado na reivindicação de um passado glorioso no qual as pessoas que habitam este território têm um sentimento de pertença nacional que se remonta pelo menos aos tempos do Reino Suevo da Gallaecia. Meio século depois, o quadro ideal em que ambientar esta ficção mal se pode enxergar ou, no melhor dos casos, tem ficado reduzido a áreas rurais isoladas e condenadas a sumir sob o peso dum progresso que, no caso galego, tem um aroma claramente espanhol. Os apelos à língua e cultura dos nossos ancestrais dificilmente vão movimentar vontades ou acordar sensibilidades numa sociedade em que grandes massas de população têm, para já, o nosso idioma como um elemento totalmente alheio no seu âmbito diário de relacionamento social.

Ora bem, uma vez fique assumido pelo soberanismo galego em geral que a base para construir uma nação é a vontade de ser tal coisa, talvez ainda seja possível construir um projeto nacional sério a longo prazo. É aqui que eu considero que o reintegracionismo tem de deixar a sua marca. Nesta (re)-construção nacional, temos de ser quem de influir no paradigma a construir. Temos que convencer e persuadir essa pequena percentagem de soberanistas galegos/as que pular pelos direitos nacionais da Galiza tem que ir de mãos dadas com um maior achegamento social, cultural e político a Portugal. Temos que conseguir que os galegos e galegas vão mais a Portugal, façam amizades com portugueses/as, leiam e ouçam com maior frequência o nosso padrão internacional, saibam mais de hábitos sociais, da situação social e política de além do Minho, ou saibam do que se se passa em Lisboa ou Chaves tanto como do que se passa em Málaga ou Valência. É esperançoso o papel que a AGAL está a ter para já neste processo de uma ótica transversal, sendo a minha perceção que existem cada vez mais casos de pessoas que, de jeito individual, abraçam teses achegadas ao reintegracionismo.

Nos últimos anos tens focado o teu interesse na aprendizagem de diferentes línguas…desde a tua perspetiva como se deveria estruturar o ensino de línguas na Galiza? O que opinas do modelo das escolas Semente?

Para já, o primeiro fator que temos de assumir é que o uso do galego, embora seja ainda predominante em algumas comarcas rurais, é claramente minoritário e, ainda, quase inexistente em numerosas áreas urbanas, cidades e vilas galegas onde o uso do espanhol é amplamente majoritário. O galego já não é a língua nativa da maioria da população. Segundo estatísticas do IGE, para o ano 2013, praticamente 50% dos habitantes das sete principais cidades galegas aprenderam a falar só em espanhol, 52% dos pais e mães mal falam nessa língua com os filhos e em quase 30% dos lares ninguém usa já o nosso idioma. Parece que essa ideia de a escola pública representar um elemento espanholizador, que vinha a mudar os hábitos linguísticos das nossas crianças já não é mais assim. Acho que, nas últimas três décadas, temos passado duma situação de diglossia, em que crianças galego-falantes no seu lar mudavam para o espanhol no âmbito público (nomeadamente na escola) para uma outra situação em que, talvez, a escola seja o único lugar em que crianças de extração urbana (amplíssima maioria na Galiza de 2016) têm a oportunidade de ouvir e falar a nossa língua.

Contudo, acho que o famoso Decreto de Plurilinguismo, aprovado pelo governo do Núñez Feijóo em 2010, sob esse suposto objetivo de formar corretamente as crianças galegas no emprego tanto de espanhol como de galego e inglês, tem servido para tirar proveito desta situação de morte anunciada do galego e acelerar este processo no nome da aprendizagem do inglês. A realidade é que, num âmbito social em que o espanhol é omnipresente e a aprendizagem de línguas colide com um esquema cultural e uma organização social refratária para esta realidade multicultural, o único que ganha terreno é o espanhol. Nem o inglês tem melhorado posições, no que diz respeito a usos e aprendizagem efetiva, nem o galego tem conseguido sair deste processo de desaparição progressiva, cada vez mais acelerada.

A ideia de um trilinguismo ambiental nos estabelecimentos de ensino é uma ilusão, pois o único ambiente claramente apalpável é o espanhol. Como docente de inglês num âmbito urbano, posso observar como a aprendizagem do galego está a cair em problemas similares aos que tem o inglês: a inexistência de espaços de imersão linguística, embora, paradoxalmente, contemos com mais meios e ferramentas para facilitar isto do que nunca; uma imensa maioria de crianças hispano-falantes que chegam ao ensino primário sem terem trabalhado com a nossa língua na educação infantil ou no seu âmbito familiar, perante o qual muitos centros de ensino acabam por obviar ou reduzir o uso do galego às matérias que lhe são reservadas e que, aliás, costumam ser ministradas por docentes hispano-falantes como indicava recentemente o filólogo Carlos Valcárcel numa entrevista publicada no PGL. Em resumo, o galego, assim como o inglês ou as restantes línguas ofertadas no ensino público, são línguas alheias cujo tempo de exposição se reduz às aulas, ou às vezes nem tão sequer isso…Talvez seja o momento para começar a copiar estratégias de imersão linguística válidas para línguas estrangeiras em países em que o plurilinguismo está consolidado e conta já com uma certa tradição.

No que diz respeito às Escolas de Ensino Semente, acho que representam um projeto inovador para a Galiza e que representam uma ferramenta de construção nacional que, como no caso basco, procura construir espaços nacionais de educação para crianças com o fim de evitar deixar a questão linguística em mãos de instituições refratárias ao nosso idioma no campo educativo. O facto de todas as atividades serem desenvolvidas em galego-português, e a sua focagem cultural em chave reintegracionista, é muito importante para estabelecer um paradigma de futuro. Porém, gosto das Escolas de Ensino Semente como espaço de pedagogia transformadora, que entende a escola como parte integrante da sociedade, procurando garantir um processo de ensino e aprendizagem democrático que facilite que as crianças sejam cidadãs livres e críticas.

Contudo, a construção popular e à margem das instituições dum projeto como este tipo de escolas, é uma alternativa focalizada em pequenas minorias e grupos de resistência que, embora vão constituir, com certeza, um embrião de vital importância para a transmissão geracional de valores e princípios afins ao reintegracionismo, não podem tornar-se o único refúgio para os agentes defensores da nossa língua. O facto de deixar os enormes recursos do ensino público em mãos de agentes liquidadores da nossa identidade própria, bem como renunciar às pequenas quotas às quais podemos ter acesso como reintegracionistas, considero que pode ser mesmo perigoso e mesmo irresponsável nas circunstâncias atuais. Suspeito que a forma de conjugar e compatibilizar ambos modelos vai ser um fator determinante para determinar uma orientação estratégica que seja quem de obter os melhores resultados possíveis com os meios disponíveis, falando em termos de sobrevivência linguística e cultural.

Através Editora tem editado um livro de dois volumes titulado Quem fala a nossa língua?. Nesta obra estudam-se diferentes casuísticas similares à galega. Na tua estadia na Sérvia tiveste ocasião de perceber algumas similitudes com o caso galego?

Alexandre Ramos (1)Para dizer a verdade, acho que se alguém me perguntar pelo melhor exemplo de isolacionismo retrógrado e excludente, sem dúvida havia responder que é aquele que, infelizmente, se tornou hegemónico em finais dos anos 80 do século passado na região balcânica, à custa, além do mais, de dezenas de milhares de assassinatos e massacres indiscriminadas.

Os povos eslavos meridionais separaram-se do tronco comum dos eslavos e migraram conjuntamente para a península balcânica no século VI d.C. Formando um conjunto humano cultural e socialmente homogéneo, estes povos começaram a cair na influência de potências limítrofes uma vez que a península balcânica foi conquistada e dividida politicamente em finais da Idade Média. Alguns deles caíram sob a órbita do Império Austro-Húngaro, nomeadamente zonas da atual Eslovénia e Croácia; outros caíram sob a órbita otomana, nomeadamente zonas da atual Bósnia Herzegovina; e outros, mantiveram os seus traços eslavos de uma maneira mais nítida embora estar subjugados pelo Império Otomano, nas atuais Sérvia e Montenegro.

Em finais do século XIX, uma volta que estes povos com uma origem e uma cultura comuns adquirem a sua independência política, começa a surgir entre certas elites intelectuais progressistas um projeto sociopolítico que procura a unidade política e cultural e a sua materialização num só estado com estrutura federal. O Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, formado em 1918, passa a se chamar, por decisão do rei Alexandre, Reino da Jugoslávia em 1929, existindo com esse nome até ser invadida pela Alemanha nazista em 1941. De 1941 a 1945, Hitler e Mussolini ocuparam a Jugoslávia e impuseram regimes fascistas que resultaram em matanças e atrocidades. Surgem então movimentos de resistência em que se destacam os milicianos que, liderados por Tito, conseguem libertar o país sem a ajuda direta do Exército Vermelho. Vitoriosos, os guerrilheiros liderados por Tito constituem a República Socialista Federativa da Jugoslávia, agrupando 6 repúblicas: Sérvia, Croácia, Eslovénia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro e Macedónia. Um dito popular que sintetizava o sistema político da Jugoslávia era: “Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido”.

Feita esta pequena introdução, uma volta que as tensões começam a surgir após a morte do marechal Tito, os nacionalismos etnicistas excludentes, e alimentados por interesses estrangeiros, começam a articular projetos políticos baseados na pureza étnica e na eliminação, tanto física como simbólica, dos laços culturais comuns. A língua joga um papel fulcral neste processo. Desde a normativização levada a cabo em meados do século XIX pelo linguista Vuk Karadžić, os diferentes dialetos falados nos territórios da Sérvia, Croácia e Bósnia e Herzegovina, passaram a denominar-se língua servo-croata e a ensinar-se com uma gramática comum no incipiente ensino público. Com a separação, a questão linguística torna-se numa questão de estado. “Jezik je materica” proclamam os líderes do novo estado croata nascido no 1992. E já que a língua é o embrião da nova nação, há que pagar dezenas de filólogos para rastejar qualquer sinal distintivo das falas croatas, com o objetivo de estandardizá-lo. Como é óbvio, quando estes rastos não existiam, houve que inventá-los e dotá-los de uma tradição imemorial. Chegados a este ponto, como em qualquer outra língua de matriz indo-europeia, a modernidade fizera com que tivessem de ser introduzidos neologismos para descrever realidades inexistentes até esse momento. Muitos deles foram alvo dos novos linguistas-inventores croatas ou bósnios. Há exemplos bem engraçados que, com certeza, podem ser bem familiares para nós: os neologismos como telefone ou helicóptero, que no idioma servo-croata tinham a denominação de “telefon” e “helikopter”, foram substituídos por “brzoglas” e “zrakomlat”, que literalmente significam “voz rápida” e “batedor de ar”. Qualquer sinal de impureza filo-sérvia ou filo-muçulmana procurou ser rapidamente eliminado. A palavra “cinto”, de origem turca, passa de chamar-se de “pojas” a “okolotrbusnji pantalodrzac”, literalmente “sustentador em torno da cintura”. Este processo de isolacionismo e invenções em grande escala não só tem lugar na Croácia, mas também na Sérvia e nas diferentes entidades que formam a Bósnia e Herzegovina, com objetivos opostos mas uma estratégia comum. Estas tentativas de purgar empréstimos do idioma turco chegaram ao ridículo, dado que, se tal coisa se fizesse, não poderia haver conversas sobre algodão, aço, sabão, toalhas, cobertores ou lençóis.

Contudo, e da minha experiência pessoal, acho que esta loucura isolacionista começa a ser superada pela realidade dos fatos, e projetos de cooperação cultural afloram em toda a parte, nomeadamente entre aquelas gerações que não viveram a guerra e que começam a ver com normalidade os seus vizinhos, com os quais, aliás, não têm qualquer problema comunicativo. Ao contrário de outros estados com experiências socialistas, nas repúblicas balcânicas atuais um sentimento de jugonostalgia pode ser percebido com facilidade. A ideia de que na velha Jugoslávia se vivia melhor é, com certeza, um sentimento que, embora não tenha articulação política organizada, é partilhado por amplas maiorias sociais.

Como último dado anedótico, dizer que, mesmo tendo estudado a gramática sérvia estandardizada, sempre tive mais facilidade para perceber falantes procedentes da Croácia ou de certas partes da Bósnia do que os próprios falantes da Sérvia meridional, região na qual eu morava.

Conhecendo Alexandre

  • Alexandre Ramos (2)Um sítio web: Dado que o espanhol também é uma língua de que gosto imenso, quero recomendar a todos e todas as leitoras desta entrevista o site do magazine cultural Jot Down. Artigos com uma redação deliciosa, conteúdos variados e uma profundidade temática que reivindica o prazer da leitura e a obtenção de informação a fogo brando, em contraste com a era da informação junkie falsamente comprimida em 140 carateres.
  • Um invento: Aproveito a pergunta para reivindicar a figura do sérvio Nikola Tesla, esse grande esquecido do século XX. De fato, enquanto muito devagar vai recuperando o lugar que merece na História, todos os dias continuamos a utilizar diversos aparelhos e tecnologias que ele ideou com uma finalidade de progresso social quando outros mal eram quem de sonhá-los.
  • Uma música: Gosto de rock, indie, clássica e música de anos 70 e 80 para além de diferentes músicas étnicas do mundo. Uma banda atual para recomendar a toda a gente: os canadienses Arcade Fire.
  • Um livro: Vou citar um livro que para mim teve uma grande influência na hora de redefinir conceitos como nação, povo, identidade ou tradição. Estou a falar de Imagined Communities, do estudioso estadunidense Benedict Anderson, recentemente falecido, com o qual aprendi que uma nação não é mais do que uma comunidade socialmente construída e politicamente imaginada por pessoas que se percebem a si próprias como parte de um grupo com uma identidade diferenciada. Plenamente vigente, a recente perda deste grande sociólogo pode ser a ocasião perfeita para reformular questões e mudar esquemas mentais.
  • Um facto histórico: Gosto de citar a Revolução de Outubro de 1917 como o meu facto histórico favorito de sempre, já que, para além de considerações morais ou éticas com as que qualquer um/a pode certamente concordar, a transformação de um gigantesco estado ou proto-estado multiétnico, eminentemente camponês e atrasado, numa potência económica e tecnológica ao nível dos EUA em apenas 30 anos, nunca deixou de provocar a minha admiração e espanto, no sentido lusófono do termo.
  • Um prato na mesa: Sou grande fã da cozinha mediterrânica. Se tivesse que escolher, talvez ficasse cuma pizza à moda romana ou um souvlaki grego.
  • Um desporto: Gosto de desportos individuais nos quais o sacrifício e a resistência são chaves para o sucesso. É o caso do ciclismo ou do atletismo (o qual pratiquei na equipa local durante a minha adolescência). Como desporto de equipa, adoro basquetebol.
  • Um filme: Vou recomendar um filme com o qual reivindicar uma figura chave do cinema de autor da segunda metade do século XX. Estou a falar de Pasolini: la verità nascosta. Para além de adorar cinema clássico e de autor, tenho de dizer que, do meu ponto de vista, atualmente existe mais qualidade em séries ideadas para televisão do que em cinema convencional. É por isso que vou recomendar duas series que visionei no ano de 2015 e que considero obras-primas: Fargo e Gomorra.
  • Uma maravilha: A minha primeira visita à antiga villa romana de Pompeia fica na minha lembrança como um dos momentos mais especiais de sempre.
  • Além de galego: Com certeza, português. Aliás, sinto uma grande atração com a história e a idiossincrasia dos povos mediterrânicos do sul da Europa, nomeadamente a Itália, a Grécia e os países que formaram a antiga Jugoslávia.

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